CONVERSA ENTRE MAHAPRABHU E RAMANANDA RAY

22/12/2014 (manhã e noite)
Santos/SP, Brasil


Após Mahaprabhu ter aceito sannyasi, Ele se dirigiu a Shri Jagannatha Puri, onde libertou Sarvabhauma Battacarya. Em seguida, Mahaprabhu foi para o sul da Índia, especialmente para conversar com Raya Ramananda. 


O Senhor Chaitanya é o próprio Krishna que aceita a tez e o humor de Shrimati Radhika, enquanto Ramananda Raya é a querida sakhi Vishakha, uma das oito principais gopis e que é muito próxima de Shri Radha em Radha Krishna lila.

Quando Mahaprabhu se encontrou com Ramananda Raya, Ele fez uma série de perguntas e Ramananda Raya respondeu a todas elas. Isso é sadhu-sanga, um encontro para falar hari-katha, onde discutimos as lilas mais elevadas e abrimos o coração um com o outro.

Shri Chaitanya Mahaprabhu fazia perguntas muito simples e gradualmente ia progredindo do assunto mais básico até o mais elevado. Simultaneamente, Ele perguntava acerca de jiva-tattva, maya-tattva, bhakti-tattva, krishna-tattva, prema-tattva, rasa-tattva, etc. Por exemplo, Mahaprabhu fez a seguinte pergunta: "Qual é o nosso sadhana e sadhya?" Sadhana é o processo que temos que praticar, enquanto sadhya é a meta suprema.

Qual é essa meta? A meta mais elevada é Krishna-prema. Mas qual tipo de Krishna-Prema? O amor espiritual da natureza de uma serva íntima de Shri Radha [Radha-dasyam] no humor de madhurya-parakiya-rasa. Afinal, se encontrar com Krishna não é a meta máxima que podemos alcançar nesta vida humana. A meta última a ser alcançada é servir Krishna sob a guia de Shrimati Radhika.


Se você não expressar o seu coração para uma pessoa, essa pessoa também não poderá expor o seu coração para você. Grandes demônios como Dushasana, Duryodhana e Jarasandha se encontraram com Krishna, mas Krishna não ficou satisfeito com eles, nem os demônios ficaram satisfeitos com Krishna.

Para que haja satisfação entre o bhakta e Krishna, bhakti, a devoção, é necessária. Qual é a meta e destino máximo? Qual a razão por detrás da prática de bhajana e sadhana? Mahaprabhu fez todas essas perguntas a Ramananda Raya, mas pediu que as respostas estivessem repletas de evidências dos Vedas.

Repetindo, a meta máxima que pode ser alcançada nesta forma humana de vida é a posição como uma serva íntima de Shrimati Radhika, servindo rasa-raja Shri Krishna sob a orientação de mahabhava-svarupini Shri Radha. Mahaprabhu fez essas perguntas e Raya Ramananda, passo a passo, mostrou como podemos alcançar essa meta última. 

O começo da vida espiritual envolve primeiramente aprender a seguir as regras e proibições do varnashrama-dharma. Os animais, por exemplo, não observam varna e ashrama. Eles apenas dormem, comem, se acasalam e se defendem. Essa é a diferença existente entre animais e seres humanos, pois nós temos a oportunidade de observar varna e ashrama, enquanto os animais não.

Raya Ramananda citou o seguinte verso: “Aquele que segue as regras e proibições do varnashrama-dharma satisfaz o Senhor Krishna. Este é o processo da vida espiritual.” Logo, a essência da vida espiritual é seguir varna [shudra, vaishya, kshatriya ou brahmana] e ashrama [brahmachari, grhastha, vanaprastha e sannyasi] e quem quer que faça isso adquirirá muitos poderes místicos.

As escrituras [shastras] explicam como o varnashrama-dharma é uma ciência. Algumas pessoas no ocidente zombam disso, propagando que o varnashrama-dharma não é adequado para os ocidentais. Porém, o varnashrama-dharma não é restrito apenas para os ocidentais ou para os orientais. Ele é necessário para qualquer ser humano que deseja praticar a vida espiritual, seja ele ocidental ou oriental. Quem deseja praticar vida espiritual tem que seguir regras e instruções da sociedade védica. Isso é varnashrama-dharma.

Algumas pessoas, por exemplo, têm este hábito de aceitar as vestes renunciadas e depois casar com uma menina ou assim por diante. Isso não é seguir, de fato, a vida espiritual. De acordo com a cultura védica, aceitar a vida renunciada não envolve usar o açafrão de manhã e durante a tarde substituir as roupas açafroadas por vestes mundanas. Por isso que a primeira resposta que Ramananda Raya dá para Mahaprabhu trata de varnashrama-dharma. 

A cada pergunta que Mahaprabhu fazia, Ramananda Raya respondia detalhadamente, explicando como se pode alcançar a meta máxima da vida humana. A primeira resposta de Ramananda Raya é de que para praticarmos a vida espiritual, todos nós devemos observar o varnashrama-dharma, as regras e restrições que são estabelecidas para a sociedade humana, e Shri Ramananda Raya cita o seguinte sloka do Vishnu-Purana:
shuddha-sattva-visheshatma
prema-suryamshu-samya-bhak
ruchibhis chitta-mashrnya-
krd asau bhava ucyate
[“Se uma pessoa segue as regras e restrições dos shastras, o Senhor Vishnu fica muito satisfeito. Essas regras védicas para a sociedade humana se chamam varnashrama-dharma, que consiste em quatro posições sociais [varna] e espirituais [ashrama].”]

Se a sociedade humana não seguir essas regras e restrições que foram determinadas, não há outra forma pela qual se possa praticar a vida espiritual. Os animais não praticam vida espiritual. Eles estão absortos em comer, dormir, defender e se acasalar, mas quem observa as regras do varnashrama-dharma alcança muitos poderes místicos. No entanto, Mahaprabhu disse que essa resposta era externa, pois o varnashrama-dharma não tem vínculo direto com a natureza da alma.

A segunda resposta de Raya Ramananda, então foi de que devemos oferecer tudo para Krishna. Ele citou o seguinte shloka da Bhagavad-gita (9.27) para provar isso:
yat karoshi yad asnasi
yaj juhoshi dadasi yat
yat tapasyasi kaunteya
tat kurushva mad-arpanam
[“Se você não oferecer tudo para Krishna, estará apenas acumulando atividades pecaminosas nesta vida.”]

Porém, Mahaprabhu disse que essa também era uma resposta externa. Ramananda Raya então continuou com o seu diálogo transcendental e afirmou a instrução de Shri Krsna no Bhagavad Gita: “Abandone todas as regras da sociedade e se entregue completamente aos pés de lótus de Shri Krishna.” Ele citou este extraordinário shloka da Bhagavad-gita (18.66):
sarva-dharman parityajya
mam ekam saranam vraja
aham tvam sarva-papebhyo
mokshayishyami ma sucah
A essência da Bhagavad-gita consiste na demonstração de como podemos nos render completamente aos pés de lótus de Shri Krsna - sharanagati. Mas novamente Mahaprabhu disse para Raya Ramananda que sharanagati também é externo, pois render-se a Krishna, sharanagati, não é bhakti, mas apenas a porta de entrada para o reino de bhakti.

Bhakti não pode ser confundido com sharanagati, pois bhakti é uttama-bhakti, conforme descrito no seguinte shloka:
anyābhilāṣitā-śūnyaṁ
jñāna-karmādy-anāvṛtam
ānukūlyena kṛṣṇānu-
śīlanaṁ bhaktir uttamā
(Caitanya-caritamrta Madhya19.167)
[“Quando o serviço devocional de primeira classe se desenvolve, deve ser desprovido de todo tipo de desejo material, conhecimento obtido pela filosofia monista e atividades fruitivas. O devoto deve servir Krishna de forma favorável, como Krishna deseja.”]

A resposta seguinte de Raya Ramananda revela jñana-mishra-bhakti, a bhakti mista ao conhecimento (jñana), o que acaba por revelar as opulências de Shri Bhagavan. Uma característica dos jñanis, por exemplo, é que eles vivem desapegados de tudo. Mas Mahaprabhu também apontou isso como sendo externo, pois a meta máxima da vida humana reside além disso.

Raya Ramananda então subiu um degrau a mais, explicando que superior ao princípio anterior é jñana-shunya-bhakti [bhakti sem vestígio algum do conhecimento acerca das opulências de Shri Bhagavan], onde todo o conhecimento da opulência de Shri Krsna é abandonado para que seja possível se absorver completamente nos doces passatempos de Shri Krishna. Ele, Raya Ramananda, inclusive citou o seguinte shloka, onde se afirma que devemos abandonar o conhecimento da opulência de Bhagavan, rendendo-se aos pés de lótus de Shri Guru e Krishna e ouvindo hari-katha:
jñāne prayāsam udapāsya namanta eva
jīvanti san-mukharitāḿ bhavadīya-vārtām
sthāne sthitāḥ śruti-gatāḿ tanu-vāń-manobhir
ye prāyaśo 'jita jito 'py asi tais tri-lokyām
(Śrī Caitanya Caritāmṛta, Madhya, 8.67)
[“O Senhor Brahma disse: ‘Meu querido Senhor, aqueles devotos que abandonaram a concepção impessoal sobre a Verdade Absoluta, consequentemente abandonando também discussões acerca das verdades filosóficas empíricas, devem ouvir de devotos auto-realizados a respeito de Seu santo nome, forma, passatempos e qualidades. Eles devem seguir completamernte os princípios do serviço devocional e se abster de sexo ilícito, jogos de azar, intoxicação e matança de animais. Rendendo-se completamente através de corpo, palavras e mente, eles podem viver em qualquer ashram ou status social. De fato, Você é conquistado por tais pessoas, apesar ser inconquistável’.”]

Quando Mahaprabhu ouviu esse shloka de Raya Ramananda, de que se deve ouvir hari-katha, neste momento Mahaprabhu deixou de apontar que as respostas eram externas, como fez com as anteriores, pois bhakti tem início quando desenvolvemos avidez por ouvir hari-katha.

O começo de bhakti reside em shravanan, ouvir o hari-katha de Shri Gurudeva. Isso se chama shravanada-bhakti. Existem nove ramificações de bhakti e o começo ou o primeiro passo é shravanan, demonstrar muita avidez e intenso desejo por ouvir hari-katha. 

Pode-se até cantar três lakhs de harinama por dia [trezentos mil Santos Nomes], mas talvez você não consiga sequer ouvir uma hora de hari-katha. É muito difícil controlar a mente nesse sentido. Se você quer medir a sua bhakti, é só medir o quanto de gosto possui no seu coração por ouvir katha. Mesmo que preste muitos serviços, o mais difícil de todos os sevas é ouvir hari-katha atentamente.

Logo, shravanada-bhakti é o primeiro passo no caminho de bhakti. O Shrimad Bhagavatam dá esta evidência: até o momento em que você está prestes a abandonar o corpo, deve procurar ouvir hari-katha dedicadamente. O hari-katha transcendental entra diretamente pelos ouvidos e alcança o coração, limpando ele de todas as coisas indesejáveis. O Srimad Bhagavatam dá evidências a respeito disso:
srinvatam sva-kathah krishnah
punya-sravana-kirtanah
hridy antah stho hy abhadrani
vidhunoti suhrit satam

nashta-prayeshv abhadreshu
nityam bhagavata-sevaya
bhagavaty uttama-sloke
bhaktir bhavati naishthiki
(Srimad Bhagavatam 1.2.17 – 18)
[“Sri Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, que é Paramatma (Superalma) no coração de todos e o benfeitor do devoto genuíno, limpa o desejo pelo desfrute material do coração do devoto que desenvolveu o gosto por ouvir Suas mensagens, que são em si mesmas virtuosas, quando escutadas e cantadas de maneira apropriada.

Pelo comparecimento frequente em aulas do Bhagavatam e prestando serviço ao devoto puro, todas as coisas indesejáveis no coração são quase completamente destruídas e o serviço amoroso a Suprema Personalidade de Deus, que é louvada em canções transcendentais, é estabelecido como um fato irrevogável.”]

Hari-katha significa que o próprio Krishna entra nos seus ouvidos e se dirige até o coração. Se você ama alguém tem de seguir as instruções dessa pessoa, pois se não ouvir as instruções dela, isso não a fará feliz. Da mesma forma, Krishna fica muito feliz quando alguém ouve hari-katha, pois Krishna-katha é shabda-pramana, ou seja, não é em nada diferente de Krishna. Ouvir os passatempos de Krishna, através do hari-katha, limpa o coração de tudo o que é indesejável. O hari-katha e o próprio Krsna são os amigos dos devotos, logo ambos se encarregam de limpar o coração do devoto.

Certa vez, Brahmaji raptou os amigos e os bezerros de Krishna. Ele fez isso porque nutria dúvidas sobre se Krishna era um menino comum ou Bhagavan, o Ser Supremo. Quando estava indo a Pushkara, Brahmaji passou por cima de Vrindavana e bem nesse momento ele viu Krishna matar Agasura. Quando o demônio foi morto, sua atma (alma) ascendeu ao céu e em seguida desceu e entrou na unha do dedão de Shri Krishna. Nos shastras é explicado que a alma dos asuras [demônios] adentra a unha do dedão do pé do Senhor Krishna, quando esses são mortos por Ele e Brahmaji testemunhou tudo aquilo.

Brahmaji então constatou que Krishna é o Senhor Supremo. Ele começou a pensar que aquele menino devia ser o próprio Senhor Narayana. Mas no dia seguinte, quando Brahmaji viu Krishna novamente, ele percebeu que Krishna estava aceitando os remanentes da prasada dos vaqueirinhos. Isso perturbou muito a mente de Brahmaji, pois na sua concepção o Senhor Nayarana não aceita os remanentes de ninguém, afinal, todos aceitam os remanentes do Senhor Narayana, mas o contrário não podia acontecer. Brahma, Shiva, Narada, todos eles anseiam poder saborear os remanentes de Shri Narayana. A própria Lakshmi Devi prova dos remanentes do Senhor Narayana.

Certa vez, Shri Narada Rishi visitou Vaikuntha e Lakshmi Devi deu alguns remanentes de Shri Narayana a ele. Ao tomar esses remanentes, Shri Narada começou a cantar sem parar: “Narayana! Narayana! Narayana!”
Narada muni, bhajaya vina, ‘radhika ramana’ name
(Narada Muni)
[“O supremamente rasika Narada Muni toca sua vina, cantando os nomes de Sri Radhika-ramana.”]

Essa canção de Shrila Bhaktivinoda Thakura descreve como Narada Muni sempre está cantando os nomes do Senhor, enquanto toca a sua vina. Logo após tomar aquela prasada oferecida por Shri Lakshmi Devi, Shri Narada ficou completamente inebriado, a cantar continuamente os nomes do Senhor. Depois disso, Shri Narada Rishi foi visitar Kailasha, a morada do Senhor Shiva, o qual estava sozinho a meditar em sua deidade adorável, o Senhor Rama. 

Shivaji perguntou: “Ó Narada Rishi, por que você está tão inebriado, cantando os nomes de Shri Narayana? O que aconteceu?” Shri Narada então respondeu: “Eu fui visitar o Senhor Narayana em Vaikuntha e Lakshmi Devi me deu um pouco dos remanentes do Senhor. Por ter me alimentado daquela prasada, entrei em completo êxtase.”

Shivaji fez então outra pergunta a Narada Rsi: “Você trouxe um pouco dos remanentes de Shri Narada para mim?”, mas Narada disse que Lakshmi Devi entregou apenas um pouco a ele, embora houvesse sobrado um restante de maha-prasada de Shri Narayana debaixo de sua unha. Narada Rsi então pegou um pouco daquela maha-prasada e deu para o Senhor Shiva, que por sua vez tomou aquele remanente. Imediatamente o Senhor Shiva ficou completamente inebriado, a cantar continuamente os nomes do Senhor.

Portanto, existem muitas evidências nos shastras de que todos desejam alcançar os remanentes do Senhor Narayana. Foi por causa disso que Shri Brahmaji ficou confuso: “Krishna é Bhagavan ou não? Como é possível? Ontem Ele matou Agasura e hoje está aceitando os remanentes dos vaqueiros? Como é possível que Krishna seja o próprio Narayana?”

Brahmaji não sabia como ele poderia harmonizar essa aparente contradição, logo, resolveu roubar os bezerros e os amigos de Krishna, escondendo-os na caverna de uma montanha. Em seguida, Brahmaji voltou para a sua morada, Satyaloka ou Brahmaloka, mas quando chegou lá, foi impedido pelo guardião da entrada, que disse: “Ei, quem é você?!”.

Brahmaji disse: “Como assim quem sou eu? Sou o Brahma de quatro cabeças. Você é meu servo e esta é minha morada. Por que me impede de entrar em minha própria casa?”. Mas o guardião replicou: “Você é um enganador, não é o senhor Brahma. Nosso amo, Brahmaji, já está presente aqui em Brahmaloka”. Como isso é possível? O próprio Senhor Krishna manifestou uma forma de Brahma e se instalou ali em Satyaloka, no lugar de Shri Brahmaji.

Shri Krishna deu as seguintes ordens ao guardião: “Logo mais chegará uma pessoa dizendo ser o Senhor Brahma, mas ele é um grande enganador. Quando ele chegar e bater na porta, não o deixe entrar, diga que ele é um farsante e mande-o embora”. Mas Brahmaji seguiu argumentando com o guardião de que ele é quem era o seu verdadeiro senhor, amo e patrão. Mas o guardião respondeu: “Nada disso, você não é meu patrão, você é um grande enganador. Meu amo, que já está no palácio, me disse a pouco que iria chegar um farsante aqui. Você é esse farsante!”. Assim, o guardião fechou a porta e mandou Shri Brahmaji ir embora.

Inutilmente, o Senhor Brahma ficou batendo na porta por várias vezes, mas ninguém vinha abri-la. Isso perturbou muito a mente de Brahmaji, que seguia se perguntando sobre o que estava ocorrendo. Ele começou a pensar: “Acho que cometi uma ofensa aos pés de lótus do Senhor Supremo”. Então,  Brahmaji voltou ao lugar onde ele havia roubado os pastores e os bezerros.

Quando chegou em Vrindavana, ele ficou muito surpreso, pois encontrou o mesmo Krishna apascentando os mesmos bezerros e acompanhado dos mesmos vaqueiros que Brahmaji havia raptado e escondido na caverna da montanha por um ano. Isso perturbou ainda mais a sua mente, ao que se pôs a perguntar: “Mas o que está acontecendo se agora mesmo eu roubei todos os bezerros e vaqueiros? Como eles podem estar brincando no campo com o Senhor Krishna?”.

Brahmaji foi imediatamente até a caverna e constatou que todos os vaqueiros e bezerros estavam dormindo dentro da caverna, desmaiados. Cada vez com a mente mais perturbada, duas das cabeças de Brahmaji olhavam para dentro da caverna, enquanto simultaneamente as outras duas cabeças olhavam para o outro lado, em direção ao campo de pastagem.

Isso fez Brahmaji ficar boquiaberto, porque com duas de suas cabeças ele via os bezerros e amigos de Krishna que havia roubado dormindo dentro da caverna e, ao mesmo tempo, do outro lado, suas duas outras cabeças estavam assistindo o Senhor Krishna brincando com esses mesmos bezerros e amigos vaqueiros no campo de pastagem.

Quando Brahmaji voltou de Satyaloka para cá, um ano havia se passado. Nesse momento Brahmaji pôde perceber: “Sim, sim, sim! Krishna é o próprio Bhagavan Narayana que se expandiu na forma de cada amigo e bezerro”. Assim, Brahmaji prestou suas reverências a Krishna, oferecendo muitas orações [stava-stutis] para Shri Bhagavan.

Naquele momento, diante de Brahma, Krishna manifestou de cada amigo e bezerro presente ali no campo de pastagem formas de Shri Narayana com quatro braços. Quando Brahmaji voltou sua atenção para o campo de pastagem, viu no lugar dos vaqueiros e bezerros várias formas transcendentais de Shri Vishnu com quatro braços. Dessa forma, Krishna provou para Brahmaji que Ele é o mula-narayana, o Narayana original. Ele demonstrou que aqueles bezerros e amigos não eram diferentes dEle, sendo Suas próprias expansões. Brahmaji então pode realizar que Krishna é o mula-narayana, o Narayana original e todos os demais Narayanas, ou seja, seus amiguinhos e bezerros, são expansões dEle.

Logo, Brahamji prestou suas reverências a Shri Krishna, ao que todas aquelas formas de Narayana então desapareceram, adentrando a Sua forma transcendental, enquanto o Nayarana original. Isso convenceu completamente Brahmaji da identidade suprema de Krishna. Ele então se pôs a oferecer várias orações a Shri Krishna, as quais estão todas registradas no Shrimad Bhagavan.

No entanto, Krishna não falou nada, enquanto ouvia as orações. Brahmaji recitou várias shlokas, mas Krishna não falava nada. Então, Brahmaji começou a pensar: “Krishna não deve estar feliz comigo”. Afinal, se você está diante de uma pessoa e essa expressa um sorriso em seu rosto, isso é uma demonstração de sua satisfação, mas se o contrário ocorre, então ela expressará um semblante distinto.

Brahmaji começou a pensar: “O que vou fazer agora? Krishna não está me dando a menor atenção”. Mas o que os shastras dizem? Eles dizem que Krishna ficará satisfeito se alguém glorificar os vraja-vasis, os habitantes de Vrindavana. Caso contrário, se não os glorifica, nem mesmo todos os mantras dos Vedas bastarão para satisfazer Krishna. Mas se você cantar e glorificar os vraja-vasis, especialmente as vraja-gopis, com certeza Krishna ficará muito satisfeito.
munīndra-vṛnda-vandite triloka-śoka-hāriṇi
prasanna-vaktra-pańkaje nikuñja-bhū-vilāsini
vrajendra-bhānu-nandini vrajendra-sūnu-sańgate
kadā kariṣyasīha māḿ kṛpā-katākṣa-bhājanam? (1)

madonmadāti-yauvane pramoda-māna-maṇḍite
priyānurāga-rañjite kalā-vilāsa-paṇḍite
ananya-dhanya-kuñja-rājya-kāma-keli-kovide
kadā kariṣyasīha māḿ kṛpā-katākṣa-bhājanam? (5)
(Sri Radha-Krpa-Kataksa-Stava-Raja 1 e 5)
[“Ó Srimati Radhika - Sukadeva, Narada, Uddhava e todos munis mais elevados estão sempe oferecendo vandana (preces) aos Seus pés de lótus. Lembrar de Você e orar pelo Seu seva milagrosamente remove todas as misérias, pecados, e ofensas das três esferas. Sua face jovial floresce como um lótus e Você Se deleita nos passatempos nos kunjas de Vraja. Você é a filha de Vrsabhanu Maharaja e é a mais querida amada de Vrajendra-nandana, com quem Você sempre realiza vilasa. Quando, ó quando Você me concederá o Seu misericordioso olhar de soslaio?

Você está embriagada pela beleza de Sua própria juventude e está sempre adornada com Seu ornamento proeminente: o Seu delicioso humor amuado (mana). Você Se deleita com o amor que Seu querido tem por Você e é supremamente hábil na arte dos assuntos amorosos. No incomparável reino de maravilhosos kunjas, Você é a mais versada em todas novidades do amor - Ó Srimati Radhika, quando, ó quando Você me concederá o Seu misericordioso olhar de soslaio?”]

Se alguém canta essa canção que é uma glorificação à Shrimati Radhika, Krishna fica completamente satisfeito. Logo, se deseja dar prazer a Krishna você deve glorificar Shrimati Radhika. Mas se deseja dar prazer a Shrimati Radhika, então deve glorificar Shri Krishna: “namami nanda nandanam”. Se você cantar Radha-nama os nomes de Shrimati Radhika, Shri Krsna ficará muito satisfeito e se cantar Krishna-nama, os nomes de Shri Krishna, então Shri Radha ficará muito satisfeita.

O hari-katha é muito poderoso, pois é shabda-pramana. Quer você o entenda ou não, trata-se de vibração sonora transcendental capaz de limpar o coração só de entrar pelos ouvidos. O hari-katha sobre o Srimad-Bhagavatam, por exemplo, por ser muito elevado, não pode ser compreendido por todos. Shrila Gurudeva, inclusive, costumava dizer que se uma única pessoa em uma platéia ou grupo de pessoas que estiverem ouvindo hari-katha for capaz de realmente ouvir, isso já é suficiente. 

Shrila Bhaktisiddhanta Prabhupada diz que se você estiver dando um hari-katha, mas ninguém estiver entendendo ou realmente ouvindo, pelo menos a parede estará aproveitando e ouvindo o seu hari-katha.

Mas, voltando a história, Brahmaji pensou: “O que devo fazer para satisfazer Krishna? Tenho que glorificar os vraja-basis”. Então ele recitou um shloka: “Ó, quão afortunados são os vraja-vasis. Krishna faz amizade com eles como se fossem membros de Sua própria família”. Quando Brahmaji terminou de citar esse verso, Krishna sorriu. Foi aí que Brahmaji se deu conta: “Apesar de eu ter cometido uma ofensa, agora Krishna está um pouco satisfeito comigo, afinal, é somente glorificando os vraja-vasis que se pode conseguir a atenção e o sorriso de Krishna”.

Depois disso, Brahmaji saiu de Vrindavana. Porém a mente dele ficou muito perturbada por ter cometido uma ofensa aos pés de lótus de Krishna ao ter roubado os amigos e bezerros dEle. Logo, ele decidiu ir a Shri Navadvipa dhama, onde praticou rigorosas austeridades, pois se você for a Shri Navadvipa, todas as suas ofensas serão erradicadas. Mas vemos que alguns brasileiros vão para Shri Navadvipa, se livram de todas as ofensas, voltam para o Brasil e cometem mais ofensas. Isso é o banho do elefante, não é assim que se deve proceder. O elefante entra no rio Ganges para tomar banho e depois que sai, com a sua tromba ele joga areia no seu corpo novamente.

Brahmaji praticou rigorosas austeridades em Shri Navadvipa Dhama até o momento em que Krishna se manifestou diante dele. Krsna então falou o seguinte: “Brahmaji, não se preocupe. Todas as suas ofensas foram eliminadas. Esta Shri Navadvipa dhama não é diferente de minha Shri Vrindavana. Porém, vou lhe revelar algo muito confidencial”.

Krishna disse: “Em breve chegará a Kali yuga e nela irei aparecer sob a forma de Shachinandana Gaura Hari. Cantando os Santos Nomes, Eu irei libertar todas as almas e, por isso, você deve vir e nascer nesta época futura para me ajudar a pregar as glórias do Santo Nome”.

Krsna então manifestou a Sua forma combinada de Radha e Krishna como Gauranga-Svarupa e, assim Brahmaji obteve o darshana de Shri Chaitanya Mahaprabhu em Shri Navadvipa dhama. Nesse momento, Brahmaji se jogou aos pés de Shri Gauranga Mahaprabhu e pediu: “Ó Mahaprabhu, não permita que eu nasça em uma família de brahmanas elevados. Que eu nasça em uma família de yavanas e mlecchas de baixa classe”. Mleccha é aquele que não segue a conduta perfeita para um ser humano [sadachara]. Ele está sempre sujo, internamente, externamente, no plano grosseiro e no plano sutil.

Brahmaji continuou: “Por que desejo isso? Porque nascendo em uma classe baixa, vou me tornar humilde”. Krishna então disse para Brahmaji: “Não se preocupe. Seja o seu nascimento como brahmana, mleccha ou em qualquer outra forma, você será sempre muito próximo e querido a mim. Na verdade, você irá nascer como Brahma-Haridasa”.

Essa conversa transcendental mostra como todo aquele que canta os Santos Nomes está muito além de casta, raça ou credo.
nāhaḿ vipro na ca nara-patir nāpi vaiśyo na śūdro
nāhaḿ varṇī na ca gṛha-patir no vanastho yatir vā
kintu prodyan-nikhila-paramānanda-pūrnāmṛtābdher
gopī-bhartuḥ pada-kamalayor dāsa-dāsānudāsaḥ
(Padyavali 74/BR 6.6)
[“Eu não sou um brahmana, kshatriya, vaishya ou shudra, tampouco sou um brahmachari, grhastha, vanaprastha ou sannyasi. Minha única natureza é de ser servo dos servos dos vaishnavas, que são os servos dos pés de lótus de Sri Radha-vallabha, o mantenedor das gopis. Ele é naturalmente refulgente e o completo oceano da bem-aventurança.”]

Esse shloka que Mahaprabhu sempre citava, diz: “Eu não sou brahmana, kshatriya, shudra ou vaishya. Também não sou brahmachari, grhastha, vanaprastha ou sannyasi. Quem sou eu? Sou o servo do servo do amado das gopis, Shri Krsna.”

Aqueles que cantam os santos nomes estão muito além de casta ou raça. Eles não estão no nível dos brahmanas, kshatriyas, shudras ou vaishyas, nem dos brahmacharis, grhasthas, vanaprasthas ou sannyasis. Os vaishnavas que cantam os santos nomes são como joias supremas, dentre todos os varnas e ashramas. Todos os semideuses e semideusas anseiam pegar a poeira dos pés de lótus desses vaishnavas. Por isso todos devem procurar se tornar vaishnavas. Mas como alguém pode se tornar um vaishnava? Cantando os santos nomes.
trnad api sunicena
taror iva sahisnuna
amanina manadena
kirtaniyah sada harih
(Siksastaka 3)
[“Considerando a si mesmo como sendo mais baixo e mais desprezível do que a insignificante folha de grama que foi pisoteda sob os pés de todos e sendo tão tolerante quanto uma árvore, sem orgulho e oferecendo respeito a todos de acordo com suas respecivas posições, dev-se cantar os santos nomes de Sri Hari.”]

“Kirtaniya sada harih” significa: cante os santos nomes de Hari!

Hare Kṛṣṇa Hare Kṛṣṇa
Kṛṣṇa Kṛṣṇa Hare Hare
Hare Rāma Hare Rāma
Rāma Rāma Hare Hare

Gaur Premanande! Hari Hari bol!


[Tradução: Mahakala Das Prabhuji
Transcrição: Madan Gopal Das Prabhu
Revisão: Gaura Hari Das Prabhu]