VRAJA-LILA KATHA DE KRSNA

Brasil
29 Janeiro, 2016
Sri Bhagavat Saptah - dia 7, classe noturna



Esta noite é o último programa do nosso Bhagavata-katha; acabaremos aqui. Na verdade, o Bhagavatam é ananta, ilimitado, infinito, portanto, não é possível terminar a oração do Srimad-Bhagavatam. Nityam bhagavat sevaya.
śṛṇvatāṁ sva-kathāḥ kṛṣṇaḥ
puṇya-śravaṇa-kīrtanaḥ
hṛdy antaḥ stho hy abhadrāṇi
vidhunoti suhṛt satām

naṣṭa-prāyeṣv abhadreṣu
nityaṁ bhāgavata-sevayā
bhagavaty uttama-śloke
bhaktir bhavati naiṣṭhikī
Śrī Kṛṣṇa, a Personalidade de Deus, que é o Paramātmā [Superalma] no coração de todos e o benfeitor do devoto veraz, purifica do desejo de gozo material o coração do devoto que desenvolve o desejo ardente de ouvir Suas mensagens, que são por si mesmas virtuosas quando adequadamente ouvidas e cantadas.
Assistindo regularmente às aulas sobre o Bhagavatam e prestando serviço ao devoto puro, tudo que é molesto ao coração é quase que completamente destruído, e o serviço amoroso à Personalidade de Deus, ao qual se louva com canções transcendentais, estabelece-se como um fato irrevogável. (Srimad-Bhagavatam, 1.2.17-18)

Nityam significa de forma contínua, incessante, ininterrupta. A própria vida do devoto é bhagavata e a palavra sânscrita para isso é bhagavata jivan. A vida dos devotos é bhagavata, o Bhagavatam, portanto, não existe apenas como livro, mas também no coração do devoto.
ahaṁ vedmi śuko vetti
vyāso vetti na vetti vā
bhaktyā bhāgavataṁ grāhyaṁ
na buddhyā na ca ṭīkayā
[O Senhor Siva disse]: "Eu posso saber; Sukadeva Gosvami, o filho de Vyasadeva, pode saber e Vyasadeva pode ou não saber o Srimad-Bhagavatam. O Srimad-Bhagavatam, o Purana imaculado, só pode ser aprendido ou conhecido através do serviço devocional e não pela inteligência material, por métodos especulativos e pela leitura de comentários imaginários." (Caitanya Caritamrta, Madhya-lila, 24.313)

“Nrsimha prasadena sridharam vetti.” Srila Sridhara Gosvamipada explica em relação a esse verso que apenas pela misericórdia do Senhor Nrsimhadeva nós poderemos entender o Bhagavatam. Bhāgavataṁ grāhyaṁ. Apenas devido à misericórdia do Senhor é que o devoto obtém a realização do Bhagavatam. Na buddhyā na ca ṭīkayā. Não podemos entender com a nossa inteligência e com o nosso cérebro, nem com a leitura de granthas (livros) e nem mesmo se ouvirmos milhares de vezes; o entendimento só vem quando recebermos a misericórdia do Senhor.

Continuamos discutindo sobre o décimo canto do Srimad-Bhagavatam. De manhã, eu contei muitos doces passatempos de Krishna e, nesse ponto do Bhagavatam, Sukadeva Gosvamipada vai falar sobre sua Gurudeva, Srimati Radhika. [Ele quis falar sobre sua mestra] porque todas as escrituras explicam que jihva pavitram guru gunakhyam, purificamos nossa língua ao glorificarmos Guru-pada-padma (os pés de lótus do mestre espiritual; o próprio mestre). Apenas a misericórdia do guru nos capacita a adentrar a vida espiritual e a entender os tópicos espirituais, nenhum outro método pode conceder isso.

Sempre digo algo que Srila Bhaktisiddhanta Prabhupada falou. Ele disse: “Não conheço a misericórdia de Krsna, nem a de Srimati Radhika. Tampouco conheço a misericórdia do Senhor Sri Chaitanya Mahaprabhu ou dos acaryas antecessores. A única coisa que eu conheço é a misericórdia do meu Guru-pada-padma (mestre espiritual)”. Guru krpa hi kevalam. Só tenho uma única esperança e anseio: obter uma partícula da misericórdia de Guru-pada-padma.
gurudev!

kṛpā-bindu diyā, koro' ei dāse,
tṛṇāpekhā ati hīna

sakala sahane, bala diyā koro',

nija-māne spṛhā-hīna (1)



sakale sammāna korite śakati,
deho' nātha! jathājatha

tabe to' gāibo, hari-nāma-sukhe,
aparādha ha 'be hata (2)



kabe heno kṛpā, labhiyā e jana,
kṛtārtha hoibe, nātha!

śakti-buddhi-hīna, āmi ati dīna,
koro' more ātma-sātha (3)



jogyatā-vicāre, kichu nāhi pāi,
tomāra karuṇā-sāra
karuṇā nā hoile, kāndiyā kāndiyā,

prāṇa nā rākhibo āra (4)
Gurudeva! Dê-me uma gota de misericórdia, faça este servo mais humilde do que uma folha de grama. Dê-me forças para tolerar todas as provações e problemas. Livre-me de todos os desejos de fama e honra pessoal. (1)

Ó senhor e mestre! Por favor, dê-me o poder para adequadamente respeitar todos os seres vivos de acordo com o que lhes é devido (e a todos os vaisnavas conforme a sua plataforma). Somente, então, serei capaz de cantar os santos nomes em grande êxtase e todas as minhas ofensas cessarão! (2)

Ó meu mestre! Quando serei abençoado com sua misericórdia e, finalmente, serei bem sucedido em minha vida? Sou muito baixo e caído que não tenho nenhum força ou inteligência. Por favor, bondosamente, aceite minha alma e faça de mim o seu servo. (3)

Quando me examino não encontro boas qualidades, a sua misericórdia é essencial para minha existência. Se você não for misericordioso comigo, chorarei amargamente e não conseguirei mais manter a minha vida. (4) [Gurudeva! Kṛpā-bindu diyā, Śaraṇāgati (1893) - Srila Bhaktivinoda Thakura]

Srila Bhaktivinoda Thakura cantou humildemente essa canção, orando: “Ó Gurudeva, quando receberei gotas da sua misericórdia? Quando isso acontecer, minha vida será bem-sucedida”.

Da mesma forma, Srila Sukadeva Gosvamipada está pensando: “como glorificarei meu Guru-pada-padma? Quem é o Gurudeva dele? Srimati Radhika. Sukadeva Gosvami é priya-suka, sriya-suka, é um dos papagaios mais queridos de Srimati Radhika. No entanto, no começo do Srimad-Bhagavatam, bhagavat-katha, Srimati Radhika Se manifestou no coração de Sukadeva Gosvami junto de todas as Suas sakhis (amigas) como Lalita e Visakha. Nesse momento, Ela falou rigidamente, ordenando-lhe: “Ouça, suka (papagaio), não fale os nossos nomes, porque aqui há muitas pessoas desqualificadas como karmis, jñanis, yogis e pessoas desse tipo”.

Outro ponto é que Srila Sukadeva Gosvamipada estava sofrendo muito devido à separação (saudade transcendental) que sentia da sua guru, Srimati Radhika. Só de se lembrar dEla, ele começava a chorar e sua garganta ficava embargada. Além disso ele samasika bhavet murccha, ou seja, ficava desmaiado por seis meses. Contudo, ele tinha que terminar de falar o bhagavata-katha em sete dias. Como seria possível para ele então falar o harikatha?

Por esses motivos, Srila Sukadeva Gosvamipada não mencionou o nome de Srimati Radhika diretamente no Srimad-Bhagavatam. Mesmo assim, Srila Jiva Gosvamipada explica que radha-nama (o nome de Radha) está presente em cada sloka do Srimad-Bhagavatam, pois Sukadeva Gosvamipada fala o nome dela indiretamente, por exemplo com as palavras kvacit e gopya.

O Srimad-Bhagavatam está repleto de doces humores, os quais aparecem indiretamente. “Parokṣa-vādo vedo ’yaṁ — Os Vedas descrevem uma situação como sendo outra para poder mascarar a verdadeira natureza da mesma.”
parokṣa-vādo vedo ’yaṁ
bālānām anuśāsanam
karma-mokṣāya karmāṇi
vidhatte hy agadaṁ yathā
Pessoas infantis e tolas ficam apegas a atividades materialistas e fruitivas, embora a verdadeira meta da vida seja libertar-se de semelhantes atividades. Portanto, descrevendo primeiro as atividades religiosas fruitivas, os preceitos védicos indiretamente as conduzem ao caminho da liberação última, assim como um pai promete doce a seu filho, para que este tome remédio. (Srimad-Bhagavatam, 11.3.44)

De forma excelente, os tópicos no Srimad-Bhagavatam são discutidos indiretamente. Existem duas de maneiras de se falar: direta e indiretamente. Diretamente eu posso falar o nome de alguém e glorificar tal pessoa, mas se eu falar sobre uma pessoa indiretamente, eu não preciso mencionar o nome dela. O que eu faço, nesse caso, é glorificar a beleza dela, como é sua roupa, seus ornamentos e isso despertará curiosidade em todos para saber quem é essa pessoa de quem estou falando. Portanto, referir-se a alguém indiretamente, sem usar o nome, desperta curiosidade e avidez por saber do que se trata. Em se tratando de amor, no prema-rajya (âmbito, reino do amor), prevalece a indicação indireta.

O Srimad-Bhagavatam fala sobre o amor divino e transcendental, aprakrta prema. E, como eu sempre digo, na verdade, não há amor neste mundo material. O “amor” deste mundo é sinuoso, vai de forma oposta2. Gurudeva fez um livro brilhante e muito interessante que explica esse assunto. O nome do livro é “O caminho do amor”. Leiam esse livro, ele está disponível em português e ele questiona: "onde está o amor neste mundo material?”. Deem esse livro às pessoas novas na consciência de Krishna e, assim, elas poderão entender qual é o caminho do amor.

Nós estamos discutindo o amor transcendental. Existem dois tipos de amor: o material e o transcendental (aprakrta divya prema). O amor transcendental apenas se manifesta no mundo transcendental, Goloka Vrndavana. O amor deste mundo é temporário e às vezes nos causa dor, sofrimento, infelicidade. Mas o amor do mundo transcendental está sempre proporcionando felicidade, tanto que o mundo transcendental é conhecido como divya ananda-mayi jagat e ananda-mayi dhama, ou seja, o mundo repleto de divina bem-aventurança transcendental. “Ananda mayo 'bhyasat, ananda mayo 'bhyasat, ananda mayo 'bhyasat. (Vedanta-sutra 1.1.12).” O Vedanta-sutra afirma que sempre devemos praticar a bem-aventurança do amor divino, ananda-mayi dhama.

No mundo transcendental, Srimati Radhika é a personificação da bem-aventurança, ananda swarupini srimati radhika.
premera ‘svarūpa-deha’ — prema-vibhāvita
kṛṣṇera preyasī-śreṣṭhā jagate vidita
O corpo de Śrīmatī Rādhārāṇī é a transformação autêntica do amor a Deus; Ela é a mais querida amiga de Krsna, e sabe-se disto no mundo inteiro. (Chaitanya Caritamrta, Madhya-lila, 8.162)

Srimati Radhika é a personificação do amor divino. Hladini-sakti svarupini Srimati Radhika. Krishna possui inumeráveis potências mas três são muito proeminentes: samvit, sandhini e hladini. A Deidade que preside sandhini-sakti (potência de existência eterna e transcendental) é Baladeva Prabhu. A Deidade que preside samvit-sakti (potência de conhecimento transcendental) é o Próprio Krsna e a Deidade que preside hladini-sakti (potência de bem-aventurança transcendental), ananda, é Srimati Radhika. Srimati Radhika, essa potência de prazer (hladini-sakti), faz o Próprio Krsna dançar pois consiste de ananda (bem-aventurança).

A bem-aventurança que experimentamos neste mundo é a bem-aventurança material, jadananda. Ela é temporária como tudo que vemos neste mundo; tudo aqui é temporário e mutável (vikarshi e parivartanshil). No mundo transcendental, contudo, a ananda é super excelente, maravilhosa e sempre existente. A bem-aventurança lá é permanente tal como as ondas do oceano, as quais nunca param, nunca. Se você se sentar na praia, o que você verá? Verá as ondas vindo uma a uma; elas tocam a praia e depois voltam, vêm e vão. De novo elas vêm e depois voltam. Quando as ondas do mar vão parar de vir? Nunca. Em cada segundo, em cada momento elas vêm. Às vezes surgem ondas grandes, às vezes ondas pequenas.

Da mesma forma, no oceano do amor divino (prema-samudra) e da bem-aventurança transcendental (ananda-samudra) do mundo transcendental, há sempre diferentes ondas de amor se elevando e se abaixando. Você pode se sentar na praia pela noite toda e você verá que as ondas do mar nunca terminam. Nunca. Elas sempre vêm. Você poderia contar quantas ondas vêm? São inúmeras, ilimitadas. Igualmente, em se tratando do amor no mundo transcendental, aprakrta cit-jagat, o oceano do amor divino, prema-samudra, funciona da mesma forma.

No mundo transcendental, Krsna está sozinho. Sempre se lembre de que Krsna é svayam bhagavan, “krsnas tu bhagavan svayam”.
ete cāṁśa-kalāḥ puṁsaḥ
kṛṣṇas tu bhagavān svayam

indrāri-vyākulaṁ lokaṁ
mṛḍayanti yuge yuge
Todas as encarnações anteriormente mencionadas são ou porções plenárias ou porções das porções plenárias do Senhor, mas o Senhor Sri Krsna é a Personalidade de Deus original. Todas essas encarnações aparecem nos planetas quando quer que haja uma perturbação causada pelos ateístas. O Senhor encarna para proteger os teístas. (Srimad-Bhagavatam, 1.3.28)

Uma vez, no mundo transcendental, Krsna estava sentado sozinho à beira da Yamuna sob uma figueira-da-bengala. Era um lugar muito lindo e agradável; soprava uma doce brisa. Não estava nem frio, nem quente; realmente uma atmosfera maravilhosa. Todos os tipos de flores da estação floresciam automaticamente, porque Govinda estava ali. Flores como madhavi, malati, jasmim; todos tipos de flores desabrochavam espalhando uma doce fragrância no ar. Além do mais, havia diferentes tipos de abelhas zunindo, pássaros chilreando e o pavão e a pavoa cantavam muito bem keh-kah. Pássaros cuco cantavam de forma magnífica “CU-OO”. Que lugar fascinante e esplêndido! Até mesmo havia corças e veados caminhando por ali. Era uma atmosfera estonteante! Mas Krsna estava sozinho e Ele estava pensando: eko aham — “Estou sozinho”, bahu syam — “Eu quero manifestar muitas formas”.
eko (ekam) bahu syam
Krsna é um e Se torna muitos, mas mesmo virando muitos, permanece um só. [Ele Se expande em muitos para poder haver trocas amorosas.] (Chandogya Upanisad, 6.2.3)

Nessa mesma hora, surgiu o seguinte desejo em Krsna: “Eu quero manifestar muitas formas, Eu quero fazer doces passatempos, lila”.
naravat (lokavat) lila kaivalam
O Senhor faz Seus passatempos como se fosse um ser humano.

O Senhor desempenha doces passatempos (lila) como um ser humano. Krsna possui uma forma tão bela e encantadora. O Seu nome é Krsna, ou seja, Ele atrai todas as entidades vivas para Ele e dá amor divino a todos.
kṛṣir bhū-vācakaḥ śabdo
ṇaś ca nirvṛti-vācakaḥ
tayor aikyaṁ paraṁ brahma
kṛṣṇa ity abhidhīyate
A palavra “kṛṣ” é o aspecto atrativo da existência do Senhor, e “ṇa” significa prazer espiritual. Ao acrescentar-se a raiz verbal “kṛṣ” ao afixo “ṇa”, ele torna-se Kṛṣṇa, que indica a Verdade Absoluta. (Caitanya-Caritamrta, Madhya-lila, 9.30)

Portanto, o nome dEle é Krsna, nome formado por duas sílabas (Krs-na). Krs significa atrair, pois Ele atrai todas as entidades vivas e concede prazer, bem-aventurança a todos. A forma de Govinda é muito linda. Seu corpo é tri-bhanga lalita, curvado em três partes, e Ele segura uma flauta muito bonita em Suas mãos. Ele também usa uma pena de pavão no Seu turbante e Seus olhares românticos de soslaio são fascinantes e belíssimos. Seus olhos são lindos; Seu nariz, também. As Suas roupas amarelas são tão maravilhosas! Elas brilham sobre Seu corpo.

E apenas Krsna estava pensando, Ele teve esse desejo: “Eu quero manifestar muitas formas, Eu quero fazer doces lilas (passatempo, atividades)”. A palavra sânscrita para a potência de desejo de Krsna é ittcha-sakti. Quando surgiu esse tipo de desejo em Krsna, Yogamaya orquestrou tudo. Então a mão direita de Krsna começou a tremer e daí se manifestou, saiu, Baladeva Prabhu. Em outra kalpa, quem se manifestou nessa hora foi Sadashiva, o Senhor Shiva. Depois de alguns minutos, a mão esquerda de Krsna começou a tremer e dela Se manifestou uma mocinha muito linda e maravilhosa, que não tinha mais de 8 ou 9 anos de idade. Era uma menina muitíssimo atraente e bela. Do Seu corpo emanava uma refulgência dourada linda, tão fascinante e atraente — tapta kancana gaurangi —, tal brilho iluminava completamente as quatro direções. O rosto dEla era como o de uma lua nascente, mukha chandrama, e Seus olhos, nariz, lábios eram belíssimos. Seu cabelo encaracolado era esplêndido e Ela fitou Krsna com Seu olhar de soslaio muito doce e romântico e com um sorriso nos lábios. E então, Ela saiu correndo.

Bhagavan Krsna é conhecido por ser atmarama, auto-satisfeito, e por ser aptakama, ou seja, não ter desejos, todos Seus desejos já são completos, satisfeitos. Contudo, quando aquela jovem mocinha reparou nEle, o coração de Krsna foi completamente roubado e Ele foi cativado pelo olhar de soslaio dEla. Krsna deixou de lado, abandonou, Sua atmaramata — qualidade se ser satisfeito em Si mesmo — e Sua aptakamata — qualidade de não ter desejos, pois todos os Seus desejos já são satisfeitos — tanto que, quando Ela saiu correndo, Krsna saiu correndo atrás dEla, seguindo-A.

Por isso o nome dEla é Radha. Ra significa anuragena krsna davati yasa iti radha. Nossas Upanisads explicam o porquê do nome de Srimati Radhika ser Radha. Krsna é a Suprema Personalidade de Deus, é paratpara para tattva, ou seja, a Verdade Absoluta e Suprema.
vadanti tat tattva-vidas
tattvaṁ yaj jñānam advayam

brahmeti paramātmeti

bhagavān iti śabdyate
Transcendentalistas eruditos que conhecem a Verdade Absoluta, chamam essa substância não-dual de Brahman, Paramatma ou Bhagavan. (Srimad-Bhagavatam, 1.2.11)

Os jñanis devido ao seu conhecimento pensam que Ele é brahma, refulgência. Já os yogis, devido ao processo de yoga, pensam que Ele é Paramatma (Superalma). Mas aqueles que são devotos do Senhor têm a realização (sentimento) de que Ele é Bhagavan, pleno em seis opulências.
aisvaryasya samagrasya viryasya yasasah sriyah
jñana-vairagyayos caiva sannam bhagam itingana
Bhagavan é Aquele que é pleno em todas as opulências: toda a beleza, toda a fama, toda a riqueza, toda a força, todo o conhecimento, toda a renúncia — todas essas qualidades se manifestam ao máximo em Bhagavan. (Visnu Purana, 6.5.47)

Esse Krsna que é a Suprema Personalidade de Deus está agora correndo atrás dessa linda mocinha, perseguindo-A. Por isso então que o sastra explica que o nome dEla é Radha. Ra significa anuragena, ou seja, com apego profundo e dha significa correr. Então Krsna corre em direção a Ela com apego profundo por Ela e por isso Ela é chamada de Radha.

Srimati Radhika está correndo e Ela está muito assoberbada pela Própria belíssima forma que tem:
madonmadāti-yauvane pramoda-māna-maṇḍite
priyānurāga-rañjite kalā-vilāsa-paṇḍite
ananya-dhanya-kuñja-rājya-kāma-keli-kovide
kadā kariṣyasīha māṁ kṛpā-kaṭākṣa-bhājanam?
Você está embriagada pela beleza de Sua Própria juventude e está sempre adornada com Seu ornamento proeminente: o Seu encantador sentimento de ira (maana). Você Se deleita com o amor que Seu querido tem por Você e é supremamente hábil na arte dos assuntos amorosos. No incomparável reino de maravilhosos kuñjas, Você é a mais versada em todas as inovações do amor — Ó Srimati Radhika, quando, ó quando Você me concederá o Seu misericordioso olhar de soslaio? (Śrī Rādhā-kṛpā-kaṭākṣa-stava-rāja, 5 - Falado por Śiva no Urdhvāmnāya-tantra.)

Ela está sempre assoberbada pela Sua Própria beleza e juventude, madonmadāti-yauvane. Pramoda-māna-maṇḍite priyānurāga-rañjite. Ela é especialista em embriagar o coração de Krsna. Kalā-vilāsa-paṇḍite. Ela é exímia em todos os tipos de artes; ela sabe todos os 64 tipo de artes que existem. Por exemplo, sirpu-kalā, Ela é perita em desenhar; chitra-kalā, Ela é exímia em fazer diferentes tipos de pinturas. Ela sabe cozinhar, essa arte se chama randhan-kalā. Quem pode se comparar a Ela? Ela é única e inigualável. Ela é muito perita em cantar, por isso Seu nome é Gandharvika. Ela sabe como cantar, como dançar, como falar. Na verdade, todos os tipos de artes vêm de Srimati Radhika. Agora, neste mundo material, as pessoas estão dançando, cantando e o fato é que tudo isso vem de Srimati Radhika; Ela é, na verdade, a fonte dessas atividades artísticas.

Ela é muito exímia na arte da dança, nrtya-kalā. Ela é especialista também em falar de um jeito muito encantador usando palavras doces, fascinando, assim, o coração de todas entidades vivas. Kalā significa arte e Ela sabe tudo, todos os 64 tipos de artes. Diferentes tipos de artes estão explicados no sastra,por exemplo como dançar e como falar. E Ela controla Krsna com todas as Suas habilidades artísticas, mesmo Krsna sendo Bhagavan. Brahma, Siva, Narada3; todos eles são controlados por Krsna e prestam reverências aos Seus pés de lótus. Mas, agora, esse mesmo Krsna está completa e absolutamente sob o controle de Srimati Radhika.

Voltando à história (katha), Krsna estava correndo atrás de Srimati Radhika, indo no encalço dEla. Já Srimati Radhika corria pois estava assoberbada por todas as Suas habilidades artísticas. Krsna estava quase alcançando-A e, finalmente, Ele A pegou. Então, os dois voltaram à margem do Yamuna sob a figueira-da-bengala. Krsna disse: “Ó Radhe, Eu quero fazer doces lilas e Você é a Minha potência de prazer, ananda-sakti, ananda-swarupini”.
hlādinīra sāra ‘prema’, prema-sāra ‘bhāva’
bhāvera parama-kāṣṭhā, nāma — ‘mahā-bhāva’
mahābhāva-svarūpā śrī-rādhā-ṭhākurāṇī
sarva-guṇa-khani kṛṣṇa-kāntā-śiromaṇi
A essência da potência hladini é amor por Deus, a essência do amor por Deus é emoção (bhava) e o desenvolvimento máximo da emoção é mahabhava. Sri Radha Thakurani é a personificação de mahabhava. Ela é uma mina de todas as boas qualidades e é a joia suprema dentre todas as amáveis consortes do Senhor Krsna. (Sri Chaitanya Charitamrta, Adi-lila, 4.68-69)

Srimati Radhika é a personificação do amor divino. O amor tem diferentes patamares: sneha, maan, pranaya, raaga, anuraaga, bhava, mahabhava e depois, rudha, adhirudha, mohana, madana e então madanakhya mahabhava. Srimati Radhika disse: “Irei satisfazer a todos os Seus desejos”. Ela assim o disse, porque o amor havia surgido. O que significa amor? Significa como satisfazer a todos os desejos da sua istadeva, Deidade adorável. Amor significa servir.

Eu amo a quem? Amo quem ama o meu guru. Eu sempre falo isso, porque, caso não sigam isso, bhakti não irá se manifestar em seus corações. Se uma pessoa ama o meu guru, amarei também essa pessoa.
henô guru-pāda-padma karahô vandanā
ĵāhā hôite ghuce bhāi sakala ĵantraṇā
guru-pāda-padma nitya ĵe kare vandana
śire dhôri’ vandi āmi tāhāra caraṇa
Adore os pés de lótus de tal guru, ó irmão, porque eles destroem todo o sofrimento. Eu coloco sobre a minha cabeça em adoração os pés daquele que sempre adora os pés de lótus de śrī guru. (āśraya kôriyā vandõ, 12 - 13 - Śrī Sanātana dāsa)

Sanatana das, um poeta vaisnava, explica: “Sempre seguro os pés de lótus daquele que glorifica o meu guru e sempre o sirvo”. Esse é o processo. Bhakti significa o quê? No âmbito de bhakti, bhakti-jagat, não há nenhum tipo de inveja, ciúmes. Sempre dê amor e afeição. Quem eu amo? Amo aqueles que amam meu guru. E quem o guru ama, eu também amo. Esse é o processo e, dessa forma, bhakti manifestar-se-á em seu coração.
anyābhilāṣitā-śūnyaṁ jñāna-karmādy-anāvṛtam
ānukūlyena kṛṣṇānu-śīlanaṁ bhaktir uttamā
Uttama-bhakti, serviço devocional puro, é o cultivo de atividades que se destinam exclusivamente para o prazer de Sri Krsna. Em outras palavras, é o fluxo ininterrupto de serviço a Sri Krsna realizado através de todos os esforços do corpo, mente e fala, bem como através da expressão de vários sentimentos espirituais (bhavas). Esse fluxo de serviço não é encoberto por jñana (conhecimento que visa à liberação impessoal), nem por karma (atividades que buscam resultado), nem por yoga ou austeridades; é
completamente livre de todos desejos que não a aspiração de trazer felicidade a Sri Krsna. (Bhakti-rasāmṛta-sindhu 1.1.11)

Bhakti é isto: anukulya mayi cesta, ou seja, todos os seus esforços, todas as suas atividades devem ser favoráveis a bhakti, favoráveis ao serviço a Krsna (krsna-seva). Dessa mesma forma, todos os seus esforços e atividades devem ter como objetivo satisfazer os desejos do seu guru-pada-padma. Porque “eu não conheço Krsna, eu não possuo um vínculo direto com Krsna”. “Minha relação direta é com guru-pada-padma.” Se você chegou à vida espiritual, você deve estabelecer um relacionamento com guru-pada-padma. O guru ama quem? Você ama quem o guru ama. Esse é o processo. Você vai ouvir harikatha de quem? Daquele que ama o seu guru. Sempre seja indiferente àquele que não gosta do seu guru. Entende o que é ser indiferente? Fique um pouco longe dessa pessoa. Isso é a sua vida. “Se alguém ama o meu guru, eu amo também essa pessoa; relaciono-me com ela.” Isso é bhakti. Isso é amor. Bhakti é seva-vrtti, tendência de servir a guru e Krsna. Quando essa tendência amadurece, chamamo-la bhava e prema. Entende?

Portanto, todos os nossos esforços são para dar prazer a quem? Para guru pada-padma. O ponto é este: como Gurudeva vai ficar satisfeito? Guru-seva, guru-bhakti. Se você não possui guru-bhakti e guru-seva (devoção e serviço ao mestre espiritual), como você alcançará seu destino supremo? Tente entender esse pensamento: Eu amo a quem? Amo aquele que ama meu guru. E se o meu guru ama alguém, também amarei essa pessoa. O processo é esse. Krsna ama Srimati Radhika e Srimati Radhika ama quem? Ama a Krsna. Esse é o processo. Eu não gosto de Krsna. Madīśā-nāthatve vraja-vipina-candraṁ. Eu amo Srimati Radhika, mas eu amo Krsna. Por que eu amo a Krsna? Porque Srimati Radhika O ama.
madīśā-nāthatve vraja-vipina-candraṁ vraja-vane-
śvarīṁ tāṁ-nāthatve tad-atula-sakhītve tu lalitām
viśākhāṁ śikṣālī-vitaraṇa-gurutve priya-saro-
girīndrau tat-prekṣā-lalita-rati-datve smara manaḥ
Ó mente, sempre se lembre de Vṛndāvana-candra Śrī Kṛṣṇa como o Senhor da vida da minha svāminī, Śrī Rādhikā. Lembre-se de Vṛndāvaneśvarī Śrīmatī Rādhikā como minha mestra, de Śrī Lalitā como a amiga inigualável dEla, de Śrī Viśākhā como a guru instrutora e de Śrī Rādhā-kuṇḍa e Girirāja-Govardhana como aqueles que concedem o darśana de Śrī Śrī Rādhā-Kṛṣṇa e outorgam o apego (rati) sublime por Eles. (Śrī Manaḥ-śikṣā, 9 - Śrīla Raghunātha dāsa Gosvāmī)

Manaḥ-śikṣā. Leiam o Manaḥ-śikṣā e então vocês entenderão. Madīśā-nāthatve vraja-vipina-candraṁ vraja-vaneśvarīṁ tāṁ-nāthatve. Madīśā, minha mestra, entendam, é Srimati Radhika. É verdade, eu não gosto de Krsna. Mas eu O amo, por quê? Por quê? Porque Srimati Radhika ama a Krsna, é por isso. Leiam o Manaḥ-śikṣā. Esse é o processo lógico. Da mesma forma, amo aquele ou aquela que ama o meu guru. Esse é o ponto. E não há necessidade de me relacionar com aquele que não gosta do meu guru, fico longe dessa pessoa. Essa é a sua vida espiritual. E esse ponto é sempre muito importante na vida espiritual. Estabeleça um relacionamento com guru-pada-padma e, depois, esse mesmo relacionamento irá ser direcionado para Chaitanya Mahaprabhu e Radha e Krsna.

Voltando à história, Srimati Radhika disse: “Ó Govinda, ó prana-priyatama, Meu coração e alma, o que Você quer?” Krsna respondeu: "Eu quero fazer doces lilas (passatempos)”. Srimati Radhika perguntou: "O que é Sua doce lila?” Qual é a lila mais doce de Krsna? É a rasa-lila. Então, Srimati Radhika disse: “Claro, Eu tenho que satisfazer aos Seus desejos, o desejo dessa rasa-lila”. Apesar de Srimati Radhika poder satisfazer a todos os desejos de Krsna, sem muitas consortes Krsna não ficaria feliz. Para o prazer de Krsna, portanto, Srimati Radhika manifestou muitas gopis.
bahu kāntā vinā nahe rasera ullāsa

līlāra sahāya lāgi’ bahuta prakāśa
Sem muitas consortes, não há tanto júbilo na rasa. Portanto, há muitas manifestações de Srimati Radharani como auxiliares nos passatempos do Senhor. (Chaitanya Charitamrta, Adi-lila, 4.80)

Não seria possível o saborear da rasa, das doçuras dos relacionamentos transcendentais, caso não houvesse muitas consortes. Por isso Srimati Radhika manifestou muitas gopis. Todas as gopis, incluindo as gopis de todos os grupos — svapaksa, vipaksa, tatastha paksa, suhrda paksa —; todas vêm, na verdade, de Srimati Radhika.

Então Radha e Krsna estão juntos. Lalita, Visakha; as oito sakhis também vêm e muitas manjaris também. Chandravali e seu grupo (vipaksa) igualmente se aproximam. Svapaksa, vipaksa, tatastha e suhrda paksa — todas as gopis se reuniram ali. Svapaksa se refere ao próprio grupo de Srimati Radhika e Lalita, Visakha e as manjaris são desse grupo. Vipaksa se refere ao grupo rival ao de Srimati Radhika: é o grupo de Chandravali e de suas amigas tais como Padma e Shaibya. Tatashta se refere a um grupo de gopis que são neutras. O grupo suhrda paksa é composto por Shyamala e outras. Então todas as gopis estavam ali e Krsna começou a tocar Sua flauta, o que fez com que o coração de todos começasse a dançar!
radha nace, krsna nace, nace gopi gan
man mere apen gai re sakhi pavana vrndavan
Radha está dançando, Krsna está dançando e todas as gopis também estão dançando. Ó amiga, minha mente foi para a floresta, para a pura Vrndavana!
lalita nace, visakha nace, nace sakhi gan
man mere apen gai re sakhi pavana vrndavan
Lalita está dançando, Visakha está dançando e todas as sakhis também estão dançando. Ó amiga, minha mente foi para a floresta, para a pura Vrndavana!
ganga nace, yamuna nace, nace nadi gan
man mera apen gai re sakhi pavana vrndavan
Ganga está dançando, Yamuna está dançando e todos os rios estão dançando. Ó amiga, minha mente foi para a floresta, para a pura Vrndavana!
suka nace, sari nace, nace paksi gan
man mere apen gai re sakhi pavana vrndavan
O papagaio está dançando, a papagaia está dançando e todos os pássaros também estão dançando. Ó amiga, minha mente foi para a floresta, para a pura Vrndavana!
pavana teri nam, man mera sakhi, pavana yamuna/vrndavan
man mera apen gai re sakhi pavana vrndavan
Seu nome é puro, ó amiga, Yamuna/ Vrndavana é pura. Ó amiga, minha mente foi para a floresta, para a pura Vrndavana!

Já esta outra canção, Srila Bhaktivinoda Thakura cantou-a muito bem:
yamunā-puline, kadamba-kanane, ki herinu sakhi āja
śyāma baḿsīdhārī, maṇi-mañcopari, kore līlā rasarāja (1)


kṛṣṇa-keli sudhā-prasravana
aṣṭa-dalopari, śrī rādhā śrī hari, aṣṭa-sakhī parijana (2)


sugīta-nartana, saba sakhī-gane, tusiche yugala-dhane
kṛṣṇa-līlā heri, prakṛti-sundarī, bistariche śobhā vane (3)


gṛhe na jaibo, vane pravesibo, o līlā-rasera tare
tyāji kula-lāja, bhajo vraja-rāja, vinoda minatī kare (4)
Ó sakhi! Ouça o que vi hoje! Em um bosque de kadamba às margens do Yamuna, estava um lindo menino negro segurando uma longa flauta, sentado num trono de joias, realizando Seus passatempos como rasa-raja, o rei de todas as doçuras transcendentais. (1)

Nas oito pétalas do altar cravejado de joias, Suas mais queridas servas, as oito gopis principais rodeavam Radha e Hari. Ali, Krsna realizava Seus passatempos amorosos, que são como uma cachoeira de néctar. (2)

Com suas doces canções e exímias danças, todas as gopis satisfaziam o Casal Divino. Contemplando as lilas de Krsna, a bela energia espiritual expande o esplendor da floresta de Vrndavana. (3)

A fim de saborear o néctar dessas lilas não voltarei para casa e, sim, adentrarei a floresta. Renunciando a toda vergonha decorrente do medo da família e da sociedade, apenas adore o Senhor de Vraja. Esse é o humilde pedido de Bhaktivinoda. (4)

Descrevo brevemente os doces passatempos que Krsna fez em Braja. Em especial, Ele fez essa lila (passatempo), que é Sua lila suprema: a rasa-lila. Todas as gopis estavam dançando e cantando, completamente inebriadas pelo amor divino de Govinda. Srila Sukadeva Gosvamipada disse a Maharaja Pariksit:
evaṁ bhagavataḥ kṛṣṇāl
labdha-mānā mahātmanaḥ
ātmānaṁ menire strīṇāṁ
māninyo hy adhikaṁ bhuvi
As gopis ficaram orgulhosas por terem recebido atenção tão especial de Krsna, a Suprema Personalidade de Deus, e cada uma delas se julgava a melhor mulher na terra. (Srimad-Bhagavatam, 10.29.47)

Dessa forma, Krsna realizou uma doce rasa-lila, dançando e cantando com as gopis. No meio estavam Radha e Krsna, então Krsna manifestou muitas formas, porque Ele é Bhagavan, Yogesvara Krsna. Bhagavan pode manifestar muitas formas. Um yogi conforme o processo de yoga pode manifestar muitas formas, isso é verdade, mas todas as suas formas são iguais (fazem a mesma coisa), mas Bhagavan é Yogesvara, o Controlador Supremo dos Yogis. Então Ele está fazendo isso, dançando e cantando com todas as variadas gopis.

Então Sukadeva Gosvamipada explicou que todas as gopis estavam assoberbadas pela boa fortuna, pela sorte que tinham e isso se chama saubhagya-mud. Todas as gopis estavam pensando: “Eu sou muito sortuda, porque agora estou dançando e cantando com meu amado Govinda”. Elas estavam tendo Govinda-darshan, ou seja, estavam vendo Govinda diretamente e, além disso cantavam e dançavam com Ele — que fortuna suprema! Neste mundo material, as almas condicionadas não fazem ideia da existência do mundo transcendental e do que seja ele. O que é a bem-aventurança transcendental, ananda? [Elas não sabem] e por isso elas se divertem com um pouquinho de prazer da satisfação dos sentidos materiais, contudo, sofrem também. Isso porque este mundo material é cheio de
sofrimento e aflição.
mām upetya punar janma

duḥkhālayam aśāśvatam
nāpnuvanti mahātmānaḥ

saṁsiddhiṁ paramāṁ gatāḥ
Depois de Me alcançar, as grandes almas, as quais são yogīs em devoção, jamais retornam a este mundo temporário que é cheio de misérias, porque eles obtiveram a perfeição máxima. (Bhagavad-Gita 8.15)

Duḥkhālayam aśāśvatam. Duhkha significa sofrimento, infelicidade. Como é possível obter a felicidade? Mas alguma coisa as pessoas estão conseguindo; elas experimentam um pouquinho de felicidade em suas vidas e com suas famílias. Mas o que mais vem? Sofrimento. O que eles experimentam talvez seja apenas 1 ou 2% de felicidade e 98% de sofrimento, porque as almas condicionadas não têm ideia do que seja o mundo transcendental e do que é a sukha, a ananda, a bem-aventurança que existe lá. Mas, se essas almas se associarem4 com os sadhus (santos), guru (mestre espiritual que erradica a ignorância), vaisnava (devotos de Deus), então elas poderão obter a realização (sentimento) do mundo transcendental. Poderão então se dar conta de que tipo de bem-aventurança (ananda) existe lá, afinal, o mundo transcendental é conhecido como ananda-mayi jagat e prema-mayi jagat (mundo pleno de bem-aventurança e amor divino). O que há lá é o amor divino, aprakrta. Se eu lhes disser, vocês não conseguirão entender, porque as coisas transcendentais somente podem ser compreendidas e sentidas através do processo da auto-realização, resultado da execução de bhajana e sadhana. Esse é o ponto. Aí então poderemos sentir, vivenciar, como são as belíssimas formas das gopis e como são suas atividades.

É verdade, é muito difícil falar sobre isso para vocês. Por exemplo, se eu lhes disser: "flor bonita". Bonita como? A flor é bonita. Bonita flor. Mas como é a beleza? A beleza, ser bonita, é um adjetivo (guna, qualidade). Se você não tiver visto a flor bonita, mesmo que eu lhe diga milhares de vezes, você não vai conseguir entender. Mas, quando você vir a flor bonita, aí você entenderá. Da mesma forma, no mundo transcendental, há a bem-aventurança transcendental, aprakrta ananda. Contudo, como você vai conhecer isso que é aprakrta, transcendental?

Neste mundo material, há a bem-aventurança material, jadananda. E essa bem-aventurança material sempre causa sofrimento, tristeza, infelicidade. Isso é verdade. Quando a mãe dá à luz o bebê, ela fica feliz, sente ananda, sukha. Mas quando o filho dela morrer, ela sentirá tristeza (duhkha), ficará infeliz. O motivo é que essa é a natureza deste mundo material: em um dia você nasce, noutro você morre. Esse samsara é a natureza deste mundo material; isso se chama janma-mrtyu (nascimento e morte). Mas como é lá no mundo transcendental? So há sempre felicidade, ananda. A palavra morte nem existe lá. No mundo transcendental ninguém morre, tente entender essa filosofia. Lá, todos são felizes e ninguém morre. O mundo espiritual é repleto de bem-aventurança, ou seja, é ananda-mayi jagat. Ananda-mayo 'bhyasat, ananda-mayo 'bhyasat. A filosofia mais elevada, o Vedanta darshan (1.1.12), explica “sempre busque praticar a fim de alcançar a morada da bem-aventurança, ananda-mayi jagat”. Esse é o ponto.

Continuando a história, todas as gopis estavam muito felizes, uma vez que todas estavam pensando: “Krsna está dançando comigo e Ele está segurando minha mão”. Krsna está sempre com uma bela pose de dançarino; esse natavara Krsna é tão lindo e maravilhoso! Brahma, Siva, Narada; todos oferecem flores aos Seus pés de lótus. Todos os semideuses e semideusas estão sempre muito ávidos por ver (ter darshan) da rasa-lila, contudo isso não é possível. O Srimad-Bhagavatam explica que quando Krsna realizou a dança da rasa com as gopis, todos os semideuses junto de suas esposas foram ter o darshan da rasa-lila de Krsna.
kṛṣṇaṁ nirīkṣya vanitotsava-rūpa-śīlaṁ
śrutvā ca tat-kvaṇita-veṇu-vivikta-gītam
devyo vimāna-gatayaḥ smara-nunna-sārā
bhraśyat-prasūna-kabarā mumuhur vinīvyaḥ
A beleza e o caráter de Krsna criam um verdadeiro festival para todas as mulheres. De fato, quando as esposas dos semideuses, as quais estavam voando em aeroplanos com seus maridos, puseram o olho em Krsna e ouviram a canção ressonante da Sua flauta, o coração delas foi estremecido pelo Cupido e elas ficaram tão confusas que as flores dos seus cabelos caíram e seus cintos afrouxaram. (Srimad-Bhagavatam 10.21.12)

Todos os semideuses e semideusas estavam sentados em suas aeronaves divinas, devyo vimāna, para ter o darshan da rasa-lila. Eles estavam um pouco de longe e, devido a Yogamaya, eles não puderam ver; não foi possível ter o darshan (visão direta) de Govinda. Eles desmaiaram. As esposas dos semideuses viram apenas um pouquinho dos pés de lótus de Srimati Radhika e então também desfaleceram. Isso porque não é fácil ter o darshan de Govinda: ao vê-lO, o ser é tomado pelo êxtase de um encanto arrebatador. O céu ficou completamente coberto de aeronaves divinas e transcendentais dos semideuses e semideusas, porque eles haviam vindo para ter o darshan, contudo, ter o darshan (visão direta) de Govinda não é tão fácil.

Até mesmo Kamadeva, a deidade que preside a luxúria, veio e disse a Krsna: “Esperei por tanto tempo e meu dever é criar a luxúria no coração das entidades vivas. Esse é o meu dever e ninguém pode me conquistar”. Quem pode conquistar a luxúria? Ninguém. Brahma e Siva também não conseguiram conquistar a luxúria. Apesar de eles serem pessoas liberadas, fazem essa lila para nos mostrar que afinal “Quem pode conquistar a luxúria?”, a resposta é: ninguém. Muitas lilas (histórias da vida de Deus ou de Seus companheiros) mostram isso.

Então Kamadeva, a deidade que preside a luxúria, falou: “Ó Krsna, eu estava esperando por Você” — Kamadeva estava pensando que Krsna era um ser humano comum. Krsna contestou: “Está bem, o que você quer?”. Kamadeva replicou: “Quero lutar com Você”, ao que Krsna disse: “Ok”. Aí, foi apenas Krsna manifestar Sua belíssima e encantadora forma que Kamadeva caiu completamente desmaiado. Não foi possível para ele ter darshan de Krsna. Portanto, a rasa-lila também é chamada de kama-vijay lila (passatempo da vitória sobre a luxúria). Apenas Govinda pode conquistar a luxúria.

Na ocasião da dança da rasa, milhões e milhões de gopis estavam reunidas ali e todas elas eram muito belas e atraentes. Vocês não podem nem imaginar como é a belíssima forma delas. Não há nada neste mundo material que sirva de exemplo, tampouco nos planetas celestiais.
nāyaṁ śriyo ’ṅga u nitānta-rateḥ prasādaḥ
svar-yoṣitāṁ nalina-gandha-rucāṁ kuto ’nyāḥ
rāsotsave ’sya bhuja-daṇḍa-gṛhīta-kaṇṭha-
labdhāśiṣāṁ ya udagād vraja-vallabhīnām
Quando o Senhor Sri Krsna estava dançando com as gopīs na rāsa-līlā, as gopīs foram abraçadas pelos braços do Senhor. Tal favor transcendental nunca foi outorgado sobre as deusas da fortuna ou outras consortes no mundo espiritual. De fato, algo assim nunca havia sigo imaginado pelas mais lindas moças dos planetas celestiais, as quais possuem brilho corpóreo e cheiro parecidos com o da flor de lótus. O que dizer então das mulheres mundanas as quais são bonitas apenas de acordo com a estimativa material? (Srimad-Bhagavatam, 10.47.60)

No Srimad-Bhagavatam encontramos as orações que Uddhava recitava prostrando sua cabeça aos pés de lótus das gopis repetidas e repetidas vezes. A rasa-lila não é uma coisa ordinária. Acabei de lhes dizer que um dos nomes da rasa-lila é kama-vijay lila: Krsna é Bhagavan, a Suprema Personalidade de Deus, e apenas Ele pode conquistar a luxúria. Todas as almas condicionadas, desde as formiguinhas até Brahma, todos ficam inebriados, tomados, pela luxúria; Krsna, contudo, é Bhagavan (Deus, pleno de todas as opulências). Ele possui 64 qualidades, das quais quatro são extraordinárias. São elas: rupa-madhurya, doçura de Sua beleza; lila-madhurya, doçuras dos Seus passatempos divinos; prema-madhurya, doçura do Seu amor divino e venu-madhurya, doçura do som de Sua flauta (venu-dhvani de Govinda).

Eu contei que quando Krsna toca a flauta isso faz com que o coração de todos fique completamente como? Enlevado e inebriado e então todos começam a dançar, todos. Até mesmo as águas da Yamuna dançam, yamuna nace. Ganga nace: as águas do Manasi Ganga também começam a bailar. Suka nace, sari nace. Todos os pássaros começam a dançar. O Venu-gita também relata isso, que quando Krsna toca a flauta, o coração de todos fica totalmente tomado, encantado e extasiado.
gāvaś ca kṛṣṇa-mukha-nirgata-veṇu-gīta
pīyūṣam uttabhita-karṇa-puṭaiḥ pibantyaḥ
śāvāḥ snuta-stana-payaḥ-kavalāḥ sma tasthur
govindam ātmani dṛśāśru-kalāḥ spṛśantyaḥ
As vacas erguem suas orelhas a fim de fazê-las de vasilhames e então elas bebem o néctar do som da flauta de Krsna, néctar que flui de Sua boca. Já os bezerros, com as bocas cheias de leite das tetas úmidas de suas mães, ficam estáticos enquanto trazem Govinda para dentro de si através dos seus olhos cheios de lágrimas e, assim, abraçam-nO dentro seus corações. (Srimad-Bhagavatam 10.21.13)
prāyo batāmba vihagā munayo vane ’smin

kṛṣṇekṣitaṁ tad-uditaṁ kala-veṇu-gītam
āruhya ye druma-bhujān rucira-pravālān
śṛṇvanti mīlita-dṛśo vigatānya-vācaḥ
Ó mãe, nesta floresta, todos os pássaros subiram aos belos galhos das árvores para poderem ver Krsna. De olhos fechados e em silêncio, eles estão simplesmente ouvindo as doces vibrações da Sua flauta. Nenhum outro som os atrai ou distrai. Certamente esses pássaros estão no mesmo patamar de grandes sábios. (Srimad-Bhagavatam, 10.21.14)

Em Vrndavana, todos os pássaros ficam totalmente inebriados, fascinados ao ouvir o doce som da flauta de Govinda. Quando as vacas de Vrndavana veem Krsna, elas ficam completamente atônitas e não conseguem se mover, ficam como estátuas. Sabe as estátuas? Sem conseguir se mover. Elas ficam de olhos abertos e as lágrimas rolam de seus olhos como se fossem pérolas caindo, uma a uma. Com metade da grama para dentro da boca e a outra metade para fora, elas estão apenas olhando a bela forma de Govinda. Suas orelhas estão completamente levantadas, porque assim elas bebem o doce néctar que emana da flauta (venu dhvani) de Govinda.
vṛndāvanaṁ sakhi bhuvo vitanoti kīṛtiṁ
yad devakī-suta-padāmbuja-labdha-lakṣmi
govinda-veṇum anu matta-mayūra-nṛtyaṁ
prekṣyādri-sānv-avaratānya-samasta-sattvam
“Ó amiga! Esta Sri Vrindavana, que é ainda maior que Vaikuntha, enaltece a fama do planeta Terra. Isso se deve a estar esplendidamente decorada com a riqueza das belas impressões deixadas pelos pés de lótus de Sri Krishna, o filho de Yashoda (Devakī). Quando Sri Krishna toca uma canção na flauta, os pavões ficam inebriados e começam uma dança acompanhando a melodia. Vendo e ouvido isso todos os pássaros, animais e outros seres móveis na colina de Govardhana ficam paralisados e silenciam, permanecendo sentados ou de pé sem se mover, esquecendo de todas suas atividades.” (Srimad-Bhagavatam, 10.21.10)

Na Vrndavana transcendental (aprakrta), uma gopi disse a sua amiga: “Ó sakhi, veja como essa Vrndavana é belíssima!”. Vṛndāvanaṁ sakhi bhuvo vitanoti kīṛtiṁ. Em cada parte de Vrndavana (morada espiritual suprema), tudo e todos glorificam nosso amado Govinda. A expressão devakī-suta5 se refere a Yasoda-nandana Krsna, pois:
dve namni nanda-bharyaya, yasoda devakiti ca,
atah sakhyam abhut tasya, devakya sauri-jayaya
A esposa de Nanda tem dois nomes: Yasoda e também Devaki. Portanto, foi natural que ela [a esposa de Nanda] desenvolvesse amizade por Devaki, a esposa de Sauri [Vasudeva]. (Brhad-Vishnu Purana citado no Sarartha darshini, comentário de Srila Visvanatha Cakravarti Thakura ao Srimad-Bhagavatam, 10.3.47-55)

Quando Krnsa é referido como sendo Devaki-nandana significa que Ele é Yasoda-nandana, filho de Yashoda. Em Vrndavana, o pavão e a pavoa descem do topo de Giriraja Govardhana e se aproximam bastante de Govinda. Ambos abrem suas caudas e começam a dançar. Essa é a natureza do darshan de Govinda. Se você tiver o darshan de Govinda, seu coração ficará automaticamente em júbilo.

Srila Bhaktivinoda Thakura cantou essa canção em bengali exaltando a bela forma de Govinda:
kibā cūḓā śire, kibā vaṁśī kare, kibā se tri-bhaṅga-ṭhāma
caraṇa-kamale, amiyā uchale, tāhāte nūpura-dāma
Ó, quão maravilhosa é a coroa de pena de pavão em Sua cabeça, a flauta em Suas mãos, o Seu corpo com belas curvas e os pés enfeitados com tornozeleiras de sininhos que derramam chuvas de néctar!
sadā āśā kôri’, bhṛṅga-rūpa dhôri’, caraṇa-kamale sthāna
anāyāse pāi, kṛṣṇa-guṇa gāi, āra nā bhajibô āna
Bhaktivinoda diz: “Sempre anseio tornar-me uma abelha para, assim, permanecer eternamente aos Seus pés de lótus. Desta maneira, poderei facilmente cantar as glórias de Krsna e não pedirei nada mais além disto”. (Srila Bhaktivinoda Thakura - Janama Saphala Tā’ra, 6 e 7)

Vṛndāvanaṁ sakhi bhuvo. Quando Krsna caminha pelas sendas de Vrndavana, as Suas pegadas ficam por toda a parte. Existem 19 símbolos ou marcas nos pés de lótus de Krishna, tais como a bandeira (dhvaja), cruz suástica, aguilhão de elefante (ankush) e raio (vajra). Os semideuses e semideusas liderados pelo Senhor Brahmaji vinham dos planetas celestiais para adorar os pés de lótus de Govinda oferecendo flores. [Ao ver Govinda,] o coração de todos fica totalmente em estado de júbilo e fascínio; o coração se derrete e , portanto, é um rolar constante de lágrimas.
dhanyāḥ sma mūḍha-gatayo ’pi hariṇya etā
yā nanda-nandanam upātta-vicitra-veśam
ākarṇya veṇu-raṇitaṁ saha-kṛṣṇa-sārāḥ
pūjāṁ dadhur viracitāṁ praṇayāvalokaiḥ
Ó sakhi (amiga), quando nosso amado Nanda-nandana Syamasundara Se veste de um jeito vistoso incomum, porém cativante e agradável e vibra doces sons em Sua flauta, até mesmo os tolos veados, os quais nasceram como animais tão ignorantes, ao ouvirem o venu-nada (som da flauta), vão correndo até Ele junto de seus maridos (os veados krsna-sara) e fitam-nO com seus olhos grandes e cheios de amor. Eles não estão apenas olhando para Krsna, sakhi! Eles O estão adorando com os olhares de soslaio de seus grandes olhos de lótus. Sri Krsna recebe bem a adoração deles, correspondendo-lhes com olhares amorosos de canto de olho e as corças, por sua vez, aceitam a reciprocidade dEle. De verdade, as vidas desses veados são abençoadas. Sakhi, como é irônico que apesar de sermos gopis de Vrndavana, nós não somos capazes de nos oferecer assim livremente para Krsna, porque a nossa família nos atormenta! (Srimad-Bhagavatam, 10.21.11)

Então Sukadeva Gosvami pada falou: “Ó Maharaja Pariksit, veja comosão as coisas lá!” Os veados tanto macho quanto fêmea correm na direção de Krsna. Eles correm, correm e chegam bem perto dEle. Que maravilha é o darshan (visão direta) de Govinda! Eles são animais (pashu-jati); não falam. Mas eles correspondem o amor e afeição que eles sentem através do olhar, com os seus olhos. Eles apenas se sentam bem próximo a Govinda e Krsna acaricia as suas costas, dando tapinhas gentis. E é só sentir o toque da mão de lótus de Govinda que o coração deles se derrete e lágrimas ficam caindo de seus olhos. Como é o amor e afeição que eles têm por Govinda! Ao verem Govinda, eles correspondem seus sentimentos (bhava) com os seus olhares.

Eu falei que Krsna possui quatro qualidades extraordinárias: rupa-madhurya, lila-madhurya, prema-madhurya e venu-madhurya. Nenhuma outra encarnação possui essas qualidades, nem mesmo Ramachandra, Nrsimha, Varaha, Kalki. Isso não é possível para elas, apenas para Vrajendra-nandana Syamasundara, o filho de Nanda Maharaja e de Mãe Yasoda.
jay rādhe govinda, jay rādhe govinda
jay jay śyāmasundara, madana-mohana, vṛndāvana-candra jay jay
rādhā-ramaṇa, rāsa-bihārī, śrī gokulānanda
Todas as glórias a Rādhā e Kṛṣṇa, o qual dá prazer às vacas, gopas (meninos vaqueiros), gopīs (meninas vaqueiras) e aos sentidos de todas as entidades vivas. Todas as glórias a Kṛṣna, que possui bela tez escura, que encanta o Cupido e que é a lua de Vṛndāvana. Todas as glórias a Ele que Se diverte com Rādhā, que saboreia a rāsa-līlā e que é a alegria da terra de Gokula.

Na rasa-lila, Krsna é chamado de Madana-mohana e Srimati Radhika é chamada de Madana-mohana-mohini. Krsna encanta o Madana, a deidade que preside a luxúria (Cupido), e Srimati Radhika encanta o coração de Krsna que é, por sua vez, Madana-mohana (encantador do Cupido). Por issoEla é, então, Madana-mohana-mohini (encantadora daquele que encanta o Cupido). Srimati Radhika possui muitos nomes, tais como Kunjesvari, ou seja, Ela é a suprema controladora dos kunjas (bosques). Especialmente no Radha-kunda, há muitos kunjas (bosques) e existem oito kunjas das oito principais sakhis (Lalita kunja, Visakha kunja, Indulekha kunja etc). Há diferentes kunjas de diferentes sakhis, mas Srimati Radhika é a controladora suprema de todos os kunjas, portanto Ela é chamada de Kunjesvari. Srimati Radhika também é a controladora suprema da rasa, por isso o nome dEla é Rasa-rasesvari. Dentre as quatro qualidades extraordinárias de Govinda, uma é muito especial: venu-madhurya, a doçura do som de sua flauta (govinda venu dhvani).
kā stry aṅga te kala-padāyata-veṇu-gīta-
sammohitārya-caritān na calet tri-lokyām
trailokya-saubhagam idaṁ ca nirīkṣya rūpaṁ
yad go-dvija-druma-mṛgāḥ pulakāny abibhran
Querido Krsna, que mulher em todos os três mundos não se desviaria do seu comportamento religioso quando confundida pela doce melodia que sai de Sua flauta? Sua beleza traz bons auspícios para todos os três mundos. De fato, até mesmo as vacas, pássaros e veados manifestam o sintoma de êxtase de arrepio dos pelos quando veem Sua bela forma. (Srimad-Bhagavatam 10.29.40)

Srila Sukadeva Gosvamipada falou que não apenas as gopis ficavam inebriadas e encantadas pela beleza e pelas qualidades de Krsna, go, dvija e druma também. Go se refere às vacas de Vrndavana e dvija são os pássaros de Vrndavana.
prāyo batāmba vihagā munayo vane ’smin

kṛṣṇekṣitaṁ tad-uditaṁ kala-veṇu-gītam
āruhya ye druma-bhujān rucira-pravālān
śṛṇvanti mīlita-dṛśo vigatānya-vācaḥ
Ó minha mãe! As vacas e bezerros são da nossa família. Mas veja os pássaros de Vrndavana. É certamente um erro chamá-los de pássaros. Na verdade, a maioria deles são exaltados sábios auto-satisfeitos e ascetas (rsis e munis atmarama). Eles se sentam quietos nas belas árvores verdejantes de Vrndavana, pousados nos galhos com belos brotos de flor a desabrochar. Fitando a elegância da bela forma de Krsna continuamente com seus olhos (sem nem mesmo piscar), eles recebem as amorosas olhadas de canto de olho de Krsna e assim ficam exultantes. Ignorando todos os outros sons, eles ouvem a voz cativante de Krsna e a música de Sua flauta, a qual encanta os três mundos. Minha querida sakhi (amiga), como a vida deles é abençoada! Ai de mim! Como somos desafortunadas. Nosso nascimento foi em vão; nosso olhos, inúteis. Onde jaz nossa fortuna para podermos ver a bela forma de Krsna e ouvir a Sua doce venu-gita? Devido a milhões de obstáculos, isso parece completamente impossível. (Srimad-Bhagavatam 10.21.14)

Em Vrndavana, todos os pássaros ficam completamente inebriados e fascinados pela beleza de Govinda e pelo som de Sua flauta (venu dhvani de Govinda). Na expressão go-dvija-druma, druma são as árvores de Vrndavana. Como as árvores de Vrndavana têm amor e afeição por Govinda! Porque quando se ama, automaticamente, surge a tendência de servir. É prema-mayi seva (serviço totalmente imbuído de amor divino), entende? Caso você ame alguém, o que você irá fazer? Você vai buscar formas de servir a ele ou ela. Vai buscar maneiras de dar prazer a pessoa amada. Vai tratar de fazer com que ele ou ela fique satisfeito(a) com você. Essa é a natureza. Até mesmo neste mundo material, se você ama alguém, virá a tendência de servir essa pessoa e de buscar fazer com que a pessoa se satisfaça com você. Automaticamente virá essa seva-vrtti (tendência deservir).

Portanto, da mesma forma, as árvores de Vrndavana possuem tanto amor e afeição por Krsna! Vou lhes falar apenas algumas poucas palavras sobre isso. Quando Krsna entra em Vrndavana, as árvores dali automaticamente dão as boas-vindas a Krsna com flores, da mesma forma que quando um guru fidedigno vai à casa de um discípulo fidedigno, este dá as boas-vindas a seu Gurudeva com flores, oferecendo flores.
svagatam, svagatam, svagatam, svagatam,
mama mana mandire svagatam, svagatam,
mama mana mandire, svagatam, svagatam
Bem-vindo ao templo da minha mente! Seja bem-vindo! Bem-vindo (svagatam)!

Da mesma forma, quando Krsna ingressa em Vrndavana, todas as árvores O recepcionam com flores de boas-vindas e, então, Vrndavana fica completamente encoberta com pétalas de flores. As árvores estão pensando: “Os pés de nosso amado Krsna são muito tenros e macios, tal como o lótus (komal charan), logo como Krsna vai conseguir andar nas sendas de Vrndavana?”. Consequentemente, elas fazem um carpete bem macio e muito lindo com as pétalas das flores para servir a Govinda (govinda-seva). Assim, elas recepcionam a Krsna com flores de boas-vindas. “Svagatam, svagatam, bem-vindo! Ó Govinda, por favor entre em Vrndavana!”

E então os galhos das árvores espalham-se automaticamente sobre a cabeça de Govinda e, assim, as árvores fazem um belo e excelente guarda-sol sobre a cabeça de Krsna. É um guarda-sol colorido muito lindo. Tem as cores vermelha, amarela e diferentes cores provenientes das diferentes flores nos galhos das árvores. Isso porque no cit-jagat, mundo transcendental, tudo é consciente, todos e tudo são seres conscientes (cetana mayi jagat). Lá todos são seres conscientes e todos possuem amor e afeição por Krsna.

Eu sempre enfatizo um ponto: o que significa o amor? Significa servir e buscar dar prazer a quem você ama. Amor é isso e não outra coisa. “Como minha istadeva, Deidade adorável, vai ficar feliz?” Buscar isso e não outras coisas. Eles não têm nenhum outro desejo. O único desejo deles é o de fazer Krsna feliz.

Portanto, as árvores de Vrndavana estão oferecendo flores a Krsna, dando-Lhe as boas-vindas. O coração delas está em júbilo e elas inclusive começam a dançar. As trepadeiras começam a dançar porque Krsna veio até à casa delas! E os corações delas se derretem e, por isso, lágrimas ficam caindo. Água pinga dos galhos das árvores; elas choram porque elas estão tendo o darshan (visão direta) de Govinda então o coração delas se derrete e elas choram. Depois de uma longa separação, agora elas estão se encontrando com seu amado Govinda.

Apenas para dar um exemplo: neste mundo material, se, depois de muito tempo separado, você se reencontrar com um amigo muito próximo, o seu coração vai se derreter e lágrimas vão cair de seus olhos. Esse é o ponto. Um poeta (kavi) vaishnava explana assim:
ki kahava re sakhé ananda ora
ciradéna madhava mandire mora
päpa sudhakar vada dukha dila
piya mukha darasane tata sukh bhela
sitera odhani piya girisera ba
varisara chatra piya dariyara na
ancala bhariya yadi manik pai
tavu hama piya düra dese na pathai
bhanaye vidyäpati suna bara nari
sujanaka dukha déna dui cari
Ó sakhi (amiga), o que devo te contar sobre essa ananda? Todos os dias Madhava está no templo do meu coração. Sinto tanta bem-aventurança ao ter o darsan (visão direta) do meu amado! Meu amado é como um cobertor quando está frio. Meu amado é como um barco no meio do oceano. Na estação das chuvas, meu amado é como um guarda-chuva. Mesmo em troca de muitas joias, eu nunca enviaria meu amado para longe. Vidyapati diz: “Ó grandiosa mulher casta, ouça meu conselho. Na vida de uma pessoa boa, o sofrimento veio por dois ou quatro dias”.

“Se alguém me oferecer muitas riqueza, joias e pérolas e me disser: ‘Ó Radhe, em troca apenas mande o Seu amado para ficar na minha casa uns dois dias’. Eu digo: ‘Não! Depois de uma longa separação, agora Eu estou me encontrando com Meu amado Govinda.’”

“Meu amado Govinda é como um cobertor no inverno.” O que você quer no inverno? Casacos e cobertores bem quentes. Se você for à Inglaterra ou a Washington (EUA), então você vai entender. Especialmente no inverno, nessa época agora, lá neva. Não entendemos, porque estamos aqui, onde faz muito calor; precisamos até de ar-condicionado. Se você for à Inglaterra, Washington, Nova Iorque ou Chicago, contudo, encontrará uma atmosfera muito fria e estará nevando . Numa situação dessas, o que você quer? Roupas que aqueçam. Para dar um exemplo: Se você tiver apenas um cobertor quentinho e estiver todo enrolado nele e se eu lhe peço: “Por favor, dê-me o seu cobertor, pois estou com frio”, você dirá: “Não, não, não vou poder dar”. Isso por quê? Porque você está completamente enrolado, envolto e enlaçado no cobertor; seu corpo está tremendo. Da mesma forma, Srimati Radhika disse: “Depois de uma longa separação, estou Me encontrando com Meu amado Govinda e Eu O abraço forte; estou abraçando-O bem forte. Não posso deixá-lO sair do Meu coração!”.

E no verão, o que você deseja? Um vento, uma brisa bem doce e refrescante. E meu amado Govinda para mim é como esse vento no verão. E na época das chuvas? Chove muito. Nessa hora, do que você gosta? Do guarda-chuva. Se eu disser: “Dê-me sua sombrinha”, você dirá: “Não!”. Da mesma forma, meu amado Govinda também é assim para mim.

Similarmente, em Vrndavana, como as árvores têm amor e afeição por Govinda! Elas ficam muito felizes porque Govinda está vindo e então os corações delas se derretem e elas vertem lágrimas. Elas abraçam a Krsna com suas compridas mãos. Quais são as mãos compridas das árvores? São seus longos galhos. Quando Krsna vem para Vrndavana, as árvores de Vrndavana abraçam Krsna com sua mãos compridas, seus galhos. “Ah! Depois de longa separação, Meu Govinda chegou!”
Se, depois de muito tempo, você se reencontra com seus amigos, você os abraça e verte lágrimas. Do mesmo jeito ocorre em Vrndavana. E as árvores também oferecem flores e frutas a Govinda e as folhas de Vrndavana automaticamente começam a se movimentar, abanando Krsna. “Ó! Govinda veio!” E assim, as folhas abanam Krsna automaticamente. As trepadeiras começam a dançar como camara dhulaya re_, porque Govinda veio. Como é o amor e afeição delas por Ele!

As árvores dão suas flores e frutas a Govinda, uma vez que, em Vrndavana, a vida é perfeita, inclusive a vida em família lá é perfeita. As árvores são como os maridos; as trepadeiras, as esposas; as flores, as filhas e os frutos, os filhos. Portanto, marido, mulher, filhos e filhas; todos servindo a Govinda. Vida em família significa isso. Você deve tornar o seu seio doméstico perfeito, tendo, portanto, uma vida em família superexcelente e isso se concretiza através de serviço (seva) a Govinda. No entanto, se você está indo em uma direção, a sua esposa em outra direção; o
seu filho, em outra e a filha, em outra; essa vida familiar é estúpida, tola e absurda.

Vida familiar perfeita é quando esposa, marido, filhos e filhas são todos unidirecionados (focados) no serviço a guru e Krsna (govinda-seva). Uma vida em família assim denota uma vida em família perfeita e superexcelente. Bolo Vrndavana bihari lal ki jay! Govinda seva. Por que estou falando isso? Porque como as árvores de Vrndavana estão lindas na ocasião da rasa-lila! Srila Bhaktivinoda Thakura está dizendo isso [nas canções Yamuna Puline do livro Kalyana Kalpataru (1880) e Dekhite, dekhite do livro Gita-mala (1893)]:

kṛṣṇa-līlā heri’, prakṛti sundarī, bistāriche śobhā vane
Ao ver os passatempos de Krsna, a bela energia espiritual expande o esplendor da floresta de Vrndavana.
ghare nā ĵāibô, vane praveśibô, o līlā-rasera tare
tyaji’ kula-lāja, bhajô vraja-rāja, vinoda minati kare
A fim de saborear o néctar de tais passatempos, não irei para casa, mas sim entrarei na floresta. Abandonando toda a timidez devido ao medo da família e sociedade, apenas adore o rei de Vraja. Esse é o humilde pedido de Bhaktivinoda.
yamunā-puline, kadamba-kānane, ki herinu sakhī! āja
śyāma vaṁśīdhārī, maṇi-mañcopari, kare līlā rasarāja
Ó sakhi! Ouça o que vi hoje! Em um bosque de kadamba às margens do Yamuna, estava um lindo menino negro segurando uma longa flauta, sentado num trono de joias, realizando Seus passatempos como rasa-raja, o rei de todas as doçuras transcendentais.
yāmuna-salila, āharaṇe giyā, bujhibô ĵugala-rasa
prema-mugdha ha’ye, pāgalinī-prāya, gāibô rādhāra ĵaśa
Quando eu for pegar água da Yamuna, hei de entender as doçuras confidenciais do
relacionamento amoroso do Casal Divino. Tomada por prema, hei de cantar as glórias de Sri Radha como uma mulher louca.

Srila Bhaktivinoda Thakura diz: “eu vou para Vrndavana, pegar água da Yamuna e então eu vejo como é essa lila, a rasa-lila de Radha, Govinda e as gopis”. Rasa significa o quê? Rasate asvadate iti rasa. “Rasa é aquilo que é em si saboreável e que também é objeto para outros saborearem.” Saborear, aproveitar diferentes doçuras (rasa). Muitos tipos de lilas estão incluídas na rasa-lila, como por exemplo: jala-vihara (brincar na água da Yamuna); vana-bhojana (piquenique); madhupan (beber o mel) e jhulana-lila ou hindola-lila (passatempos no balanço). Muitos outros passatempos (lilas) estão acontecendo lá. Bela Vrndavana! Rasa-lila inclui muitas lilas. O que irei falar para vocês?

Por que estou contando isso? Na rasa-lila, todas as gopis estavam tão assoberbadas pela sua própria sorte, saubhagya-mud. Srimati Radhika notou que Krsna estava dançando com outras gopis e então Ela ficou em maan. Maan é a raiva transcendental e não material. Como é a raiva material? Ela puxa você para baixo, leva-o para o inferno, Naraka, porque é uma ofensa. O que surgiu em Srimati Radhika, no entanto, foi a raiva transcendental (maan) e Ela estava pensando: “Krsna é uma grande vigarista. Ele diz: ‘Srimati Radhika, Você é Meu coração e alma!
na pāraye ’haṁ niravadya-saṁyujāṁ
sva-sādhu-kṛtyaṁ vibudhāyuṣāpi vaḥ
yā mābhajan durjara-geha-śṛṅkhalāḥ
saṁvṛścya tad vaḥ pratiyātu sādhunā
Eu não sou capaz de pagar Minha dívida pelo Seu serviço impecável nem mesmo dentro do tempo de uma vida de Brahma. Sua ligação coMigo está além da censura. Você Me adorou cortando todos os laços familiares, os quais são muito difíceis de serem rompidos. Portanto, por favor, deixe que os Seus próprios atos gloriosos sejam Sua recompensa. (Srimad-Bhagavatam 10.32.22)

Ó Srimati Radhike, Eu não posso quitar Minhas dívidas com Você, porque Você abandonou tudo por Mim. Você abandonou Sua timidez, abandonou as regras e restrições da sociedade, abandonou tudo por Mim. Logo, não posso recompensá-lA pelo Seu amor divino. Estou completamente como? Endividado com Você pelo Seu amor’. Mas, agora, o que Krsna está fazendo?! Antar kaalaa bahar kaalaa — Ele é preto por dentro e por fora”.

Esse pensamento exemplifica a maan, que é algo muito difícil de ser entendido. Surgiu uma raiva transcendental em Srimati Radhika então ela ficou com maan. Tente entender que apenas Srimati Radhika ficou com maan. As outras gopis estavam muito assoberbadas pela saubhagya-mud (fortuna) delas. Portanto, Srila Sukadeva Gosvamipada explica:
tāsāṁ tat-saubhaga-madaṁ
vīkṣya mānaṁ ca keśavaḥ
praśamāya prasādāya
tatraivāntaradhīyata
O Senhor Kesava, ao ver que as gopis estavam com muito orgulho da boa sorte que tinham, quis remover esse orgulho delas e mostrar-lhes mais misericórdia. Sendo assim, Ele imediatamente desapareceu. (Srimad-Bhagavatam 10.29.48)

Krsna estava pensando: “Aho! Minha gopi mais querida e próxima a Mim, Srimati Radhika, está brava coMigo. Mas como apaziguar a maan dEla? Se Eu não acalmar a maan dEla, Ela não dançará na rasa” — Srimati Radhika havia parado de dançar com Krsna — “Sem Srimati Radhika como vai poder acontecer a rasa?”.

Por outro lado, Krsna percebeu que todas as outras gopis estavam
muito orgulhosas da boa fortuna que tinham e Ele estava pensando: “Devo destruir o orgulho da sorte (saubhagya-mud) que elas têm”. Então por isso aqui Srila Sukadeva Gosvamipada diz: “praśamāya prasādāya tatraivāntaradhīyata — Kesava, Govinda, desapareceu da dança da rasa e levou com Ele Srimati Radhika”. Bolo Vrndavana bihari lal ki joy — Todas as glórias a Krsna, que desfruta dos passatempos em Vrndavana!

Quando Krsna desapareceu da dança da rasa, o que aconteceu com a rasa? Parou completamente. E todas as gopis estavam procurando: “onde está meu amado Govinda? Onde está Krsna?”. Srila Jayadeva Gosvamipada discute muito bem e elaboradamente sobre a basantika-rasa-lila, a rasa-lila da primavera (basantika) em seu livro Gita-govinda. Já Sukadeva Gosvami, no Srimad-Bhagavatam, descreve a saradiya-rasa, ou seja, ele fala sobre a rasa-lila do outono.

Apenas vou falar-lhes algumas palavras. Na saradiya rasa-lila, a rasa-lila do outono, muitos tipos de gopis se reuniram, tais como: svapaksa, vipaksa, tatastha paksa, suhrda paksa, sruticari, municari, yauthiki e ayauthiki. Essa saradiya-rasa também se chama panchaiaty rasa e ocorreu em Vrndavana, às margens da Yamuna. A basantika-rasa, dança da rasa da primavera, ocorreu no colo de Giriraja Govardhana, no Chandra-sarovara. Nessa ocasião, apenas as gopis svapaksa e vipaksa se reuniram nessa dança, isto é, apenas o grupo de Srimati Radhika e o de Chandravali.

Quando Krsna desapareceu da dança da rasa, todas as gopis começaram a sofrer com a separação que sentiam de Krsna. Na verdade, Krsna havia pegado Srimati Radhika e vindo com Ela a um local muito confidencial chamado Srngara-vata, que fica em Vrndavana às margens da Yamuna.

Apesar de Krsna ser Bhagavan, a Suprema Personalidade de Deus, agora Ele está fazendo essa lila de ser um tipo de herói chamado dhira-lalita-nayaka, que tem, portanto, quatro qualificações, dentre elas ser preyasi vasibhuta [i longo, s com acento em cima, i longo e u longo]: ser completamente controlado pela Sua consorte.

Sendo assim, Srimati Radhika Lhe disse: “Govinda, faça isso, faça aquilo… Decore Meu cabelo com flores”. No Srngara-vata, Krsna decorou Srimati Radhika seguindo as instruções dEla; essa é a história que aconteceu lá (srngara-vata-katha). Por outro lado, todas as outras gopis estavam sofrendo muito pela separação que sentiam de Krsna. Especialmente o grupo de Chandravali sentia tanto a dor da saudade transcendental (separação) de Krsna e procuravam-nO — “Onde está Krsna?!”. Quando elas chegaram ao Srngara-vat, viram as pequenas pegadas dos pés de Krsna acompanhadas pelas pegadas de uma moça. Nessa hora, Chandravali disse:
anayārādhito nūnaṁ
bhagavān harir īśvaraḥ
yan no vihāya govindaḥ
prīto yām anayad rahaḥ
Certamente essa gopi em particular adorou perfeitamente a Personalidade de Deus todo-poderosa, Govinda, uma vez que, por estar tão satisfeito com Ela, Ele abandonou todas nós e veio com Ela para um lugar isolado. (Srimad-Bhagavatam 10.30.28)

“Aho! A dona dessas pegadas deve ser muito afortunada, porque agora ela está com Govinda!” Bhagavan Sri Hari é adorado por Srimati Radhika. Anayārādhito, aradhito anayārādhito krsno aradhito radha, krsnena aradhito iti radha. Isso significa que Srimati Radhika é adorada por Krsna.
Nesse verso, encontramos radha-nama (o nome de Srimati Radhika).

Portanto Krsna está agora no Srngara-vat e Srimati Radhika Lhe disse: “Ó Govinda, decore meu cabelo com as flores”, e assim Krsna fez. Aí Krsna viu que que as outras gopis estavam prestes a chegar ali e Ele pensou: “O que vou fazer agora? Preciso ir embora daqui”. Srimati Radhika, por Sua vez, estava pensando: “Minhas amigas, as gopis, também se sacrificam pelo Meu serviço, mas agora Eu estou aproveitando a companhia do Meu amado Govinda e Minhas sakhis (amigas) estão sofrendo e sentindo separação de Krsna. Elas têm que se encontrar com Govinda!”.

Krsna estava pensando: “Se todas as gopis aparecerem aqui, inclusive o grupo de Chandravali, e verem que Eu estou aqui Me encontrando com Srimati Radhika, elas vão ficar muito bravas. Como vou conseguir acalmá-las depois?”. Por isso, Krsna disse: “Ó Srimati Radhike, temos que ir embora daqui”. Srimati Radhika fez de conta, fingindo: “Ó Madhava, ó Govinda, ó Kesava, na calitum, Eu não consigo andar”.
tato gatvā vanoddeśaṁ
dṛptā keśavam abravīt
na pāraye ’haṁ calituṁ
naya māṁ yatra te manaḥ
Enquanto os dois amantes passavam por uma parte da floresta de Vrndavana, aquela gopi especial começou a ficar orgulhosa de Si mesma. Ela disse a Kesava: “Eu não consigo andar mais. Por favor Me carregue para onde quer que Você queira ir.” (Srimad-Bhagavatam 10.30.37)

Então Krsna disse: “Se Você não consegue andar, então suba nos Meus ombros que carregá-lA-ei”. Quem ama faz de tudo pelo amado; essa é a natureza de quem se ama. Você faz tudo que ele ou ela pedirem. Então por isso Krsna é dhira-lalita-nayaka, preyasi vasibhuta, é controlado completamente pela Sua consorte. Sendo assim, quando Srimati Radhika disse “não posso mais ir, não posso mais andar”, então Krsna disse: “Certo, Você pode subir nos Meus ombros, posso carregá-lA”.

Ao ouvir sobre isso, a concepção material surgirá em vocês, porque vocês possuem experiência material. A namorada diz ao namorado: “Não consigo andar” e então o namorado a carrega. Contudo, não pensem nessas coisas, nesse tipo de concepção, visto que estou falando do quê? Do mundo completamente transcendental e do amor divino totalmente transcendental que existe lá. Por que essas coisas também existem no mundo material? Porque aqui é o reflexo pervertido de Goloka Vrndavana. Neste mundo material, todavia, o que encontramos é a luxúria.
ātmendriya-prīti-vāñchā — tāre bali ‘kāma’
kṛṣṇendriya-prīti-icchā dhare ‘prema’ nāma
O desejo de satisfazer os próprios sentidos é kāma (luxúria), mas o desejo de satisfazer os sentidos do Senhor Krsna é prema (amor). (Chaitanya Charitamrta, Adi-lila, 4.165)

Todas as atividades das gopis e de Krsna no mundo transcendental expressam o amor divino, aprakrta prema, mas parecem ser como atividades deste mundo, parecem iguais. Quando eu falo sobre esses assuntos, você automaticamente pensa em como você carrega sua namorada nos ombros. Vocês veem muitas fotos aqui que mostram um homem ou rapaz carregando a namorada nos ombros. Quando eu falo essa katha (história), essa imagem vem automaticamente ou não? Mas no mundo transcendental, o que há lá é o amor divino transcendental. Portanto, tente concentrar sua mente no mundo transcendental. Vocês não estão aqui. Onde vocês estão agora? Em Vrndavana! Venham para Vrndavana. Pode ser que seu corpo esteja aqui; sua mente, contudo, deve vir para Vrndavana, ao Srngara-vat às margens do Yamuna, um lugar tão lindo e maravilhoso!

Krsna apenas curvou Seu pescoço e Srimati Radhika tentou Se sentar no ombro dEle. E, então, Krsna desapareceu, tatraivāntaradhīyata.
evam uktaḥ priyām āha
skandha āruhyatām iti
tataś cāntardadhe kṛṣṇaḥ
sā vadhūr anvatapyata
Krsna replicou, portanto, dizendo: “Apenas suba no Meu ombro”. Mas, assim que Ele disse isso, Ele desapareceu. A Sua amada consorte então imediatamente sentiu um grande remorso. (Srimad-Bhagavatam 10.30.38)

Krsna desapareceu e Srimati Radhika caiu no chão. Ela, agonizando, começou a sofrer muito pela separação que sentia de Krsna. “Ha Krsna, Krsna, mahabaho (Você que tem braços poderosos)! He Krsna, he mahabaho, onde Você está? Kvāsi kvāsi, ó Krsna, onde está Você? Dāsyās te, sou Sua serva, por favor, venha!” Assim, Srimati Radhika sofria com a separação de Krsna e chorava, debulhava-se em lágrimas.

Nesse ínterim, Chandravali e seu grupo de sakhis (amigas) chegaram ao local e viram os humores extáticos de Srimati Radhika. Automaticamente, sentiram muita compaixão por Ela em seus corações e tentaram, portanto, acalmá-lA.

Depois, todas as sakhis foram às margens do Yamuna e glorificaram Krsna e Seus doces passatempos, esse é o Gopi-gita, a canção das gopis. Com uma doce melodia, com um humor de separação, elas glorificaram a Krsna, Govinda; isso é o Gopi-gita. Srila Sukadeva Gosvamipada exalta muito bem essa lila de Krsna, o Gopi-gita:
gopya ūcuḥ
jayati te ’dhikaṁ janmanā vrajaḥ
śrayata indirā śaśvad atra hi
dayita dṛśyatāṁ dikṣu tāvakās
tvayi dhṛtāsavas tvāṁ vicinvate
As gopis disseram: Ó amado, Teu nascimento na terra de Vraja tornou-a por demais gloriosa e, por isso, Indira, a deusa da fortuna, sempre reside aqui. É apenas por tua causa que nós, Tuas servas devotadas, mantemos nossas vidas. Estivemos procurando por Ti em toda a parte, então, por favor, revela-Te a nós. (Srimad-Bhagavatam 10.31.1)
śarad-udāśaye sādhu-jāta-sat-
sarasijodara-śrī-muṣā dṛśā
surata-nātha te ’śulka-dāsikā
vara-da nighnato neha kiṁ vadhaḥ
Ó Senhor do amor, em beleza Teu olhar excede o verticilo do mais fino e perfeito lótus desabrochado num lago durante o outono. Ó outorgador de bênçãos, estás matando as servas que se entregaram a Ti de livre e espontânea vontade, sem nenhum pagamento. Isso não é assassinato? (Srimad-Bhagavatam 10.31.2)
viṣa-jalāpyayād vyāla-rākṣasād
varṣa-mārutād vaidyutānalāt
vṛṣa-mayātmajād viśvato bhayād
ṛṣabha te vayaṁ rakṣitā muhuḥ
Ó maior das personalidades, salvaste-nos repetidas vezes de todas as espécies de perigo, tais como a água envenenada, o terrível canibal Agha, as fortes chuvas, o demônio-vento, o causticante raio de Indra, o demônio-touro e o filho de Maya Danava. (Srimad-Bhagavatam 10.31.3)
na khalu gopīkā-nandano bhavān
akhila-dehinām antarātma-dṛk
vikhanasārthito viśva-guptaye
sakha udeyivān sātvatāṁ kule
Não és de fato o filho da gopi Yasoda, ó amigo, mas sim a testemunha imanente nos corações de todas as almas corporificadas. Porque o Senhor Brahma suplicou para que viesse proteger o Universo, agora apareceste na dinastia Satvata. (Srimad-Bhagavatam 10.31.4)
viracitābhayaṁ vṛṣṇi-dhūrya te
caraṇam īyuṣāṁ saṁsṛter bhayāt
kara-saroruhaṁ kānta kāma-daṁ
śirasi dhehi naḥ śrī-kara-graham
Ó melhor dos Vrsnis, Tua mão de lótus, que segura a mão da deusa da fortuna, concede destemor àqueles que se aproximam de Teus pés por medo da existência material. Ó amante, por favor, coloca sobre nossas cabeças essa mão de lótus que satisfaz todos os desejos. (Srimad-Bhagavatam 10.31.5)
vraja-janārti-han vīra yoṣitāṁ
nija-jana-smaya-dhvaṁsana-smita
bhaja sakhe bhavat-kiṅkarīḥ sma no
jalaruhānanaṁ cāru darśaya
Ó Tu que destróis o sofrimento do povo de Vraja, ó herói de todas as mulheres, Teu sorriso despedaça o falso orgulho de Teus devotos. Por favor, caro amigo, aceita-nos como Tuas servas e mostra-nos Teu belo rosto de lótus.(Srimad-Bhagavatam 10.31.6)
praṇata-dehināṁ pāpa-karṣaṇaṁ
tṛṇa-carānugaṁ śrī-niketanam
phaṇi-phaṇārpitaṁ te padāmbujaṁ
kṛṇu kuceṣu naḥ kṛndhi hṛc-chayam
Teus pés de lótus destroem os pecados passados de todas as almas corporificadas que se rendem a eles. Esses pés seguem as vacas nos pastos e são a morada eterna da deusa da fortuna. Já que certa vez puseste esses pés nos capelos da grande serpente Kaliya, por favor, coloca-os sobre nossos seios e arranca a luxúria de nossos corações. (Srimad-Bhagavatam 10.31.7)
madhurayā girā valgu-vākyayā
budha-manojñayā puṣkarekṣaṇa
vidhi-karīr imā vīra muhyatīr
adhara-sīdhunāpyāyayasva naḥ
Ó pessoa de olhos de lótus, Tua doce voz e palavras encantadoras, que atraem a mente dos inteligentes, estão a nos confundir mais e mais. Nosso querido herói, por favor, revive Tuas servas com o néctar dos Teus lábios. (Srimad-Bhagavatam 10.31.8)
tava kathāmṛtaṁ tapta-jīvanaṁ
kavibhir īḍitaṁ kalmaṣāpaham
śravaṇa-maṅgalaṁ śrīmad ātataṁ
bhuvi gṛṇanti ye bhūri-dā janāḥ
O néctar de Tuas palavras e as descrições de Tuas atividades são a vida e alma daqueles que sofrem neste mundo material. Estas narrações, transmitidas por sábios eruditos, erradicam as reações pecaminosas e concedem boa fortuna a quem quer que as ouça. Estas narrações difundem-se por todo o mundo e são cheias de poder espiritual. Aqueles que propagam a mensagem de Deus decerto são as pessoas mais munificentes. (Srimad-Bhagavatam 10.31.9)
prahasitaṁ priya-prema-vīkṣaṇaṁ
viharaṇaṁ ca te dhyāna-maṅgalam
rahasi saṁvido yā hṛdi spṛśaḥ
kuhaka no manaḥ kṣobhayanti hi
Teus sorrisos, Teus doces olhares amorosos, os passatempos íntimos e conversas confidenciais que desfrutamos contigo — tudo isso é auspicioso para a meditação e toca-nos os corações. Mas ao mesmo tempo, ó enganador, estas coisas agitam muito
nossas mentes. (Srimad-Bhagavatam 10.31.10)
calasi yad vrajāc cārayan paśūn
nalina-sundaraṁ nātha te padam
śila-tṛṇāṅkuraiḥ sīdatīti naḥ
kalilatāṁ manaḥ kānta gacchati
Querido senhor, caro amante, quando deixas a aldeia dos vaqueiros para apascentar as vacas, nossas mentes se perturbam com a ideia de que Teus pés, mais belos que um lótus, serão espetados pelas pontiagudas cascas de cereais e pela grama e plantas ásperas. (Srimad-Bhagavatam 10.31.11)
dina-parikṣaye nīla-kuntalair
vanaruhānanaṁ bibhrad āvṛtam
ghana-rajasvalaṁ darśayan muhur
manasi naḥ smaraṁ vīra yacchasi
No fim do dia Tu, repetidas vezes, mostra-nos Teu rosto de lótus, coberto de cachos de cabelo azul-escuro e todo empoeirado. Dessa maneira, ó herói, despertas desejos luxuriosos em nossas mentes. (Srimad-Bhagavatam 10.31.12)
praṇata-kāma-daṁ padmajārcitaṁ
dharaṇi-maṇḍanaṁ dhyeyam āpadi
caraṇa-paṅkajaṁ śantamaṁ ca te
ramaṇa naḥ staneṣv arpayādhi-han
Teus pés de lótus, que são adorados pelo Senhor Brahma, satisfazem os desejos de todos os que se prostram diante deles. Eles são o ornamento da Terra e, em tempo de perigo, são o objeto adequado de meditação. Ó destruidor da ansiedade, por favor, coloca esses pés de lótus sobre nossos seios. (Srimad-Bhagavatam 10.31.13)
surata-vardhanaṁ śoka-nāśanaṁ
svarita-veṇunā suṣṭhu cumbitam
itara-rāga-vismāraṇaṁ nṛṇāṁ
vitara vīra nas te ’dharāmṛtam
Ó herói, tem a bondade de distribuir para nós o néctar de Teus lábios, que realça o prazer conjugal e subjuga o pesar. Este néctar é todo saboreado por Tua flauta ressonante e faz as pessoas esquecerem qualquer outro apego. (Srimad-Bhagavatam 10.31.14)
aṭati yad bhavān ahni kānanaṁ
truṭi yugāyate tvām apaśyatām
kuṭila-kuntalaṁ śrī-mukhaṁ ca te
jaḍa udīkṣatāṁ pakṣma-kṛd dṛśām
Quando partes para a floresta durante o dia, uma minúscula fração de segundo torna-se como um milênio para nós, pois não Te podemos ver. E até mesmo quando podemos olhar avidamente para Teu belo rosto, tão encantador com seu adorno de cabelos cacheados, nossas pálpebras, que foram elaboradas pelo tolo criador, dificultam esse prazer.(Srimad-Bhagavatam 10.31.15)
pati-sutānvaya-bhrātṛ-bāndhavān
ativilaṅghya te ’nty acyutāgatāḥ
gati-vidas tavodgīta-mohitāḥ
kitava yoṣitaḥ kas tyajen niśi
Querido Acyuta, sabes muito bem o porquê de virmos até aqui. Quem, senão um enganador como Tu, abandonaria mulheres jovens que vieram vê-lO no meio da noite, encantadas pelo som alto de Sua flauta? Só para ver-Te, rejeitamos por completo nossos maridos, filhos, ancestrais, irmãos e outros parentes. (Srimad-Bhagavatam 10.31.16)
rahasi saṁvidaṁ hṛc-chayodayaṁ
prahasitānanaṁ prema-vīkṣaṇam
bṛhad-uraḥ śriyo vīkṣya dhāma te
muhur ati-spṛhā muhyate manaḥ
Nossas mentes muitas vezes se confundem ao pensarmos nas conversas íntimas que tivemos contigo em segredo, sentimos o despertar da luxúria em nossos corações e
lembramos Teu rosto sorridente, Teus olhares amorosos e Teu largo peito, o lugar da deusa da fortuna. Assim experimentamos o mais severo desejo de estar contigo.(Srimad-Bhagavatam 10.31.17)
vraja-vanaukasāṁ vyaktir aṅga te
vṛjina-hantry alaṁ viśva-maṅgalam
tyaja manāk ca nas tvat-spṛhātmanāṁ
sva-jana-hṛd-rujāṁ yan niṣūdanam
Ó amado, Teu aparecimento todo-auspicioso destrói a aflição daqueles que residem nas florestas de Vraja. Nossas mentes anseiam por Tua associação. Por favor, dá-nos só um pouco desse remédio, que neutraliza a doença dos corações de Teus devotos. (Srimad-Bhagavatam 10.31.18)
yat te sujāta-caraṇāmburuhaṁ staneṣu
bhītāḥ śanaiḥ priya dadhīmahi karkaśeṣu
tenāṭavīm aṭasi tad vyathate na kiṁ svit
kūrpādibhir bhramati dhīr bhavad-āyuṣāṁ naḥ
Ó bem-amado! Teus pés de lótus são tão macios que os colocamos gentilmente sobre nossos seios, temendo que se machuquem. Nossa vida depende inteiramente de Ti. Por isso, nossas mentes enchem-se de preocupação, temendo que os seixos machuquem Teus tenros pés enquanto perambulas pelos caminhos da floresta.(Srimad-Bhagavatam 10.31.19)
śrī-śuka uvāca
iti gopyaḥ pragāyantyaḥ
pralapantyaś ca citradhā
ruruduḥ su-svaraṁ rājan
kṛṣṇa-darśana-lālasāḥ
Śukadeva Gosvāmī disse: Ó rei, tendo assim cantado e desabafado seus corações de várias maneiras encantadoras, as gopis começaram a chorar bem alto. Elas estavam muito ansiosas por ver o Senhor Krsna. (Srimad-Bhagavatam 10.32.1)
tāsām āvirabhūc chauriḥ
smayamāna-mukhāmbujaḥ
pītāmbara-dharaḥ sragvī
sākṣān manmatha-manmathaḥ
Então o Senhor Krsna, com um sorriso em Seu rosto de lótus, apareceu diante das gopis. Usando uma guirlanda e um traje amarelo, Ele apareceu diretamente como quem pode confundir a mente de Cupido, o mesmo que confunde a mente das pessoas comuns. (Srimad-Bhagavatam 10.32.2)

Jay jay Sri Radhe!!! Todas as glórias a Srimati Radhika, a potência interna do Senhor Supremo!

Esse Gopi-gita, a canção das gopis, está dentre o que há de mais elevado e é muito difícil entender o significado profundo desses versos. Eu também manifestei o Gopi-gita em inglês e eu espero que em breve vocês o traduzam para a sua língua. Espero que vocês também se beneficiem caso leiam esse livro. Esse Gopi-gita é tão doce e pode ser cantado de diferentes maneiras, com diferentes melodias também e não apenas uma. O Gopi-gita inebria o coração.

Apesar de poder ser recitado em muitas melodias ou ritmos diferentes, alguns panditas explicam que pode ser cantado em kanak manjari chanda (um tipo de métrica). Kanak tem dois significados: significa ouro, coisas valiosas e caras, e kanak também significa Datura_, um tipo de planta alucinógena. Se você ingere as folhas dessa planta, fica com a cabeça girando (tontura e inebriação). É um tipo de erva, como a maconha, que as pessoas usam também.

Similarmente, se você recitar esse Gopi-gita na melodia kanak manjari chanda, o seu coração inebriar-se-á. No Gopi-gita, as gopis glorificam os doces passatempos de Krsna e nada mais. Repetidas vezes (punah punas ca), elas recitaram as doces glorificações a Krsna. Jayati te ’dhikaṁ
janmanā vrajaḥ. “Ó Govinda, existem muitos locais de peregrinação na Índia, tirtha-sthala, mas Vrndavana é um local superexcelente. Por que todos querem ir para Vrndavana? Vrndavana é tão enaltecida, porque, Govinda, Você fez Seu passatempo de nascimento (janma-lila) em Vraja.”

śrayata indirā. Todas as Laksmis de Vaikuntha, todo dia, vinham a Vrndavana e começavam a varrer.
cintāmaṇi-prakara-sadmasu kalpa-vṛkṣa-
lakṣāvṛteṣu surabhir abhipālayantam
lakṣmī-sahasra-śata-sambhrama-sevyamānam
govindam ādi-puruṣaḿ tam ahaḿ bhajāmi
Eu adoro Govinda, o Senhor primordial, o primeiro genitor, O qual pastoreia as vacas que satisfazem todos os desejos, em moradas construídas com pedras preciosas espirituais, que é cercado por milhões de árvores dos desejos e sempre servido com grande reverência e afeição por centenas de milhares de Laksmis ou gopis. (Brahma-samhita, 3)

A recitação de Brahmaji, Brahma Samhita, exalta a beleza de Vrndavana. Cintāmaṇi-prakara-sadmasu kalpa-vṛkṣa — Todas as casas de Vrndavana são construídas com pedras dos desejos. Lakṣāvṛteṣu surabhir abhipālayantam — Todas as vacas de Vrndavana são kama-dhenu, vacas que satisfazem todos os desejos. Todas as árvores de Vrndavana são kalpa-vrksa, árvores que satisfazem todos os desejos.

Lakṣmī-sahasra-śata-sambhrama-sevyamānam. Não apenas uma Laksmi, mas milhões — milhões — de Laksmis vêm de Vaikuntha. Em Vaikuntha, elas são maharani, rainhas, em Vrndavana, contudo, elas são como varredoras de rua. Na Índia, ser varredor de rua significa ser de casta baixa. Elas eram rainhas e agora se tornaram varredoras de rua. Todavia, varrer o chão de Vrndavana não é para qualquer um, não é uma sorte comum. alpavarge dase nahi hai korena bhagavan, brahma sivaadi yahara kinkora... (Chaitanya Bhagavata)

Se você não tiver muita sorte, Krsna não vai aceitá-lo como Seu servo. Maha bhagyavan. Tornam-se servos de Krishna aqueles que são muito afortunados e que possuem sukrti (créditos piedosos espirituais) de milhões e milhões de nascimentos. Brahma e Siva anseiam por servir Vrndavana, estão ávidos para nascer em Vrndavana. No entanto, não é tão fácil conseguir nascer em Vrndavana, tentem entender isso. Vocês podem nascer em outro lugar, mas nascer em Vrndavana não é algo ordinário, comum.

Brahmaji disse no Brahma stuti: “sou desqualificado para nascer em Vrndavana”. Yad gokule api — “Não sou qualificado para nascer em Vrndavana. Ó Govinda, ei Krsna, faça com que eu nasça em Nanda-Gokula (onde Krsna fez Seus passatempos infantis).”
tad bhūri-bhāgyam iha janma kim apy aṭavyāṁ
yad gokule ’pi katamāṅghri-rajo-’bhiṣekam
yaj-jīvitaṁ tu nikhilaṁ bhagavān mukundas
tv adyāpi yat-pada-rajaḥ śruti-mṛgyam eva
Para mim, a maior boa fortuna possível seria nascer em qualquer espécie de vida nesta floresta de Gokula e ter minha cabeça banhada pela poeira que cai dos pés de lótus de qualquer de seus residentes. Toda a vida e alma deles é a Suprema Personalidade de Deus, Mukunda, a poeira de cujos pés de lótus ainda está sendo procurada nos mantras védicos. (Srimad-Bhagavatam 10.14.34)

Agora nascer em rasa-sthali Vrndavana, nessa parte de Vrndavana em particular, não é nada fácil. Não é tão fácil nascer em Vrndavana. Uddhava, que é um dos mais próximos e mais querido por Krsna, veio a Vrndavana e viu o tamanho do amor e afeição que os vrajavasis têm por Krsna. E então, várias e várias vezes, ele se curvou, reverenciando os pés de lótus de Srimati Radhika, e recitou seis versos. [Desses seis versos, dois são os seguintes:]
āsām aho caraṇa-reṇu-juṣām ahaṁ syāṁ
vṛndāvane kim api gulma-latauṣadhīnām
yā dustyajaṁ sva-janam ārya-pathaṁ ca hitvā
bhejur mukunda-padavīṁ śrutibhir vimṛgyām
As gopis de Vrndavana abandonaram a companhia de seus maridos, filhos e outros membros familiares, que são muito difíceis de abandonar, e renegaram o caminho da castidade só para refugiar-se aos pés de lótus de Mukunda, Krsna, a quem devemos buscar valendo-nos do conhecimento védico. Ó! Que eu seja bastante afortunado para tornar-me um dos arbustos, trepadeiras ou ervas de Vrndavana, pois as gopis pisam neles e abençoam-nos com a poeira dos seus pés de lótus. (Srimad-Bhagavatam 10.47.61)
vande nanda-vraja-strīṇāṁ
pāda-reṇum abhīkṣṇaśaḥ
yāsāṁ hari-kathodgītaṁ
punāti bhuvana-trayam
Repetidas vezes ofereço meus respeitos à poeira dos pés das mulheres da aldeia pastoril de Nanda Maharaja. Quando estas gopis cantam em voz alta as glórias de Sri Krsna, essa vibração purifica os três mundos. (Srimad-Bhagavatam 10.47.63)

Uddhava recitou seis slokas (versos), repetidamente, curvando sua testa ao chão e orando: “Se eu nascer em Vrndavana como uma folha de grama, poderei obter uma partícula da poeira dos pés de Srimati Radhika”. Ansiar por obter uma partícula da poeira dos pés de Srimati Radhika significa ansiar por obter uma pequena fração do humor de Srimati Radhika. Não é tão fácil conseguir isso todavia.

Portanto, virar um varredor do chão de Vrndavana não é algo ordinário. Prabhodananda Sarasvati é Tungavidya sakhi em krsna-lila (nos passatempos de Krsna). Tungavidya sakhi é uma amiga muito próxima e querida de Srimati Radhika; é uma das oito sakhis (amigas) mais proeminentes de Srimati Radhika, tais como Lalita e Visakha. Que posso dizer? Nosso Prabhodananda Sarasvatipada disse muito humildemente no Radha-rasa-sudhanidhi (8):
yat-kinkarisu bahusah khalu kaku-vani
nityam parasya purusasya sikhanda-mauleh
tasyah kada rasa-nidher vrsabhanu-jayas
tat-keli-kunja-bhavanangana-marjani syam
“Ó filha de Vrsabhanu Maharaja, ó oceano de rasa! O Bhagavan Supremo, a fonte de todos os avataras, O qual usa uma pena de pavão em Seu cabelo, cai aos pés das Suas servas e tenta persuadi-las, com falas humildade e pesarosas, para que Lhe deixem entrar no Seu kunja (bosque) onde Você Se ocupa em passatempos amorosos e divertidos. Se eu ao menos pudesse me tornar uma cerda da vassoura que as Suas sakhis (amigas) usam para limpar o Seu maravilhoso kunja (bosque), eu consideraria minha vida bem-sucedida.”

Minha vida vai ser bem-sucedida se eu nascer em Vrndavana como uma cerda de vassoura em Nidhuvana, onde Krsna — svayam bhagavan, a Suprema Personalidade de Deus, que é sikhanda-mauleh (que usa pena de pavão na cabeça) — está segurando Suas orelhas e pedindo para ser perdoado pelas Suas ofensas, dizendo: “Ó Srimati Radhike, não vou cometer mais ofensas aos Seus pés de lótus”.

Se eu nascer em Vrndavana como uma palha ou cerda de vassoura, então minha vida será bem-sucedida. Ser uma serva de Vrsabhanu-nandini Srimati Radhika não é algo ordinário, comum. Quem pode glorificar os pés de lótus de Srimati Radhika?
yo brahma-rudra-suka-narada-bhisma-mukhyair
alaksito na sahasa purusasya tasya
sadyo-vasi-karana-curnam ananta-saktim
tam radhika-carana-renum anusmarami
“Eu medito na poeira dos pés de Srimati Radhika seguindo o caminho dos acaryas antecessores. Srimati Radhika, com Seu poder ilimitado, instantaneamente subjuga Sri Krsna, a Pessoa Suprema, O qual não é visto facilmente por grandes almas tais como Brahma, Siva, Sukadeva, Narada Muni e Bhisma. (Sri Radha-rasa-sudhanidhi, 4)

Brahma, Siva e Narada são chamados de mahajanas, vaisnavas (devotos do Senhor) muitos exaltados e de classe muito alta, e eles não conseguem receber a poeira dos pés de Srimati Radhika. Se eu receber a poeira dos pés de Srimati Radhika então minha vida será exitosa. O que significa poeira dos pés? Significa que se eu receber uma ínfima fração do humor de Srimati Radhika, então minha vida será exitosa.
yasyah kadapi vasanancala-khelanottha-
dhanyati-dhanya-pavanena krtartha-mani
yogindra-durgama-gatir madhusudano 'pi
tasya namo 'stu vrsabhanu-bhuvo dise ‘pi
Reverências à direção em que se encontra a filha de Sri Vrsabhanu. Quando a brisa que vem dessa direção graciosamente balança a ponta da roupa dEla, o Senhor Krsna, O qual é inalcançável até para os reis dos yogis, considera que Sua vida Se tornou então um grande êxito. (Sri Radha-rasa-sudhanidhi, 2)

Prabhodananda Sarasvati, repetidas e repetidas vezes, presta suas reverências aos pés de lótus de Srimati Radhika com muita humildade. Ele diz: “Eu não posso tocar nos pés de lótus de Srimati Radhika. Presto minhas reverências à direção em que Srimati Radhika está”.

Uma vez, Radha e Krsna estavam Se encontrando às margens do Radha-kunda e do Shyama-kunda, bem no sangama-sthali, o local onde o Radha-kunda e o Shyama-kunda se encontram. Radha e Krsna estavam juntos e tendo lindas trocas amorosas. Abraçavam-Se, beijavam-Se; até que surgiu em Srimati Radhika uma maan (raiva transcendental) imotivada. Sendo assim, Ela deixou Krsna e foi para o outro lado do Radha-kunda, onde ficou parada.

Krsna tentou acalmar a maan de Srimati Radhika, contudo, Ela estava muito brava, com uma raiva inconquistável (durjaya maan). Krsna perdera completamente as Suas esperanças; estava totalmente desamparado. Krsna estava Se debulhando em lágrimas e estava parado à margem do Radha-kunda. Krsna parecia uma pessoa totalmente luxuriosa, mas Ele não é assim, não pensem nisso. Ele chorava, vertia lágrimas, quando, nesse ínterim, o vento soprou trazendo a doce fragrância da roupa de Srimati Radhika. Quando Krsna sentiu o cheiro maravilhoso da roupa dEla (sugandha), Krsna disse: “dhanyati-dhanya-pavanena krtartha-mani — Ó Pavana-deva, Vayu-devata (Deidade que preside o ar), ar, sua vida é exitosa, porque você está brincando agora com o pano de Srimati Radhika”.

Yogindra-durgama. Brahma, Siva e Narada são os mais elevados yogis e, às vezes, Krsna manifesta os Seus pés de lótus no transe deles, mas, às vezes, não. Contudo, esse mesmo Krsna está agora, com muita humildade, prestando Suas reverências e dizendo: “Ei Srimati Radhike, que posso fazer para você ficar feliz coMigo?”. Divya prasadata. Krsna Se banha três vezes por dia no Radha-kunda para o prazer de Srimati Radhika. Então esse tipo de lila está acontecendo lá, como Vrndavana é linda! Portanto:
jayati te ’dhikaṁ janmanā vrajaḥ
śrayata indirā śaśvad atra hi
dayita dṛśyatāṁ dikṣu tāvakās
tvayi dhṛtāsavas tvāṁ vicinvate
As gopis disseram: Ó amado, Teu nascimento na terra de Vraja tornou-a por demais gloriosa e, por isso, Indirā, a deusa da fortuna, sempre reside aqui. É apenas por tua causa que nós, Tuas servas devotadas, mantemos nossas vidas. Estivemos procurando por Ti em toda a parte, então, por favor, revela-Te a nós. (Srimad-Bhagavatam 10.31.1)
śarad-udāśaye sādhu-jāta-sat-
sarasijodara-śrī-muṣā dṛśā
surata-nātha te ’śulka-dāsikā
vara-da nighnato neha kiṁ vadhaḥ
Ó Senhor do amor, em beleza Teu olhar excede o verticilo do mais fino e perfeito lótus desabrochado num lago durante o outono. Ó outorgador de bênçãos, estás matando as servas que se entregaram a Ti de livre e espontânea vontade, sem nenhum pagamento. Isso não é assassinato? (Srimad-Bhagavatam 10.31.2)

Como Vrndavana é bela! Se você não for a Vrndavana, mesmo que eu a descreva para você, você não conseguirá entender. Você achará que são apenas palavras de um poeta eloquente, palavras poéticas. Mas se você for a Vrndavana, você verá diretamente e então terá a realização (sentimento) acerca da beleza de Vrndavana. Krsna-katha, ou seja, os assuntos sobre as atividades de Govinda (Krsna), é puro néctar (amrta).
tava kathāmṛtaṁ tapta-jīvanaṁ
kavibhir īḍitaṁ kalmaṣāpaham
śravaṇa-maṅgalaṁ śrīmad ātataṁ
bhuvi gṛṇanti ye bhūri-dā janāḥ
O néctar de Tuas palavras e as descrições de Tuas atividades são a vida e alma daqueles que sofrem neste mundo material. Essas narrações, transmitidas por sábios eruditos, erradicam as reações pecaminosas e concedem boa fortuna a quem quer que as ouça. Essas narrações difundem-se por todo o mundo e são cheias de poder espiritual. Aqueles que propagam a mensagem de Deus decerto são as pessoas mais munificentes. (Srimad-Bhagavatam 10.31.9)

Govinda-katha (histórias e assuntos sobre Deus, Govinda) é um doce néctar (amrta). Se você ouvir krsna-katha, govinda-katha, sua vida será bem-sucedida e você não nascerá mais neste mundo material. Porque, como é possível alguém que tenha bebido o néctar (amrta) morrer? Mas que néctar (amrta) é esse? Govinda kathamrta — é o néctar dos passatempos de Govinda. Aquele que bebe o néctar doce de Govinda, não volta de novo a este mundo material. Ele vai para a suprema morada do Senhor: Goloka Vrndavana.
na tad bhāsayate sūryo
na śaśāṅko na pāvakaḥ
yad gatvā na nivartante
tad dhāma paramaṁ mama
Aquela Minha suprema morada não é iluminada pelo sol ou pela lua, nem pelo fogo ou eletricidade. Aqueles que a alcançam nunca retornam a este mundo material. (Bhagavad-Gita 15.6)

Então dessa forma, as gopis (moças vaqueiras) falaram todas as glórias de Krsna e expressaram seus corações, abriram seus corações. Krsna, por Sua vez, não conseguia mais Se esconder, conter-Se, então Ele apareceu na assembleia das gopis. Nesse momento, Ele pensava: “Sou um ofensor (aparadhi) por completo; sou um criminoso”.
tāsām āvirabhūc chauriḥ
smayamāna-mukhāmbujaḥ
pītāmbara-dharaḥ sragvī
sākṣān manmatha-manmathaḥ
Então o Senhor Krsna, com um sorriso em Seu rosto de lótus, apareceu diante das gopis. Usando uma guirlanda e um traje amarelo, Ele apareceu diretamente como quem pode confundir a mente do Cupido, o mesmo que confunde a mente das pessoas comuns. (Srimad-Bhagavatam 10.32.2)

Sukadeva Gosvamipada ficou com muita raiva e castigou Krsna dizendo: “Ei Govinda, como Você é cruel e um criminoso! As gopis, que são tão dóceis e amáveis e cujos corpos são tão tenros e delicados, elas sacrificam tudo por Você, mas Você desapareceu da dança da rasa, causando-lhes tanta dor em seus corações”. Portanto, Sukadeva Gosvamipada disse tāsām āvirabhūc chauriḥ. Ele usou essa palavra śauriḥ: “Você é muito cruel e Seu coração é muito duro”. Mas o rosto de Krsna é muito belo e encantador. Ele estava sorrindo e usando a mesma guirlanda que as gopis haviam Lhe oferecido. Ele segurava Seu pitambara (lenço, manto amarelo) enrolado em volta do Seu pescoço_, porque Ele estava pensando: “Eu sou um ofensor, aparadhi. As gopis sacrificam tudo por Mim, mas Eu causei tanta dor em seus corações”. Portanto Krsna Se encarava como um ofensor (aparadhi).

As gopis (moças vaqueiras) são muito humildes. As gopis do grupo de Chandravali chegaram bem perto de Krsna. Já as sakhis (amigas) de Srimati Radhika mantiveram um pouco de distância dEle e mordiam os lábios, visto que estavam muito bravas — isso porque o amor delas é um amor muito elevado. O amor delas é assim.

Então as gopis ofereceram asana (um assento) para Krsna e fizeram-Lhe várias perguntas acerca do amor, como por exemplo: “Que tipo de amor é o Seu? Qual é o significado do amor?”. Amor significa o quê? Quem ama nunca quer fazer o amado sofrer. O amor é sempre alegria, felicidade. Ananda-prema. Prema é a personificação do amor divino. Prema é felicidade.

Então as gopis disseram: “Govinda, há um tipo de amor em que a pessoa só ama se for amada e esse amor é um amor interesseiro. ‘Se tu me amas, então eu te amo.’ Esse é o amor de comércio; não é um amor perfeito. Já há um amor que, mesmo sem você amar a pessoa, ela a ama de qualquer forma e esse é o amor dos pais. Os pais amam espontaneamente seus filhos, porque a mãe e o pai pensam: ‘Esse é meu dever e responsabilidade; dei à luz meu filho, portanto devo cuidar dele’. Sem reciprocidade Eles pensam: ‘Meu dever é cuidar do meu bebê’”.

“Há outras pessoas que, mesmo que você as ame ou não, eles não amam ninguém. Existem quatro categorias desse tipo: atmarama (pessoa auto-satisfeita), aptakama (pessoa que tem todos os seus desejos satisfeitos automaticamente), guru-drohi e akrtajña (pessoa ingrata).” Guru-drohi são aqueles contrários ao guru e que o criticam; o coração desses, portanto, é duro e eles têm que ir para o inferno. Guru-nindukera mukha kabhu nā heribe.
guru-nindukera mukha kabhu nā heribe
ĵathā haya guru-nindā, tathā nā ĵāibe
Nunca olhe para a cara daquele que critica śrī guru (o mestre espiritual). Nunca vá a nenhum local onde ocorra crítica a śrī guru. (Āśraya Kôriyā Vandõ, 9 - Sri Sanatana dasa)

Caso alguém critique o seu guru, nunca mais olhe na cara dessa pessoa. O guru-drohi ofende o guru, é, portanto, um guru aparadhi. Nunca critique o guru. As gopis (moças vaqueiras) então perguntaram: “Krsna, a qual desses grupos Você pertence?”.

Krsna contestou: “Ei gopis, Eu não pertenço a nenhuma dessas categorias. Se Eu fosse atmarama (pessoa auto-satisfeita) e aptakama (pessoa que tem todos os seus desejos satisfeitos automaticamente), por que Eu teria vindo até vocês? Eu não sou atmarama, nem aptakama, tampouco guru-drohi, um aparadhi (ofensor), ou uma pessoa ingrata”.
na pāraye ’haṁ niravadya-saṁyujāṁ

sva-sādhu-kṛtyaṁ vibudhāyuṣāpi vaḥ

yā mābhajan durjara-geha-śṛṅkhalāḥ

saṁvṛścya tad vaḥ pratiyātu sādhunā
Eu não sou capaz de pagar Minha dívida pelo serviço impecável de vocês nem mesmo dentro do tempo de uma vida de Brahma. Sua ligação coMigo está além da censura. Vocês Me adoraram cortando todos os laços familiares, os quais são muito difíceis de serem rompidos. Portanto, por favor, deixem que os seus próprios atos gloriosos sejam sua recompensa. (Srimad-Bhagavatam 10.32.22)

Krsna continuou: “Eu não tenho como recompensar vocês. Eu estava apenas vendo quanto amor vocês têm por Mim”. Quando amado e amante estão juntos, não é possível mensurar quanto amor e afeição existe entre eles. Contudo, quando amado e amante ou marido e mulher estão distantes um do outro, aí então é possível medir o amor entre eles.

Quando guru e discípulo estão ficando juntos, eles se amam. Mas como pode um discípulo medir o amor que ele tem pelo seu guru? Quando o guru está longe do discípulo, quanto mais o discípulo se lembrar do guru, significa que mais amor ele tem pelo mestre. Quando juntos, não dá para medir o amor, mas, quando separados, aí sim você pode medir. Se você não ama, então é “aya Rama, gaya Rama”6. Qual é o significado? Então Krsna falou esse tattva-siddhanta. Você ama o seu guru, mas como você sabe que você o ama? Quando o guru está longe, o quanto sua mente se absorve nele? O quanto sua mente se absorve nele é a forma de medir.

A natureza do amor é que quando você ama alguém, você não consegue se esquecer da pessoa. Você ama seus filhos e filhas. Você conseguiria se esquecer deles? As pessoas ocidentais usam tanto o termo ex: ex-namorado, ex-mulher, ex-namorada. Mas você poderia falar meu ex-filho, minha ex-filha? Você tem algum ex-filho ou ex-filha? “Antes ele era meu filho, agora não mais.” Você não diz isso, mas diz: “Ela era minha esposa, mas nos divorciamos, então agora me refiro a ela como minha ex-mulher”. Na cultura ocidental as pessoas falam isso e agora a cultura indiana também está se misturando um pouco. Ex-mulher, ex-marido. “Antes ele era meu marido, mas agora depois do divórcio, ele não é meu marido, sim meu ex-marido.” Ex-namorado, ex-namorada. Mas você poderia me dizer: “Eu tenho um ex-filho ou uma ex-filha”? Não. Somos ligados aos filhos e filhas por uma relação de sangue, portanto, não dá para usar a palavra ex, a qual usamos para nos referirmos a outros tipos de amor. No mundo transcendental, por sua vez, não existe a palavra ex, porque tudo lá é eterno e transcendental.
akaitava kṛṣṇa-prema, yena jāmbūnada-hema,
sei premā nṛloke nā haya
yadi haya tāra yoga, nā haya tabe viyoga,
viyoga haile keha nā jīyaya
“O amor puro por Krsna, assim como o ouro do rio Jāmbū, não existe na sociedade humana. Se existisse, não poderia haver separação. Havendo separação, não se poderia viver.” (Sri Chaitanya-Charitamrta, Madhya-lila, 2.43)

Amor significa o quê? Uma vez que você se una a Krsna, você nunca vai se separar dEle. E caso você se separe dEle, você não vai conseguir sobreviver, que nem um peixe fora d’água. Se você tirar um peixe da água, o peixe não sobrevive; ele se debate, debate-se, debate-se e então abandona sua vida. Aqui [em Penha-SC] os pescadores tiram os peixes da água e os peixes fora d’água se debatem e então abandonam o corpo. O amor, o amor transcendental, é assim: Yadi haya tāra yoga, nā haya tabe viyoga — Uma vez que você se conecte, que você estabeleça um vínculo com Guru e Krsna, então você nunca vai se separar dEles. Isso é amor, tente entender.

Então Krsna falou às gopis (moças vaqueiras) todo esse tattva siddhanta e as gopis replicaram: “Por que Você causou tanta dor nos nossos corações? Nós queremos saber isso, afinal, amor significa o quê?”. Então Krsna, por Sua vez, disse: “Se você realmente ama alguém, você nunca repara nos defeitos dele ou dela”. Vocês entendem? Essa é a natureza. Uma mãe ama seu filho e, mesmo que o bebê não tenha olhos, mesmo assim a mãe dá ao filho o nome Padma-lochana (aquele que tem olhos de lótus). O filho não tem nem mesmo olhos, mas a mãe dá o nome Padma-lochana. Nenhuma mãe vai chamar seu filho de Filho Cego, porque a natureza do amor é que o amor nunca repara em nenhuma falha ou defeito.

Então Krsna disse às gopis: “Ei gopis, se vocês realmente Me amam, vocês não devem reparar nos Meus defeitos”. Então as gopis disseram: “Ó Govinda…”. E Krsna disse: “Gopis, Eu estou completamente endividado pelo seu amor divino”.

As gopis, por sua vez, contestaram: “Govinda, ouça, amado e amante nunca ficam falando sobre dívidas, recompensas. Você não pode falar assim. O amor é igual e livre. Ó, Govinda, Você disse que se Você tivesse o tempo de vida do Senhor Brahma e por milhares e milhares de vidas servisse os nossos pés de lótus mesmo assim Você não poderia nos recompensar pelo nosso amor divino…que Você está totalmente endividado conosco. Mas, Govinda, não use essas palavras, não fale assim. Você é sempre livre”.

Krsna é o Senhor Supremo, Ele é independente e auto-controlado (svatantra svaicchamayi purusa bhagavan). Quem conhece a lila dEle? No mundo transcendental, há o amor divino e o encontro e a separação, a separação e o encontro.
na vina vipralambhena
sambhogah pushtim ashnute
kashayite hi vastradau
bhuyan rago vivardhate
Quanto mais um pano ou tecido for mergulhado no corante açafrão, mais a cor do tecido vai ficar forte. Da mesma forma, os momentos de separação entre os amantes (quando eles estão longe um do outro mas lembrando-se de seus encontros prévios) aumentam a doçura do encontro. (Ujjvala-nilamani, Sringara-prakarana, Texto 3, Rupa Gosvami)

Encontro e separação, separação e encontro. A separação — ou o momento afastado em que os amantes estão com as mentes absortas nos momentos que tiveram juntos anteriormente — nutre o encontro. Sem separação, o sentimento na hora do encontro não seria tão maravilhoso e acentuado. Por isso, Yogamaya arranja para que haja separação. Então as gopis e Krsna se encontraram e de novo houve a dança da rasa. Na próxima vez, falamos sobre como foi isso.

Espero que vocês todos cantem os santos nomes, façam sadhana e bhajana, nunca abandonem o guru e nunca abandonem harinama (santos nomes de Deus). Este é seu voto: por uma vida, ser unidirecionado a guru e cantar os santos nomes e, assim, sua vida será bem-sucedida.

Bolo Vrndavana bihari lal ki joy! Jay jay Sri Radhe!

(Tradução e transcrição: Taruni Gopi Dasi)