12.4.18

QUAL É O SIGNIFICADO DAS AUSTERIDADES?

12/02/2018
São Paulo/SP


No primeiro capítulo do décimo canto do Srimad Bhagavatam, Srila Sukadeva Gosvamipada contou a Pariksit Maharaj sobre os belos passatempos de Krsna - Krsna-lila kathamrtam. Porque do primeiro ao nono canto, Sukadeva Gosvamipada disse a ele muitos kathas sobre jnana e vairagya. E também contou muitas histórias, muitos passatempos sobre dinastias de reis. Então Pariksit Maharaj fez-lhe uma pergunta: “Ei Gurudeva, ei Brahman, por favor não se sinta ofendido. Eu quero fazer uma pergunta a você”.

Então Pariksit Maharaj humildemente disse: “Não sei como fazer perguntas diante de você, se eu cometer alguma ofensa, por favor me perdoe. Agora estou prestes a morrer. Talvez daqui a dois dias morrerei, porque uma cobra virá me picar. Mas por que você está me contando tantas histórias sobre reis? Você contou tanto sobre esses passatempos. Como eles são grandiosos, como são valentes, como eles conquistaram vários países, como foram caridosos, fizeram doações... Você contou tantos kathas, kathas sobre jnana e vairagya. Mas por quê? Qual benefício eu obterei? Não consigo obter nenhum benefício.”
Na linguagem de Braja, é dito desse modo: “Ok, essa pessoa é muito rica, ela também tem muita opulência, saúde, dinheiro, está comendo variados tipos de comidas deliciosas, laddu, kacori, etc... Se eu ouvir as glórias de tal pessoa, que benefício obterei disso? Nenhum. Ele não me dará nenhum centavo, ele não me dará nenhum grão, então qual é o significado de ouvir glorificações a seu respeito?”

Por exemplo: você vê uma árvore muito alta. Você não conseguirá nenhum benefício com essa árvore, pois você não conseguirá ficar sob sua sombra, por ela ser excessivamente comprida e alta. Talvez a sombra dessa árvore chegue muito longe. Imagine se você está caminhando na época do verão e então se depara com um coqueiro bem alto. Você gostaria de descansar sob a sombra dessa árvore, mas onde está a sombra dela? Está indo bem longe, no rio. Logo, dessa forma você não obterá benefício algum vindo de tal árvore. 

Você também pode encontrar uma árvore que dê frutos bem grandes, mas se ela é muito alta e os seu galhos também são igualmente altos, você não conseguirá colher tais frutos.

Estou falando isso porque Pariksit Maharaj falou para Sukadeva Gosvamipada: “Você me contou a respeito de como esses reis foram bons, como foram grandiosos, valentes. Mas qual é vantagem que terei sabendo disso? Não serei capaz de obter nenhum tipo de fruto advindo disso”.

Então Sukadeva Gosvamipada lhe disse: “Na verdade, eu falei sobre a aisvarya (opulência) desses reis. Mas por quê? Porque você veio dessa dinastia. Primeiramente você deve entender sobre as suas próprias glórias. Mas como você poderá saber a respeito de suas próprias qualidades? Por isso estou te contando sobre os seus antepassados, sobre o quão grandiosos eles foram...”

Na cultura indiana todos desejam saber a respeito de seus antepassados. “Meu pai, meu avô, meu bisavô... quem eles eram?”.

Então Sukadeva Gosvamipada continuou: “Então por isso, expliquei a você sobre essas duas dinastias: somavanshi, a dinastia da lua e suryavanshi, a dinastia do sol. Foi na dinastia do sol que o Senhor Ramacandra apareceu. E na dinastia da lua, somavanshi veio o próprio Senhor Sri Krsna. Veja, Pariksit Maharaj, como você é tão afortunado! Foi em sua dinastia que o Senhor e Seu avatara pessoalmente descenderam. E qualquer pessoa de sua dinastia, todos eram também tão grandiosos. Eles eram todos mahatmas, grandes almas. Todos possuíam jnana e vairagya, conhecimento e renúncia.”

Mas por que ele diz isso? Pois a partir do momento em que Bhakti se manifesta no coração, quais são os dois sintomas que surgem? Jnana e vairagya. Jnana significa ‘conhecimento transcendental’ e vairagya significa ‘desapego da gratificação dos sentidos’.

Bhakti Devi possui dois filhos: jnana e vairagya. Quando nós discutimos e falamos sobre as glórias do Srimad Bhagavatham, então automaticamente estamos discutindo sobre Bhakti Devi katha.

Certa vez, Bhakti Devi disse: “Nasci em Dravida, e dei a luz aos meus dois filhos, jnana e vairagya. Mas quando eu vim a Gujarat, então logo meus dois filhos se tornaram jovens e eu me tornei velha. Mas quando saí de lá e fui para Vrndavana, aconteceu o oposto. Eu fiquei jovem e os meus dois filhos envelheceram”.

Isso significa que quando Bhakti se manifestarem no coração, jnana e vairagya virão. Alguns Vaisnavas falam dessa forma: Se você for comparar, Bhakti é como a esposa e Paramatma é como o marido. Quando a esposa e o marido se encontrarem, o que virá? Filhos. Isso significa que Bhakti Devi e Bhagavan nos dão jnana e vairagya

Então Sukadeva Gosvamipada continuou: “Ei Pariksit Maharaj, você veio na dinastia do Sol, suryavanshi, na qual o próprio Senhor Ramacandra apareceu. Ele estabeleceu o varnasrama-dharma, na plataforma de prema-madhurya katha. Então Krsna apareceu em somavanshi, a dinastia da lua, e realizou os mais doces passatempos com as gopis”.

Por isso, estou explicando dessa maneira:
nivrtta-tarsair upagiyamanad                
bhavausadhac chrotra-mano-‘bhiramat
ka uttamasloka-gunanuvadat
puman virajyeta vina pasughnat
[“A glorificação da Suprema Personalidade de Deus é realizada através do sistema parampara; ou seja, é algo passado do mestre espiritual para o discípulo. Tal glorificação é saboreada  por aqueles que não têm mais qualquer tipo de interesse na falsa e temporária glorificação dessa manifestação cósmica. Dissertações sobre o Senhor são o remédio adequado para as almas condicionadas que estão se submetendo a repetidos nascimentos e mortes. Portanto, quem irá abrir mão de ouvir tal glorificação sobre o Senhor se não o açougueiro ou aquele que mata a si mesmo?” (Srimad Bhagavatam 10.1.4)]

Esse é um sloka muito importante, todos devem aprendê-lo.

Quem não deseja ouvir Krsna-katha? Aqueles que estão matando os animais, eles têm o coração muito duro. ‘Vina pasughnat’ - aqueles que estão matando os animais. Eles não desejam ouvir sobre Krsna. Todos além do açougueiro querem ouvir Krsna-katha. Até mesmo os impersonalistas (aqueles que querem imergir no Brahman) quando ouvem esse katha, abandonam a meditação no Brahman, e então logo se tornam ávidos por ouvirem mais sobre, pois esse Govinda-katha é muito poderoso.

Então nivritta-tarsair upagiyamanad [...] – até mesmo aqueles que estão sofrendo nesse mundo material pelas três misérias de maya; adhyamika (as misérias causadas pelo corpo e a mente); adhidaivika (as misérias causadas pelos fenômenos naturais enviados pelos semideuses) e adhibhautika (as misérias causadas por outras entidades vivas, como os humanos, animais, insetos, etc), até mesmo eles quando ouvem Krsna-katha se esquecem desse samsara, porque somente falar sobre Krsna já é algo muito poderoso. Krsna-katha pode atrair até mesmo os advaitavadis, mayavadis.

Certa vez havia um mayavadi que, por muitos anos, estivera praticando austeridades em Kasi, Varanasi. E ele cantava esse mantra ‘Aham Brahmasmi' – ‘Eu sou Brahman’. Um dia ele se pegou pensando: “Em toda a minha vida eu nunca realizei nenhum tirtha-yatra  (peregrinação), então talvez eu deva ir a algum tirtha (local sagrado)”. Então ele viajou para muitos e muitos lugares, e finalmente chegou em Vrndavana, mas quando chegou lá, a sua mente mudou completamente.
advaita-vithi-pathikair upasya
svananda-simhasana-labdha-diksah
sathena kenapi vayam hathena
dasi-krta gopa-vadhu-vitena
[“Embora eu tenha sido adorado por aqueles que estão no caminho da liberação impessoal e iniciado no caminho da auto-realização através do sistema de Yoga, eu não obstante fui forçado a me tornar uma serva por um garoto astuto que está sempre brincando com as gopis.” (Caitanya caritamrta, Madhya 24.133)]

Krsna das Kaviraja citou esse verso no Caitanya caritamrta. Ele explica o significado sobre esse sloka ao nos contar sobre o que aquele mayavadi havia pensado:

“Primeiramente eu estava no caminho dos advaitavadis, os impersonalistas, procurando uma maneira de me imergir no Brahman, mas quando vim à Vrndavana, o meu coração foi completamente roubado. Krsna-nama começou a dançar em minha língua automaticamente e logo os meus ouvidos se tornaram ávidos por ouvir Krsna-katha.”

Advaita-vithi-pathikair upasya [...]

“Estou completamente cativado por Krsna e pelo Seu katha. Agora me tornei uma serva de Srimati Radhika.” 

Mas se você se torna um devoto do Senhor, então qual benefício você obterá? Prasada! Só receberá prasada. Mas qual prasada? Tava kathamrtam!
tava kathamrtam tapta-jivanam
kavibhir iditam kalmasapaham
sravana-mangalam srimad atatam
bhuvi grnanti ye bhuri-da janah
[“O néctar das palavras dEle e as descrições das atividades dEle são a vida e a alma daqueles que estão sempre aflitos neste mundo material. Esses relatos são transmitidos por louváveis personalidades que arrancam todas as reações pecaminosas. Quem ouvir esses relatos alcança a boa sorte. Esses relatos são transmitidos em todo o mundo e estão cheios de poder espiritual. Aqueles que espalham a mensagem de Deus são certamente os trabalhadores mais generosos para o bem estar de todo o mundo.” (Srimad Bhagavatam 10.31.9/Gopi gita 9)]

Incrível e doce, não? Quando ele ouviu de Mahapraphu “Tava kathamrtam! Tava kathamrtam!”, ele disse: “Ei Krsna, o Seu katha é como um doce néctar. Quem não deseja beber deste néctar?”.

Todos desejam ou não? Quem irá querer saborear outras coisas além de néctar - amrta? Isso significa que Krsna-katha é amrta. O nosso Jiva Gosvamipada muito belamente explica nesse contexto; quando você se torna um devoto puro, você não precisa de jnana ou vairagya. No começo você precisa de conhecimento e renúncia, mas quando você se imergir completamente no amor divino de Radha e Krsna, então não dependerá mais de jnana e vairagya. Mas o que é isso? Nosso Jiva Gosvamipada explica da seguinte maneira:

“Ei príncipe, você terá uma vida longa, você é o filho do rei e possui tanta riqueza e opulência, porque nas suas vidas passadas certamente praticara muitas atividades piedosas, punya-karma. Então agora você está desfrutando, mas você sabe que depois de sua morte não conseguirá ter nada, pois esse será o seu fim.”

Então isso significa que os karmis estão realizando um bom karma e desfrutando por conta de suas atividade piedosas passadas. Mas quando este karma acaba, então eles não conseguem obter mais nada.

E o caçador, ou o açougueiro, eles estão matando os animais. Nesse mundo eles estão sofrendo como se estivessem no inferno e depois da morte também irão para lá. Então ele continua: “Ei bhakta, por quê você está praticando austeridades? Não é necessário tapasya nem nada do tipo”.

Mahapraphu falou sobre esse katha: “Para aquele que alcança Hari, Krsna, qual é o significado das austeridades?”. Se você não estiver praticando bhajana e sadhana, qual será o significado de praticar tapasya? Tapasya significa que você causa alguma dor ao seu corpo. Então qual tipo de benefício você obterá se não estiver praticando bhajana e sadhana? Por exemplo, ontem foi Ekadasi e você fez nirjala vrata, mas você não cantou 64 voltas. Então qual é o significado de ter feito esse nirjala vrata? Se você não dá ênfase ao cantar do harinama, você não receberá o benefício apropriado. Imagine que uma pessoa não seguiu nirjala vrata, mas cantou 64 voltas. Então essa pessoa fez algo mais elevado do que aquela que realizou nirjala vrata e não cantou uma lakh. Então, dessa maneira, Bhakti diz respeito a como iremos intensificar Krsna-nama e Krsna-katha, pois Krsna-katha é amrta, néctar. Então o que Srimati Radhika diz sobre isso? Tava kathamrtam tapta-jivanam [...] (SB 10.31.9)

Mas não me entenda mal, não estou falando para vocês: “Não façam nirjala vrata”. Não estou falando isso. Estou dizendo apenas que a primeira coisa a se fazer é dar intensidade à prática dos santos nomes, sendo que a segunda coisa a se preocupar é a prática de nirjala. Se a sua saúde é boa e o seu corpo consegue tolerar, então você pode fazer. Porque Bhakti não é imposta à força. Especialmente em Kali Yuga, não precisamos de Hatha Yoga. O que é Hatha Yoga? Praticar austeridades. “Meu corpo não tolera, mas eu faço isso mesmo assim, à força”.

Bhakti não é praticada dessa maneira, Bhakti Devi advém do serviço espontâneo. Ontem um devoto me perguntou: “Gurudeva, o que eu devo fazer agora? Devo fazer nirjala ou não? Porque estava considerando a ideia de fazer, mas quando vi todas essas diversas preparações... Oh, Gurudeva, o que faço?! O que fazer?! É muito difícil controlar a minha língua.”

Isso é Hatha Yoga, isso não precisa ser feito de maneira forçada. Bhakti deve ser um serviço espontâneo, e não algo forçado. 

Quando os devotos estão tomando prasada, é melhor para você se retirar, talvez em uma floresta. De outra forma você os verá comendo e não conseguirá praticar nirjala, não conseguirá cantar os santos nomes, não conseguirá fazer nada. Porque você não estará comendo com a sua boca, mas sim com a sua mente. Você estará pensando somente no quão deliciosa aquela prasada deve ser.

Então por que estou falando sobre isso? Bhakti deve ser sempre um serviço espontâneo, nunca deve se tratar de práticas forçadas. O que for que seja que o seu corpo deseja, você pode fazer. Mas não estou dizendo que vocês devem sempre desfrutar. Deve-se agir espontaneamente, mas ao mesmo tempo, deve-se dar intensidade ao ouvir e falar de hari-katha e harinama.

Por isso Krsna das Kaviraja explica no Caitanya caritamrta sobre como as gopis possuem amor e afeição espontâneos por Krsna. Bhakti deve ser como a água de um rio, fluindo espontaneamente.
anyabhilasita-sunyam 
jnana-karmady-anavrtam
anukulyena krsnanu-silanam 
bhaktir uttama
[“Uttama-bhakti, o serviço devocional puro, é o cultivo de atividades que são realizadas exclusivamente para o prazer e benefício de Sri Krsna, realizadas através de todos os esforços de corpo, mente e palavras, assim como através da expressão de variados tipos de humores espirituais (bhavas). Essa Bhakti também não é coberta por jnana (conhecimento especulativo que tem como objetivo a libertação impessoal), karma (atividades visando recompensas), yoga mística ou austeridades; e a mesma está completamente livre de quaisquer outros desejos além da aspiração por dar felicidade a Sri Krsna.” (Bhakti rasamrta sindhu 1.1.11)]

[O prefixo anu da palavra anusilanam indica que o cultivo de Bhakti deve estar em anugatya (sob a guia), sendo contínua e ininterrupta, como um fluxo inquebrável de mel. Em outras palavras, a Bhakti pura necessita de siksa constante vinda de um devoto puro.] 

Só para poder exemplificar melhor; Se você deixa o mel cair de uma jarra, enquanto o mesmo está escorrendo, ele cai bem muito, muito lentamente. Mas se você despeja a água, ela rapidamente cai por inteira. Portanto Bhakti é como este mel escorrendo, de forma muito lenta e espontânea. Mas se você tentar fazer com o mel a mesma coisa que faz com o água, verá que este não cairá tão rápido. Bhakti deve ser incessante, ‘sem parar’. Constantemente fluindo, como as águas de um rio. Um dia você está cantando os santos nomes, e no outro não está. Isso não é o que deve ser feito. Bhakti deve ser uma prática realizada todos os dias.
sankhya-purvaka-nama-gana-natibhih kalavasani-krtau
nidrahara-viharakadi-vijitau catyanta-dinau ca yau
radha-krsna-guna-smrter madhurimanandena sammohitau
vande rupa-sanatanau raghu-yugau sri-jiva-gopalakau
“Eu adoro os seis Gosvamis, os quais passaram todo o seu tempo cantando os santos nomes, cantando as canções, oferecendo dandavat-pranama, e ainda assim humildemente completando os seus votos diários de cantarem um número fixo de voltas. Dessa forma eles utilizaram as suas valiosas vidas e venceram até mesmo as demandas por comer e dormir. Sempre vendo a si mesmos como pessoas sem valor algum, eles se tornaram encantados em divino êxtase por relembrarem das doces qualidades de  Sri Radha-Krsna.” (Sri Sad-Gosvamiastakam 6)]

‘Sankhya purvaka nama gana’ – isso significa que todos os dias você deve cantar um número fixo de voltas. Por isso Krsna-katha e Krsna-nama são ‘nityam bhagavat seva’. Nityam significa ‘diariamente’. Diariamente leia o Srimad Bhagavatam. Note que existem dois tipos: um é chamado de grantha-bhagavatam, e o outro é chamado de bhakta-bhagavatam. Você deve realizar um voto. Leia todos os dias o Srimad Bhagavatam e sirva ao bhakta-bhagavatam. E todos os dias cante:

Hare Krsna Hare Krsna
Krsna Krsna Hare Hare
Hare Rama Hare Rama
Rama Rama Hare Hare

Bolo Vrindavana Bihari Lala Ki Jay!
Jay Jay Sri Radhe!

Tradução e Transrição: Sita Devi Dasi
Revisão: Vrndavana Candra Das

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