HARI-KATHA DA VIRADA 2014/15 - ANO NOVO!

Itapecerica da Serra/SP, Brasil
31 Dezembro, 2014 (Noite)


Estamos muito felizes aqui celebrando a virada do ano. Em todo o mundo as pessoas estão celebrando esse novo ano. Especialmente nos países ocidentais as pessoas são extremamente entusiastas para celebrar esse feliz ano novo. Na internet meu Skype está completamente cheio de recados de pessoas de muitos países pedindo as bênçãos para esse ano novo.

Mas devemos entender qual o significado de um ano novo, o que acontece continuamente em todo ano novo que vem.

Em inglês tem um ditado que diz que o tempo e a maré não esperam por ninguém.

Srila Bhaktivinoda Thakura explica que esta vida é extremamente chancha, extremamente instável e constantemente fluindo fortemente em direção ao oceano da morte. Mas esta é a natureza desse mundo material.

Uma vez Narada Muni perguntou aos seus discípulos: “Ó, discípulos, qual é o rio deste mundo que flui nas duas direções diferentes?”

Pois aqui neste mundo um rio vai fluir em uma direção específica ou em outra direção, mas qual o rio deste mundo que flui em ambas as diferentes, o mesmo rio.

Mas vocês podem me responder qual rio flui para duas direções diferentes ao mesmo tempo? Qual é esse rio?

Esse rio é o rio da vida das entidades vivas.

Pois ao mesmo tempo em que nós estamos crescendo, estamos também “diminuindo”, chegando próximo da morte.

Se eu perguntar a você qual a sua idade, você pode responder cinco ou dez anos, setenta, oitenta anos. E porque nós estamos crescendo nós dizemos “Ó, eu já tenho cinquenta, sessenta, setenta, oitenta anos.”

Mas conforme vamos nos tornando mais velho, por outro lado também estamos de uma forma na verdade diminuindo (nos aproximando do fim).

Porque neste mundo material tudo o que nós vivenciamos está predestinado.

Você pode duvidas mas assim que viemos para este mundo, o tempo que nós devemos ficar aqui seja cinquenta, sessenta, setenta anos, aquilo já está escrito.

Por exemplo, se uma pessoa já tem a duração de sua vida já prescrita, o destino dela diz que viverá cem anos, e se ela tem setenta ou oitenta anos, então aquilo significa que ela somente terá mais vinte ou trinta anos de vida.

Isso porque tudo o que acontece na nossa vida já está predestinado.

Aqui neste mundo quando nós dizemos feliz ano novo, na verdade esse ano novo feliz que está vindo é simplesmente um ano novo que é a menos na nossa vida, um ano a mais que nos aproxima do oceano da morte.

Como eu consigo dizer feliz ano novo se a cada ano, por exemplo, a pessoa agora com oitenta anos, possui somente mais vinte anos restantes de vida? E no próximo ano ela terá dezenove anos restando, e no próximo ano dezoitos anos, pois o tempo dela aqui está diminuindo.

Gradualmente o nosso tempo aqui está diminuindo.

O Srimad Bhagavatam também dá a evidência de que a cada dia, o sol ao nascer e se pôr, retira um dia da vida daquela entidade viva aqui nesse mundo.

Mas, para aquela pessoa que ouve hari katha, canta harinama, recebe instruções de guru e vaishnavas, o tempo nesse mundo não diminui, a vida dela aumenta nesse mundo.

Aquelas pessoas que se sentam na frente de sadhu para ouvir hari katha nunca perderão tempo da vida delas.   

Por exemplo, nós estamos aqui sentados há quatro ou cinco horas, mas essas quatro ou cinco horas não estão sendo descontadas do nosso tempo de vida aqui.

Se nós não estamos na frente do sadhu estamos simplesmente indo para lá e para cá, não fazendo nada, estamos desperdiçando a nossa vida.

O Srimad Bhagavatam dá essa evidência de que aquela pessoa que utiliza o seu tempo por vir e sentar na frente do sadhu, servindo-o e ouvindo seu hari katha, essa pessoa não perderá o seu tempo de vida, e não diminuirá o seu tempo aqui, na verdade esse tempo irá aumentar.

E como os gaudiya vaishnavas irão celebrar o ano novo? Cantando os santos nomes.
Srila Gurudeva ele também nos ensina como essa vida humana é extremamente rara e dá evidência disso. Mesmo sendo pessoa ateísta ou teísta, não importa, essa é a verdade.

Porque essa forma humana é extremamente rara de se conseguir novamente.

O fato dessa vida humana ser extremamente rara pois estamos vagando dentre as oito milhões e quatrocentas mil espécies de vida continuamente, mas em algum momento o Senhor Supremo nos deu essa chance de ter este corpo tão raro.

E por que este corpo humano é tão raro? Porque por meio deste corpo humano nós temos a oportunidade de nos libertar dessa prisão de maya e esse é o presente do Senhor  Supremo para nós.

Srila Bhaktivinoda Thakura explica “Ó, que tipo de infelicidade e sofrimento eu estou passando aqui, que mesmo tendo conseguido este corpo humano tão raro eu estou desperdiçando essa oportunidade.” Ele diz em sua canção que se nós não usarmos esse corpo de maneira apropriada, simplesmente estamos desperdiçando essa oportunidade.

Srila Gurudeva explica que nide ham adhyam, ele diz que adhyam significa que esse corpo humano, essa forma humana é uma grande chance que nós temos, que está nos sendo dado pelo Senhor Supremo.

Porque gatos e cachorros e qualquer outro animal não têm oportunidade de executar bhajana.

E nós somos seres humanos, e assim temos a oportunidade de executar sadhana e bhajana, porque somos dotados de inteligência, de discernimento que nos ajuda a escolher entre o que é favorável ou não para nossa vida espiritual.

Nesse verso Srila Bhaktivinoda Thakura continua dizendo, que aproveitar essa oportunidade é se abrigar nos pés de lótus de guru, assim aproveitaremos esse nascimento humano.

Pois Sri Gurudeva é como um capitão de um barco, um barqueiro.

Sri Krishna nos dá a oportunidade de nos associarmos com o sadhu, sadhusanga, que é o vento favorável para guiar este barco.

Pois às vezes nós estamos num barco que tem a vela e o capitão mas aquele barco somente vai andar rápido se o vento for favorável.

Da mesma forma gurudeva é o capitão, e sadhu sanga é este vento favorável.

E quem vai tomar abrigo em Sri Guru e vai atravessar o oceano da miséria material, quem vai tomar abrigo, quem vai tomar abrigo nos pés de lótus de Sri Caitanya Mahaprabhu. Ele que faz isso por nós, sem nenhum tipo de interesse, sem cobrar nada assim como o Sundarananda prabhu (o anfitrião do Festival) (risos).

Porque este lugar onde nós estamos sentados aqui é um lugar extremamente sagrado, maha tirtha, pois aqui nesse mesmo lugar nosso Gurudev (Srila BV Narayan Gosvami Maharaj) veio três ou quatro vezes, permaneceu aqui.

Então, mesmo se uma pessoa não executa nenhum sadhana e bhajana, somente por estar sentada aqui nesse lugar já é afortunada.

Isto significa que vocês são extremamente afortunados de estar aqui neste lugar.

Isso é sadhusanga, o vento favorável.

Krishna nos diz “Ó, eu arranjei para você todas as coisas favoráveis, então se você não aceita esta oportunidade o que eu posso fazer?”

Se você tem sukriti ou não, não importa, Krishna fará o arranjo para que você tenha sadhu sanga, associação com o sadhu.

Todas as escrituras reveladas, os shastras explicam repetidamente que simplesmente por um momento, ou um meio momento, de associação com um vaishnava ela será liberada dessa existência material.

Por muitos anos viajo por muitos países onde as pessoas estão celebrando esse ano novo, e por muitos anos ele passou esta data em Copacabana (Rio de Janeiro) onde é gasto muito dinheiro e energia para celebrar este ano novo.

Na verdade esse tipo de celebração que nós vivemos assim normalmente, que acontece normalmente é simplesmente outro tipo de gratificação dos sentidos, a verdadeira comemoração do ano novo é cantar os santos nomes.

Lembro-me que por muitos anos, íamos até Copacabana e cantávamos os santos nomes nessa virada do ano, porque sem cantar os santos nomes não há celebração de ano novo.

Os shastras instruem a cantar dos santos nomes sempre, então cantar os santos nomes nesse dia do ano novo que chega, não há celebração melhor do que essa!

Da mesma forma que no dia de hoje, no dia 31 os bancos fazem um balanço de quanto eles ganharam ou perderam, o devoto sincero deve também fazer um balanço nesse dia, “Ó quanto desses 365 dias deste último ano eu me associei com o sadhu, quantas horas eu passei em associação com o sadhu, servindo o sadhu” ele deve fazer este balanço também.

O sadhaka, o devoto deve também calcular por quantas horas ou em quantos momentos passou criticando os vaishnavas ou cometendo ofensas a eles. Tudo deve ser calculado.

Porque uma pessoa de negócios vai fazer esse cálculo todos os meses, todos os anos de quanto está ganhando, quanto está perdendo nos seus negócios, se eles estão crescendo ou não.

Dessa mesma forma o sadhaka deve calcular por ele mesmo, todo dia, todo mês, todo ano, por quantas horas eu servi ou me associei com o sadhu, quantas voltas de japamala eu cantei?

É por isso que temos no nosso japamala o contador de dezesseis e quatro, para contar quantas voltas nós cantamos todos os dias. Muitos devotos na verdade nem tem esse contador. Porque eles somente estão cantando uma ou duas voltas e isso é extremamente fácil de contar. Ele canta zero voltas então não precisa de um contador de voltas! (risos).

Se uma pessoa cantar todo dia 64 voltas aí sim ela vai precisar de um contador de voltas. Muitas vezes os devotos não tem nem um contador de japa. Aí, às vezes, só de olhar eu já sei que os devotos que não tem um contador não estão cantando.

Esses devotos que estão cantando duas voltas de manhã, duas de noite, podem facilmente contar suas voltas sem a necessidade de um contador.

Mas vocês devem tentar cantar todos os dias 64 voltas de japamala!

Então todos os dias cantem os santos nomes e as suas vidas serão bem sucedidas.

A celebração do ano novo deve ser aquele voto que a pessoa faz que “a partir deste ano eu executarei sadhana e bhajana!”.

E, assim como um homem de negócios, todos os dias ou a cada uma ou duas semanas ou um mês ele vai fazer esse cálculo, de quanto está ganhando ou perdendo, se o seu negócio está aumentando ou não.

Caso uma pessoa de negócios não cheque cuidadosamente o quanto os negócios dele estão crescendo ou não, os ganhos ou perdas, depois de um tempo ele simplesmente irá falir. Ele nem mesmo conseguirá pagar os seus funcionários. Sem lucro, não dá para pagar ninguém.

Por causa disso o negociante faz esse cálculo cuidadosamente, de quanto ele ganhou, quanto ele perdeu, o quanto os negócios estão aumentando ou não.

Da mesma forma, o sadhaka deve todos os dias cuidadosamente fazer esse cálculo, quanto sadhana e bhajana eu pratiquei hoje, quantas voltas eu cantei. Quantas horas estive na companhia do sadhu? Por quantas horas cantei os santos nomes?  Por quantas horas eu me engajei em servir o sadhu e os vaishnavas? Se ele não fizer essa conta então como ele irá avançar?

Porque quando bhakti aumenta,  automaticamente as pessoas vão se desvencilhar das coisas materiais.

Srila Bhaktisidhanta Prabhupada contou uma história muito bela.

Uma vez durante o inverno na Índia, que é muito frio, uma pessoa com muitas posses organizou uma festa de casamento e alugou o barco.

Às vezes na Índia as pessoas alugam um barco para levar o casal até o lugar do casamento, que nesse caso era do outro lado do rio. Havia mais ou menos sessenta ou setenta convidados naquele barco.

O senhor que estava organizando tudo disse ao barqueiro “Você deve chegar com este barco exatamente no momento apropriado para a cerimônia começar.”

Isso porque nos casamentos indianos, védicos, existe um horário apropriado, um muhurta apropriado no qual as pessoas devem se casar. Conforme o calendário vaishnava, calendário védico, cada horário é auspicioso para uma atividade e, naquele caso, o momento era auspicioso para aquele casamento.

Assim, naquela noite todos os convidados do noivo entraram no barco e o homem disse “Em três horas vamos estar no lugar onde o casamento acontecerá. Não se preocupe! Quando o barco chegar eu acordo vocês. Deixa comigo!”

E antes dos convidados dormirem, eles comeram tudo o que tinha sido preparado, diversos pratos deliciosos e todos se deleitaram e caíram no sono.

Mais uma vez, o barqueiro confirmou ao pai do noivo: “O Sr. não se preocupe, agora são 18h, chegaremos lá às 21h e às 21h15min, no horário apropriado o Sr. pode começar o casamento, não se preocupe! Ó, eu só tenho um pedido, vocês todos vão dormir, vão ficar confortáveis e eu vou ficar aqui fora nesse barco passando frio, pegando sereno, então por favor me dê  um pouco de vinho para que eu possa ficar mais confortável e continuar remando”.

Eu me lembro de uma vez que ele estava na Rússia e estava na fila para pegar um trem. Uma fila muito longa, no frio, e tinha uma pessoa checando o passaporte e a passagem de todos, então como estava muito frio o devoto que estava me acompanhando pediu para aquele Sr. “por favor, tem como o Sr. deixar ele passar primeiro, por que ele é da Índia, não está acostumado com este frio, e está muito frio e para ele é mais frio ainda”. Então aquela pessoa que estava checando disse: “Mas então porque ele não bebe alguma coisa, uma vodka, para ele se sentir melhor, mais aquecido?” (risadas).

Da mesma forma aquele barqueiro disse simplesmente me dê alguma coisa para eu beber, que daí eu vou ficar forte e posso me dirigir rapidamente até o lugar, até o destino. Então lhe deram um pouco de vinho, ele bebeu e ficou bem entusiasmado e forte e começou a remar aquele barco, remar e remar.

Como todos os passageiros tinham comido bastante, caíram em sono extremamente pesado. Todos ali dentro do barco, bem confortáveis. E o barqueiro por toda a noite remava e remava com toda a sua força.

Então, com o sol já amanhecendo o pai da noiva acordou. E o horário auspicioso, que era 21h15 já havia passado e o sol já havia nascido.

Quando o pai da noiva acordou e viu que já eram seis da manhã, já com sol e que o horário auspicioso do casamento já havia passado há muito tempo, ele disse ao barqueiro: “Meu Sr. o que aconteceu? Era pra gente ter chegado às 21h15 de ontem e agora são 6h da manhã??!!” E o barqueiro, que continuava remando e remando respondeu: “Mas eu estou aqui remando a noite toda!...”.

O pai então disse: “Mas então porque o barco não chegou até o destino?”

Foi quando notaram que na verdade o barco estava no mesmo lugar. O barqueiro, então, disse: “Acho que cometi um pequeno erro...” O pai disse “Qual??”

E notaram que um dos lados do barco continuava ali amarrado ao cais, por uma corda.

Então o barqueiro disse: “Na verdade eu levantei a âncora do barco, mas eu esqueci de desamarrar um dos lados do barco na parte de trás então é por isso que o barco estava dando voltas e voltas... no mesmo lugar.”

Qual o significado dessa história?

Srila Bhaktisidhanta Sarasvati Thakura explica o significado.

Pelo arranjo, pela misericórdia de Krishna nós viemos até o sadhu para ouvir o hari katha, estamos aqui aprendendo diferentes coisas, cantando os santos nomes, servindo de alguma forma e isso é como levantar a âncora do barco, mas assim como nessa história nós também esquecemos de desamarrar o nosso barco na parte de trás, que é se desamarrar de todos os nossos apegos: família, amigos.
Srila Prabhupada, portanto, nos explica como obter sadhu sanga e ao mesmo tempo nos desapegar do que nos prende.

A celebração do ano novo é a celebração pela qual nós tentamos nos desapegar de tudo que estamos prende a este mundo, nossa ashakti, nosso apego por este mundo.

Nossa vida será bem sucedida, o nosso ano novo será bem sucedido se nós desenvolvermos apego por guru, vaishnava, Krishna e hari katha.

A razão pela qual nós todos estamos aqui é como iremos desenvolver e avançar em nosso sadhana e bhajana.

ekaki amara, nahi paya bala, harinama sankirtane
tumi krpa kori, sraddha bindu diya, deho krsna nama dhane
(Canção “Ohe! Vaishnava Thakur” de Srila Bhaktivinod Thakur)

Muito belamente, nesta canção, Srila Bhaktivinoda Thakura glorifica os vaishnavas.

Ele diz “Ó vaishnava thakura, He Bhagavan! Pelo meu próprio esforço eu não posso praticar sadhana e bhajana sozinho, eu não posso, não consigo.” Somente quando nos encontrarmos, estivermos juntos, com os vaishnavas, aí eu terei forças. Eu não tenho poder ou força para cantar os santos nomes.

Porque quando se está forte em sadhu sanga aí maya não consegue vai pegar você. Não é verdade?

Havia uma vez um brahmachari. Ele veio até seu guru, de alta classe, para executar bhajana e sadhana. E seu guru disse “você deve permanecer no templo todos os dias e estudar o Srimad Bhagavad Gita”. Pois o Srimad Bhagavad Gita é a base da vida espiritual. Sem ler o Bhagavad Gita não se pode desenvolver a sua vida espiritual.

Então vocês devem ler o Bhagavad Gita todos os dias. Quantos os aqui leem o Bhagavad Gita? Se vocês não estão lendo, então devem lê-lo, eu peço a todos. Todos os dias um sloka.

O guru daquele brahmacari deu a instrução “todos os dias você deve ler o Bhagavad Gita”. Mas para morar no templo existem muitas atividades e uma agenda que os moradores do templo devem seguir, de realizar o Mangal arati, daí bhoga arati, etc. e outras festividades. E, assim, o brahmacari no templo não tinha tempo de ler o Bhagavad Gita.

Ele, então, pensou “Ó eu não vou continuar no templo, aqui eu não tenho tempo de ler o Bhagavad Gita!”.

E ele decidiu abandonar o templo, porque com todas as atividades que ele tinha que fazer no templo ele não encontrava nenhum tempo de cantar e o que dizer de ler o Bhagavad Gita. Então dessa forma ele pensou: “Melhor eu morar fora do templo, daí terei tempo suficiente para cantar as 64 voltas por dia, e ler o Bhagavad Gita. Simplesmente pedirei doações o suficiente para eu comer, e todos os dias lerei o Bhagavad Gita do 1º ao décimo oitavo capítulo.

O brahmacari foi falar com seu guru e disse: “Ó, Gurudeva eu não permanecerei mais no templo, aqui eu não tempo para ler o Bhagavad Gita, então é melhor eu morar fora e lá ler o Bhagavad Gita”.

O guru disse: “Ó, discípulo, ó, brahmacari você não deve morar fora do templo, você não deve abandonar o templo, aqui no templo você esta acompanhado do guru e vaishnavas e aqui mesmo que você tenha menos tempo para ler o Bhagavad Gita, não tem importância nenhuma, não importa, você deve permanecer no templo”. Mas o brahmacari disse: “Não, não Gurudeva eu quero morar fora do templo e então eu lerei todo o Bhagavad Gita!”

Então, Gurudeva disse para o discípulo ficar, mas ele não o ouviu e simplesmente decidiu fazer bhajana e sadhana sozinho, fora do templo.

O guru guia o discípulo, mas se o discípulo não segue a orientação do guru, o que fazer? Ele disse: “Faça o que você achar melhor”.

O brahmacari então abandonou o templo e foi morar numa caverna na floresta e com o seu Gita permaneceu ali feliz pensando que lá seria o lugar apropriado para ler o Bhagavad Gita todos os dias.

Na prática de bhakti há estágios, e um dos primeiros estágios chama-se utsaha mayi, que é um entusiasmo falso. Deste modo o brahmacari estava bem entusiasmado, foi até à caverna na floresta e ali, todos os dias, ele lia o Bhagavad Gita do 1º ao décimo oitavo capítulo e somente às vezes ele ia pedir doações para manter a sua vida.

E dessa forma 15 dias se passaram.

Todos os dias ele comia somente um pouco de prasadam e deixava um pouco para o próximo dia, permanecendo absorto em cantar os santos nomes e ler o Bhagavad Gita todos os dias.

Mas onde há comida há ratos! E enquanto ele dormia os ratos vinham e andavam pelo seu rosto pelo seu corpo. Por vezes os ratos vinham e comiam o seu próprio Bhagavad Gita! A mente do brahmacari ficou muito perturbada porque ele não conseguia dar um jeito nos ratos.

No dia seguinte ele saiu para pedir doação e foi à casa de uma pessoa materialista.

O discípulo havia sido instruído pelo seu guru que lhe disse “Se você tiver qualquer dúvida, você deve vir até mim que eu vou resolver suas questões”.

Mas aquele discípulo não escutava, e, assim, ele foi resolver suas questões com uma pessoa materialista.

Enquanto pedia doações ele pensava: “Quem poderá resolver o meu problema?...”

Ao caminhar foi que ele viu um cartaz muito grande dizendo “SR. GUPTA. Faça uma pergunta que o Sr. Gupta resolverá todas as suas questões. Simplesmente venha até o Sr. Gupta”. E no cartaz estavam o telefone e o endereço.

Na hora o brahmacari pensou “Ó, o Sr. Gupta poderá me ajudar com meu problema com os ratos!”

Então aquele brahmacari foi ao Sr. Gupta, e disse: “Sr. Gupta eu estou com um problema...”, e o Sr. Gupta disse: “Pode me falar sobre o seu problema, eu não vou te cobrar nada, eu não irei nem te cobrar o preço da visita!”

O brahmacari disse: “Onde eu moro há tantos ratos... Estou com problema com os ratos”.

Então o Sr. Gupta disse: “Ó, brahmacari , não se preocupe pois eu tenho muitos gatos na minha casa, vários gatos de todas as cores, preto, branco, azul, vermelho, você simplesmente escolha um que ele vai resolver o seu problema com os ratos!”

O brahmacari, todo feliz, escolheu um gato preto e o levou para casa.

E logo os ratos desapareceram e o problema foi resolvido.

Pensando que ia ler o Bhagavad Gita, pois o problema havia sido resolvido, o brahmacari se sentou e ao fazer isso aquele gatinho (que ele trouxe do Sr. Gupta) sentava no seu colo e começava a miar “miau, miau”.

O gato é um animal extremamente doméstico então ele vinha no colo daquele brahmacari e começava a apalpá-lo com a sua patinha, vinha no colo dele, começava a miar, a lamber, pois ele queria leite.

Assim, agora o brahmacari tinha um outro problema e novamente foi até o Sr. Gupta para resolver o tal problema.

Ao chegar no Sr. Gupta, ele foi novamente extremamente gentil: “Não, não precisa se preocupar, não pague nada, qual o seu problema agora?” O brahmacari explicou que agora o problema dele era com o gato, que tinha fome e queria leite, e então o Sr. Gupta “solucionou” o problema do brahmacari: “Ó mas não se preocupe brahmacari! Na minha casa eu também tenho muitas vacas, então eu posso te dar uma vaca e ao ordenhar essa vaca você terá leite não só para você mas você também para o seu gato. Problema resolvido!”

Agora, na casa do brahmacari, havia, além do gato, também uma vaca. E no período de dois ou três anos os gatos se reproduziram e as vacas também e agora ele possuía muitos gatos e muitas vacas. E também, se uma pessoa não alimentar a vaca apropriadamente a vaca não dá leite.

E, com dez, doze vacas e bezerros o brahmacari não tinha mesmo tempo de ler o seu Bhagavad Gita, pois tinha que cuidar de todos eles.

Então, o brahmacari novamente pensou: “Melhor ir de novo ao Sr. Gupta! Ó Sr. Gupta, agora eu tenho outro problema...”.

O Sr. Gupta: “Pode dizer, ó brahmacari, não se preocupe, eu vou resolver todos os seus problemas!”

O brahmacari falou: “Ó Sr. Gupta, agora eu tenho 20 gatos e 30 vacas e bezerros, como posso cuidar de todos eles?”

Mas, o Sr. Gupta era extremamente generoso e bondoso e sempre atendia o brahmacari de graça, sempre resolvendo todos os problemas dele. E lhe disse: “Brahmacari, não se preocupe, eu tenho cinco filhas e todas são jovens, belas e extremamente atrativas. Você pode se casar com uma delas e, assim, você e a sua esposa poderão cuidar de todas as vacas e gatos e ao mesmo tempo executar bhajana e sadhana e ler o Bhagavad Gita”.

O brahmacari, ao ouvir aquilo pensou: “Ah, sim! Perfeito, isso é uma boa ideia! Sim, eu e minha mulher vamos facilmente cuidar dos gatos e vacas e executar sadhana e bhajana e ler o Gita!”.

O brahmacari agora era casado, e com sua esposa, cuidavam de todos os gatos, vacas e bezerros e não tinham tempo de ler o Gita. Em poucos anos tiveram muitas crianças, duas, três, quatro crianças. E agora sim, realmente, o “brahmacari” não tinha tempo de ler o Bhagavad Gita...

Depois de vários dias sem conseguir ler o Bhagavad Gita, como era ekadasi ele se sentou e pensou: “Ó, hoje é ekadasi e eu devo ler o Bhagavad Gita”.

Então, ao abrir o Bhagavad Gita, e tentar ler o primeiro verso: “dharma-ksetre, kuru-ksetre...”, chegava o seu filho bebê e “papa, papa!”

No mesmo momento sua esposa lhe perguntou: “O que você está fazendo??? Deixa o Gita aí, deixa dharma ksetre pra trás, vamos sair de casa!”.

E naquele momento ele parava de ler o Bhagavad Gita.

Então, dessa forma, dez, quinze anos se passaram e ele não conseguiu ler nenhum verso do Bhagavad Gita.

E na verdade agora, depois de tantos anos o Bhagavad Gita estava todo coberto de poeira.

Na vida familiar, vocês sabem melhor do que eu, todos os dias há problemas, às vezes marido e mulher brigam, a mulher fala “é sua culpa!” e o marido fala “não, é sua culpa!”, e eles ficam brigando para ver de quem é a culpa e há muitas crianças gatos, cachorros.

Então, quinze anos se passaram e o guru pensou: “Ó, quinze anos se passaram e eu nunca mais ouvi falar do meu discípulo, ele nunca mais veio me visitar, será que ele é um discípulo flecha (que toma iniciação e nunca mais volta)? Deixa eu ver o que aconteceu com ele”.

O guru foi procurar por seu discípulo, o brahmacari, mas, depois de quinze anos, ele encontrou o discípulo, mas quando entrou na casa dele, o guru encontrou ele e a esposa brigando, a mulher segurando uma vassoura e ele segurando uma vara prontos para começarem se bater. E diversas crianças pela casa, nesse ponto eles já tinham muitas crianças.

Então, ao ver seu Gurudev  o discípulo disse: “Jay Gurudev! Jay Gurudev! Pranams!” E correu ao seu encontro, oferecendo-lhe suas reverências.

E Gurudeva lhe perguntou: “Quem é essa mulher?” E o brahmacari: “Ó Gurudeva, essa é sua filha!”.

Gurudeva: “E quem são essas crianças?” E o brahmacari: “Ó Gurudeva essas crianças são suas netas!”

E Gurudeva lhe perguntou: “E esses gatos, cachorros e animais domésticos?” O brahmacari: “Ó Gurudeva, essas são as belezas da vida familiar!...”.

Mas Gurudeva lhe perguntou: “Discípulo, e quantas horas por dia você está lendo o Gita?”

O discípulo foi sincero: “Gurudeva... durante todos esses anos eu não consegui ler o Gita... Todos esses filhos, mulher e animais eles são o meu Gita agora, eles são o meu Gita samsara...”.

O que significa Gita samsara? É que agora ele não tinha nenhuma oportunidade de executar sadhana e bhajana.

Sem sadhu sanga nenhuma pessoa pode executar sadhana e bhajana, nem mesmo um chefe de família, um brahmacari, um vanaprastha, grihasta, nenhuma pessoa terá a chance de executar sadhana e bhajana.

O que é uma vida de grihasta? É uma vida de sadhu sanga.

Então, se diz no shastra que se um sadhu nunca foi à casa de uma pessoa, se o sadhu nunca pisou naquele lugar, aquele lugar não é diferente de um cemitério, ou aquele lugar é considerado como o ninho de uma cobra.

Srila Bhaktivinoda Thakura glorifica os vaishnavas, a companhia dos vaishnavas. Ele diz que se um vaishnava vem até a sua casa e executa sadhana e bhajana naquele lugar, aquele lugar deixa de ser como um cemitério, ou como o ninho de um cobra e se torna Golok Vrndavan.

A sua casa será purificada pela beleza dos pés de lótus do vaishnava.

Srila Bhaktivinoda Thakura explica que a vida de grihastha é servir aos vaishnavas, é ter sadhu sanga.

Neste significado a vida familiar não é somente desfrutar da companhia de filhos e mulher , mas sim se associar com os vaishnavas, servir os vaishnavas.

E este é o significado dessa celebração de ano novo, de como nós nos engajaremos neste ano novo em sadhu sanga, em servir os vaishnavas, independente do nosso ashram de grihastha, vanaprastha, qual seja. Pois sem sadhu sanga maya virá nos pegar.

Portanto, sempre permaneçam na companhia dos sadhus, sadhu sanga e nam sankirtan.

E abandonem a má associação, asat-sanga.

Sadhu sanga ki jay!

Gaur Premanande! Hari Hari bol!

(Tradução: Sita Thakurani Didi. Transcrição: Krsna Mohini Didi)