COMO SEGUIR A ETIQUETA VAISNAVA

São Paulo/SP, Brasil
28 Julho, 2010



Hoje quero lhes explicar a filosofia do Senhor Caitanya Mahāprabhu e porque nos denominamos gaudiya-vaiṣṇavas.

Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī explica muito claramente em seu livro Caitanya-caritāmṛta (Adi, 2.117):
siddhānta baliyā citte nā kara alasa
ihā ha-ite kṛṣṇe lāge suḍrḍha mānasa
“Não seja preguiçoso para adentrar a filosofia.”

Vocês devem procurar compreender as concepções dos nossos acharyas. Pois, quando adentrarem nossa filosofia vaiṣṇava, a mente se tornará unidirecionada a Kṛṣṇa e a Śrīmatī Rādhikā.

Somente usar uma tilaka, kaṇṭhī-mālā, ou uma bolsa com as contas do rosário (japa-mālā) não é suficiente para se ter um comportamento vaiṣṇava. Usar tilaka, kaṇṭhī-mālā e deixar uma śikhā são coisas externas. Eu não estou dizendo para não usarem tilaka, kaṇṭhī-mālā ou śikhā, vocês devem fazê-lo. Mas é preciso ter a intenção de adentrar a filosofia do Senhor Caitanya Mahāprabhu. Caso contrário, se não conhecerem a filosofia, tornar-se-ão sahajiyās, sakhi-bekis tolos, talvez até mesmo impersonalistas, mayavadis, karmīs, jñānīs ou yogīs.

Vocês têm que ter acara (etiqueta).
āpane ācare keha, nā kare pracāra
pracāra karena keha, nā karena ācāra
(Caitanya-Caritamrta, antya-lila 4.102)
Śrīla Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī diz no Caitanya-caritāmṛta que as vezes as pessoas não seguem as regras, não usam kaṇṭhī-mālā, tilaka e mesmo assim ainda querem pregar. São tolos!

Outros estão seguindo, realizando bhajana e sādhana, mas não estão pregando. Vocês têm de seguir todas as regras e restrições das escrituras e também pregar esta mensagem do Senhor Caitanya Mahāprabhu. Isso é muito importante. Se você não passar tilaka, ou utilizar a kaṇṭhī-mālā, como poderá falar (pregar) com as pessoas a respeito de nossa filosofia? Mahāprabhu ensinou tudo, como pôr tilaka, como manter a kaṇṭhī-mālā, etc., isso é importante e se chama vaiṣṇava-sadāchāra.

Impersonalistas não usam tilaka nem kaṇṭhī-mālā, eles usam um bindi que representa o Brahman - aham brahmāsmi (eu sou o Brahman Supremo). Mas se você não usa kaṇṭhī-mālā, ou tilaka então qual será a sua filosofia? O que dirá aos outros?
Mahāprabhu muito estritamente ordenou aos Seus seguidores (verso): "Se vocês realmente Me amam, devem seguir minhas instruções. Vocês devem usar tilaka e kaṇṭhī-mālā e cantar os santos nomes. ” Isso é muito importante. O próprio Mahāprabhu disse. Não é minha interpretação pessoal e nem estou criticando vocês, falo diretamente sobre o que Kṛṣṇadāsa Kavirāja Gosvāmī e Vṛndāvana dāsa Ṭhākura nos instruem. Vṛndāvana dāsa Ṭhākura diz: “Mahāprabhu: (verso), ‘se alguém não põe marcas de tilaka em sua testa, tal testa é como um cemitério’”. A primeira lição filosófica, portanto, é como você deve seguir achar-achara-acharam, que significa: devemos aprender sobre a etiqueta vaiṣṇava.

Caitanya Mahāprabhu é Kṛṣṇa. Svayam Bhagavān. Ele se situa além das regras e restrições. Mas neste mundo material Ele age como um sādhaka e através de Sua vida nos ensina como se comporta um vaiṣṇava, vaiṣṇava achara acharam. Isso é muito importante. Aqueles que não seguem o vaiṣṇava-achara estão contra o Senhor Caitanya Mahāprabhu e são chamados caitanya-drohi. Nunca ouça hari-kātha dos lábios de tal pessoa. Pois, primeiro devemos observar achara acharam.

Bhaktivinoda Ṭhākura citou também um verso:
sruti-smrti-puranadi-vudhim vina
aikantiki harer bhaktir utpatayaiva kalpate
(Sri Slokamrtam)
Em seu livro Bhajana-rahasya, ele diz muito claramente: “Aquele que não segue as regras e restrições dos vedas (śrūtis), dos smṛtis (purāṇas e upanīṣads) e do nārada-pāñcharātra, só causa perturbações à sociedade por meio de suas atividades”. Isso é muito importante. Aquele que diz: ‘eu sou unidirecionado a Kṛṣṇa, eu não preciso seguir as regras’, na verdade perturba a sociedade, perturba a todos. Se eu não sigo as regras do Senhor Caitanya Mahāprabhu, como pregarei para as pessoas em geral?

Portanto, a primeira consideração na filosofia de Mahāprabhu é: como seguir a etiqueta. Vaiṣṇava-sadāchāra, o bom comportamento de um vaiṣṇava. Então, passo a passo você irá adentrar na mais elevada filosofia de Caitanya Mahāprabhu. E qual é essa filosofia?
ārādhyo bhagavān vrajeśa-tanayas tad-dhāma vṛndāvanaṃ
ramyā kācid upāsanā vraja-vadhū-vargeṇa yā kalpitā
śrīmad bhāgavataṃ pramāṇam amalaṃ premā-pum-artho mahān
śrī-caitanya mahāprabhor matam idaṃ tatrādaro naḥ paraḥ
(Caitanya-matta-manjuṣa 1.1.1)
Śrīla Viṣvanātha Cakravartīpāda compôs esse verso mostrando a opinião do Senhor Caitanya Mahāprabhu. Então nossa primeira pergunta deve ser: Quem é nossa iṣṭa-deva, nossa deidade adorável? Vaikuṇṭha-nātha, o Senhor Nārāyaṇa, não é nossa iṣṭa-deva. Porque a Sua forma é predominada pela opulência, portando a maça, a flor de lótus, o disco e o búzio. Após Vaikuṇṭha-loka existe Rāma-loka, onde reside o Senhor Rāmachandra. Ele também não é nossa iṣṭa-deva. Nem Dvārākādīśa Kṛṣṇa, o Kṛṣṇa que reside em Dvārākā. Quem vive lá com Ele são as suas 16.108 rainhas. Depois de Dvārākā-loka vem Mathurā-loka. Mas Mathurādīśa Kṛṣṇa ainda não é a nossa iṣṭa-deva.

Portanto, quem é nossa iṣṭa-deva? Vrajendranandana Śyāmasundara, que é o filho de Nanda Mahārāja. Ele é Bhagavān, a Suprema Personalidade de Deus, Svayam Bhagavān. Ele é muito belo e atrativo. Sua forma é única, sem paralelos e incomparável. 

O Senhor Caitanya Mahaprabhu disse a Sanatana Gosvami: 

(Verso)

"He Sanatana, ouça sobre Krsna, como Ele é belo, e é chamado não-dual, um. Krsna é chamado Para-tattva, a verdade absoluta e suprema".

Em sua linda forma, o próprio Mahaprabhu, glorificou como é belo o Krsna que reside em Goloka Vrndavana com Seus associados eternos, parikaras. (Verso). Mahaprabu disse também: "He Sanatana, ouça a concepção sobre Krsna. Krsna é chamado não-dual e a Suprema Personalidade de Deus e a Verdade Absoluta. Mas Ele é um, Ele manifestou muitas formas e atividades". Jiva Gosvamipad explicou em Seu Sandharba sobre este advaijnana-para-tattva: (verso). Ele é um. Mas se manifesta em quatro formas. Sua forma original é Vrajendra-nandana Syamasundara, que possui duas mãos e beija a flauta com Seus lábios. Esta é Sua forma original. E Ele manifesta Suas muitas encarnações, svansa-avatar, como: Rama, Nrsimha, Kalki, Varaha. Ele manifesta muitos universos transcendentais. Ele é um mas manifesta muitas formas...
ramadi-murtisu kala-niyamena tisthan
nanavataram akarod bhuvanesu kintu
krsnah svayam samabhavat paramah puman yo
govinda adi purusam tam aham bhajami
(Sri Brahma-samhita-verso 39)
Sat-cid-ananda vigraha, diferentes formas transcendentais em diferentes mundos transcendentais. Mas nenhuma destas formas são diferentes Dele. Assim como há uma só lua, mas em diferentes dias vemos diferentes formatos da lua. Na lua cheia você vê a lua completa, muito linda e deleitosa. Depois, de acordo com o ângulo da nossa visão, vemos diferentes formatos da lua. A lua é sempre cheia mas de acordo com nosso ponto de vista em diferentes dias vemos diferentes formatos na lua: minguante, crescente, cheia. Da mesma forma, em Goloka Vrindavan, Krsna é sempre purna, completo. E nossos Vedas dizem:
om purnam adah purnam idam
purnat purnam udacyate
purnasya purnam adaya
purnam evavasisyate
(Sri Isopanishad - Invocação)
Ele é sempre completo. Mas o mesmo Krsna se manifesta na forma de Vishnu, Ramchandra, Dvarkadish, Mathuradish, e assim ele saboreia  diferentes doçuras no coração de Seus devotos. Ele manisfesta muitas encarnações em muitos mundos transcendentais inumeráveis e inumeráveis entidades vivas. Com Sua potência externa bahiranga- shakti. Ele também manifesta este mundo material. Desta forma, Krsna manifesta quatro formas: Sua forma (swarupa) original, Suas encarnações, as entidades vivas e o mundo material. Um exemplo é um sol e muitos planetas e estrelas que se manifestam dele. As jivas (entidades vivas) são como os raios do sol. E o mundo material é o reflexo pervertido de Goloka Vrindavan. Se você for a Goloka Vrndavan e depois voltar ao mundo material vai ver que é um reflexo, aprakrta-cid-jagat, mundo transcendental. Mas este mundo material é um reflexo pervertido de Goloka Vrindavan, completamente oposto. Reflexo pervertido é como quando você se senta em frente a um espelho e vê seu rosto e mãos, mas ao contrário. Você vê a mão esquerda como a mão direita. Portanto este é o mundo material, o reflexo pervertido de Goloka Vrindavan. Neste mundo material, para onde estamos olhando e o que estamos fazendo? A mesma coisa em Goloka Vrndavan, mas de forma contrária, oposta. Aqui nós também ficamos com nossos entes familiares, mãe, pai, filhos, filhas, em  diferentes tipos de relacionamento. Há diferentes tipos de humor como sakhya-bhava, abraçando e beijando seus amigos. Lá em Goloka Vrinadavan é igual. Subhal, Sridam também abraçam Krsna. Lá, Mãe Yashoda ama seu Bal-Gopal. E aqui os pais nutrem seus filhos, abraçam, beijam. Isso se chama vatsalya-bhava, humor parental. No mundo transcendental assim como no mundo material há o humor conjugal ou madhurya-bhava. Ele é de dois tipos, um é o svakhya e o outro parakiya. Entre marido e mulher e entre amado e amante. Mas nestes dois mundos isso tudo acontece como um reflexo pervertido, não-perfeito.

Então voltamos a falar da nosso istadeva, Vrajendra-nandana Syamarsundara é linda. Mahaprabhu disse a Sanatana: "Como é linda a forma de Govinda"," (verso) e como Krsna em Goloka Vrndavan faz todas as Suas atividades como um ser humano, nara-lila. Ele é um lindo pastorzinho de vacas, gopavesh. Pastoreando as vacas com a varinha. Aqui no Brasil se faz isso? Na Índia eu vejo. Pastores são muito simples. Eles usam um turbante e um pano acima do joelhos, gamcha. 

Parte 4

...

… porque Srimati Radhika é a rainha de Vrindavana, então, por esta razão, todos os residentes de Vrindavana estão cantando: Radhe… Radhe… Radhe.

Quando Raskhan, o poeta muçulmano, veio à Vrindavana, ele ficou muito surpreso e assim, ele compôs esta canção que diz: “Radha mere swamini…”.

O significado desta canção é: Srimati Radhika é a minha Senhora, e eu sou uma serva Dela. Repetidamente presto minhas reverências à Srimati Radhika, dizendo: ó Srimati Radhika, eu peço que vida após vida, nascimento após nascimento, Você me permita nascer em Vrindavana…”.

Nunca se canta pedindo para se nascer em São Paulo!

Até os pássaros de Vrindavana, os pavões, os papagaios estão contando sempre: Radhe… Radhe… Radhe. Até os macacos em Vrindavana estão cantando: Radhe… Radhe… Radhe.

Então, Rasakhan compôs esta canção: …Radhe… Radhe… Radhe, jay… jay… jay Sri Radhe…

Se você cantar o nome de Radha, automaticamente Krsna virá correndo atrás de você.
Cante: Radhe… Radhe… jo pen ge…

Esta canção traz a mensagem de que se você cantar Radhe… Radhe,  Krsna virá atrás de você e é por esta razão que os vrajavasis não cantam Krsna… Krsna, e sim, Radhe… Radhe. Assim Krsna virá. E por que Krsna vem? Porque Ele ama Srimati Radhika!

Se você ama alguém, automaticamente você vai atrás dessa pessoa. Neste mundo material nós vemos que, onde quer que a amada for, o amante vai atrás. A diferença aqui é que, na verdade, neste mundo material, estúpido e sem sentido, não existe amor verdadeiro, pois os relacionamentos aqui giram apenas em torno de interesses sexuais. Por isso não existe o amor real neste mundo.

Mas, não é apenas Srimati Radhika que está atrás de Krsna, todos os seres vivos estão atrás de Govinda. Sukadeva Goswami Pada diz: "Ó Maharaja Pariksit, o que falar sobre Govinda?!”

Porque o amor perfeito, o amor verdadeiro está em Goloka Vrindavana e por isso todos estão atrás de Govinda.

Quando Krsna toca a flauta, o veado e a corça vão para perto de Govinda.
kā stry aṅga te kala-padāyata-veṇu-gīta-
sammohitārya-caritān na calet tri-lokyām 
trailokya-saubhagam idaṁ ca nirīkṣya rūpaṁ
yad go-dvija-druma-mṛgāḥ pulakāny abibhran 
(Srimad Bhagavatam 10.29.40)
Então, Sukadeva Goswami diz a Maharaja Pariksit: “…o que falar sobre Vrindavana?" 
As gopis têm amor e afeição espontâneas por Govinda e andam atrás Dele, mas também as árvores, vacas, bezerros e veadinhos,  todos estão correndo atrás de Govinda.
dhanyāḥ sma mūḍha-gatayo ’pi hariṇya etā
yā nanda-nandanam upātta-vicitra-veśam 
ākarṇya veṇu-raṇitaṁ saha-kṛṣṇa-sārāḥ
pūjāṁ dadhur viracitāṁ praṇayāvalokaiḥ 
(Srimad Bhagavatam 10.21.11)
Sukadeva Goswami Pada disse a Maharaja Paraksit que, quando Krsna entra na floresta para pastorear as vacas e toca a sua flauta, o veado e a sua corça automaticamente seguem Krsna. Tão logo o som da flauta entra em seus ouvidos, eles seguem pela floresta; a corça corre atrás de Krsna, e o veado, vai atrás da corça pensando: "Ah você está indo? Então eu também vou!" Isto acontece porque Krsna é o Grande Sadhu. Para ter a visão (darshana) do sadhu e do local sagrado, o esposo e a esposa devem ir juntos, então, em Vrindavana, quando a corça vai atrás de Krsna, o veado também vai atrás de Krsna.

Assim, ambos vão correndo e chegam mais perto e mais perto de Govinda. E por isso é dito: "dhanyāḥ sma mūḍha-gatayo ’pi hariṇya etā”; no verso acima, significa que a vida deles se torna muito bem sucedida, e embora eles sejam animais, ah, como eles têm amor e afeição por Govinda!

“saha-kṛṣṇa-sārāḥ" significa: a essência da vida é Krsna.

Qual a essência da nossa vida? Fazer bhajana (serviço) para Krsna, cantar o nome de Krsna. Servir ao Guru, aos Vaishnavas e a Bhagavan é a essência de nossas vidas. De outra forma a vida é inútil.

Srila Visvanatha Cakravarti Thakura explica que quando você morrer quem irá com você? Sua esposa? Sua esposa irá com você? Não, impossível! Seus filhos, suas filhas, suas crianças? Não, eles não irão com você. Você não levará nem um centavo, não levará nem mesmo uma pequena agulha ou linha.

Certa vez, Narada Rsi queria encontrar com um rei, e o rei disse: "Não tenho tempo para me encontrar com você." Então, Narada Rsi se encontrou com a rainha e disse:  "Rainha, ouça,  seu esposo morrerá em um dia."

Ela ficou muito perturbada e chamou o marido. Então, quando o rei chegou, Narada Rsi disse: “Rei, ouça, você executou muitas atividades piedosas (punya karma) em sua vida, por esta razão, quando morrer, você irá para um planeta celestial.

Em Svargaloka há muitas coisas boas reservadas para você: boa cama, boa comida.”

– E Narada Rsi continuou – "Acabo de chegar de Svargaloka e vi que lá você terá quarto muito bom, muito bonito, mas no seu quarto eu vi que o mosquiteiro tem um buraquinho. Então, quando você morrer, abandonar este corpo, você deve levar uma pequena agulha e um fio de linha com você para que possa costurar o buraquinho do mosquiteiro.

O rei disse: "Mas isso não é possível; não é possível para ninguém; não poderei levar linha nem agulha! Então Narada Rsi disse: "Se você não pode levar nada com você, por que então está trabalhando tanto? Assim, está realizando um trabalho inútil e sem sentido.

E o rei disse: "Estou juntando dinheiro para meus filhos e filhas”. Mas Narada disse: "Não existe nenhuma garantia de que eles irão utilizar apropriadamente a sua riqueza; talvez, até desperdicem esse dinheiro obtido com tanto trabalho!

Jay Sri Radhe!

(Tradução, Transcrição e Revisão : Candrika Didi - Taubaté; Ananga Manjari Didi - Rio de Janeiro; Goura Hari Prabhu - S. Antônio do Pinhal; Rasa Bihari Prabhu e Govinda Priya Didi - Itajaí/SC)