ONDE ESTÁ SEU CORAÇÃO?

• Brasília
• 23/01/2019



Shrila Gurudeva: Quem tem perguntas?

Devota: Eu tenho uma dúvida. Você disse que Mathura é aisvarya [um local predominado pelo humor de opulência], então porque Shrila Narayana Gosvami Maharaja, que está em madhurya (humor de doçura), quis morar lá?

Srila Gurudeva: Você não compreendeu. Entenda que os devotos não devem permanecer apegados ao que é externo, mas sim ao que é interno. Shrila Bhaktivedanta Svami Maharaja disse: “Eu não moro em Nova Iorque, mas sim em Vrndavana”. Ou seja, você pode estar em um lugar, mas onde deve estar o seu coração? Em Vraja. Só residir fisicamente ou externamente não é o mais importante. O importante é o quanto o seu coração e mente estão em Vrndavana. 

Algumas pessoas estão em Vrndavana fisicamente, mas onde está o coração delas? Em maya. Fisicamente podem até residir em Vraja, mas as suas mentes estão sempre em maya. Isso não é permanecer em Vrndavana. Com a sua mente é que você deve residir lá. O corpo é grosseiro, a mente é sutil e o atma, ainda mais sutil. Dessa forma, sempre fique em Vrndavana, por intermédio de sua mente. Onde você reside fisicamente não é importante, o importante é o quanto consegue se absorver em Vrndavana. Entende? Isso sim revela onde reside. 

Shrila Bhaktisiddhanta Prabhupada também permaneceu fisicamente em Dvaraka-puri e Srila Bhakti Prajñana Keshava Gosvami Maharaj realizou a peregrinação de Garga muitas vezes. No entanto, o shastra (escrituras) diz que não devemos ir para Dvaraka. Que significado então tem essa afirmação? De que estar fisicamente presente em um lugar não é o mais importante. O importante é o quanto você está absorto em Vrndavana. Mesmo Krishna, na verdade, nunca sai de Vrndavana. Ele pode até estar em Mathura ou em Dvaraka em um determinado momento, mas onde é que a Sua mente reside? Em Vraja, sempre.  

Muitas vezes eu contei a vocês o katha (história) de Nava-vrndavana (Nova Vrndavana). De como Yogamaya fez um arranjo para manifestar Nava-vrndavana em Dvaraka, o que deixou Rukmini e Satyabhama muito iradas. Mas Krishna então disse para Satyabhama: “Na verdade Eu não estou em Dvaraka-puri, pois é em Vrndavana que Eu sempre resido, absorto nos vrajavasis, experimentando a sua separação”. Assim, mesmo estando no Brasil, tentem, por meio da mente, permanecer em Vrndavana. Inclusive, residir fisicamente em Mathura não é o mais importante. O importante mesmo é onde a mente reside. 

Aqueles que são bhava-sadhakas, imbuídos de um humor de absorção, quando residem em Vrndavana, experimentam de maneira espontânea a manifestação de todos os tipos de estímulos (udipanas) em seus corações. Quando eles vão ao Radha-kunda, automaticamente emergem neles diferentes estímulos, bhava-udipana, que são próprios do Radha-kunda. 

Certa vez alguns devotos perguntaram a Svami Maharaja: “Podemos viver no Radha-kunda?” e a resposta dele foi: “Não. Vocês não possuem a qualificação necessária para morar no Radha-kunda. Se ficarem lá, estarão na verdade em Naraka-kunda (inferno), porque não podem compreender como Radharani se manifesta na forma do Radha-kunda. Assim, apenas um humor de desfrute irá se manifestar nos corações de vocês e acabarão caindo no inferno”. Foi o próprio Shrila Bhaktivedanta Svami Maharaja quem disse isso. 

Nossos gosvamis às vezes ficavam no Radha-kunda, às vezes em Vrndavana e outras em Mathura. Sanatana Gosvamipada por vezes residia em Mathura, outras em Gokula, mas a maior parte do seu tempo ele passava em Vrndavana, pois diferentes estímulos automaticamente emergiam nos corações dos gosvamis quando eles iam até lá. Entendem o que digo? 
[verso]. 

Aqueles que são bhava-sadhakas, quando avistam uma montanha, pensam que ela é Giriraja-govardhana. Com isso, todos os passatempos (lila) de Giriraja-govardhana se manifestam em seus corações. Da mesma forma, quando eles veem um rio, pensam que é o Yamuna e então outros passatempos emergem em seus corações. 

O sadhaka (praticante) deve estar sempre com a sua mente absorta em Vrndavana. 
[verso] 

Permaneça em Vraja. Como? Com a sua mente. Fisicamente, muitas pessoas estão em Vraja, mesmo os comedores de cachorro. Lá existem até mesmo matadouros onde vacas são mutiladas. Por acaso essas pessoas são vrajavasis? Não. Vrajavasis são aqueles cujas mentes e corações estão completamente absortos no humor de Vraja: vraja-bhava. Esses sim são vrajavasis. 

Shrila Bhaktisiddhanta Sarasvati Prabhupada disse que, na verdade, os verdadeiros vrajavasis são quem? Rupa e Sanatana. Eles são os verdadeiros vrajavasis. Aqueles que estão realizando bhajana e sadhana no mesmo humor de Rupa e Sanatana, seguindo os passos desses, são chamados vrajavasis. Como é possível se tornar um vrajavasi? Rupa Gosvami disse: “tad-anuragi jananugami”. Sempre cultive a companhia de devotos exaltados que possuem o humor de Vraja. Que humor é esse? O humor de Rupa Gosvami, de Rupa Manjari, com o qual se pode permanecer verdadeiramente em Vrndavana. Entendem? 

Como Rupa e Sanatana vivem em Vraja? 

he radhe vraja-devike ca lalite he nanda-suno kutah
sri-govardhana-kalpa-padapa-tale kalindi-vane kutah
gosantav iti sarvato vraja-pure khedair maha-vihvalau
vande rupa-sanatanau raghu-yugau sri-jiva-gopalakau

Leiam o sri sri sad-gosvami-astakam. Nossos seis gosvamis: Sri Rupa, Sanatana, Bhatta Raghunatha, Sri Jiva, Gopala Bhatta e Dasa Raghunatha vivem em Vraja. Como? Chorando: “he radhe, he srimati radhike - onde está você? he krsna - onde está você? he lalite he nanda suno - Ó Krishna, filho de Nanda Maharaja, onde posso te encontrar?” 

Às vezes os gosvamis iam até Giriraja-govardhana e choravam, pelo fato das lilas estarem imanifestas. Giriraja-govardhana estava lá, o Yamuna estava lá, todos os passatempos estavam lá, mas as lilas não estavam manifestas e, por conta disso, eles caiam em prantos. 
[verso] 

Assim, os gosvamis choravam em alto tom, pronunciando o nome de Radha e de Krishna, Lalita, Vishaka, etc. Esses sim são os verdadeiros vrajavasis, os quais são muito raros de se encontrar.

As pessoas dizem que estão vivendo em Vraja, em Vrndavana, mas isso só se dá externamente. Procurem entender que os vrajavasis são aqueles que experimentam esse humor de aguda separação e que choram dia e noite, como Rupa e Sanatana, conforme descrito nesse verso do sad-gosvami-astakam. Esses sim são os verdadeiros vrajavasis.

Sempre se lembrem de vraja-katha (tópicos à respeito de Vrndavana) e realizem bhajana e sadhana (prática espiritual). Inclusive, é em função disso que Rupa Gosvami explicou: “braja-loka ansarata sadhaka-rupena sidha rupena chatrahi tad-bhava lipsuna braj-loka ansarata”. Há sadhaka-rupa (a forma externa de sadhaka) e siddha-rupa (o corpo espiritual interno). Na forma de sadhaka, você pode estar em qualquer lugar, mas na forma de siddha você deve permanecer sempre em Vraja. 

Tad-bhava lipsuna (desejo, avidez) - qual é o seu desejo particular e de que forma poderá obter o humor dos vrajavasis, tais como dasya, sakhya, vatsalya ou madhurya? Dasya-bhava, pode-se obter dos vrajavasis; sakhya, de Subala e Shridama; vatsalya, de Nanda e Yashoda; madhurya, das vraja-gopis. Assim, vocês devem sempre se lembrar desse humor particular - braja-loka ansarata -, o humor dos vrajavasis, imbuído de amor e afeição espontânea por Krishna.
Ragatmika-jana, é assim que os vrajavasis são chamados, em virtude do apego profundo e espontâneo que possuem em seus corações por Krishna. Krishna-nitya-parikara, eles são companheiros eternos de Krishna e há diferenças entre jiva-tattva (almas condicionadas) e parikara-tattva (companheiros eternos de Krishna), pois os parikaras são uma manifestação da svarupa-shakti (a potência pessoal) de Krishna. O amor e a afeição que eles possuem por Krishna é espontâneo. 
[verso]

Os vrajavasis são ragatmika-jana e possuem duas qualificações em seus corações: amor e afeição espontâneos por Krishna. Nada mais, além disso. Eles passam as vinte e quatros do dia completamente absortos em sua própria rasa (relacionamento) com Krishna. Por exemplo, Subala e Shridama se absorvem em sakhya-bhava, considerando Krishna um amigo. Nanda e Yashoda vivem absortos em vatsalya-bhava, vendo Krishna como um filho. Já as gopis consideram Krishna o seu amado. Durante as vinte quatro horas do dia elas se absorvem nessa relação de amante a amado, semelhante às pessoas materialistas que se absorvem dia e noite em coisas materiais, como naquela história do comerciante que fica o dia todo envolvido com a sua loja e jamais a fecha. 

Hoje em dia há essas lojas que ficam abertas vinte e quatro horas, pois se fecharem, pensam que não irão conseguir lucrar. Certas lojas fecham à meia noite e abrem às seis da manhã, ou seja, ficam seis horas fechadas. Mas há também essas em que fica escrito: “aberto vinte e quatro horas por dia, durante todos os sete dias”. Outras lojas chegam a fechar nos domingos, mas essas não, pois não querem que outras pessoas lucrem um centavo sequer. 

Na história do ouríve, o comerciante que citei, vemos que ele se comportava exatamente dessa forma, permanecendo as vinte e quatro horas do dia sentado em sua loja. Tudo ele realizava lá, comer, dormir, etc. Ficou tão envolvido em como gerar dinheiro que um dia ele adoeceu severamente, desenvolvendo uma febre muito alta. Seu filho então disse: “Pai, vá descansar na sua cama.”, mas ele respondeu: “Não, não quero voltar para casa”. Mesmo estressado e com o corpo em chamas, enfraquecido pela febre alta, de talvez 42 graus Celsius de temperatura, ele ainda sim não queria deixar a loja.

Um médico então foi trazido por seu filho, que ao examinar o corpo do vendedor, disse: “Ó, ele está com 42 graus de febre”. Ao ouvir isso, o ouríve disse: “Eu comprei este ouro por 40, mas aceito vendê-lo por 42”, então ele abandonou o seu corpo. Isso mostra quão absorto ele estava nas coisas materiais. Os vrajavasis, de maneira semelhante, absorvem-se vinte e quatro horas em Krishna. Eles jamais se esquecem de Krishna.
[verso]

Nosso shastra nos dá essa instrução: “Lembre-se sempre de Krishna e jamais O esqueça”. Pois é o que os vrajavasis fazem, não se esquecendo de Krishna por um segundo sequer. Por vinte e quatro horas eles cantam “Govinda Damodara Madhaveti”. Isso porque são companheiros eternos de Krishna, Sua própria potência interna. Dessa forma, com coração e mente eles permanecem sempre absortos em Krishna. 

Tradução: Raghu Nandan Das Prabhu
Revisão: Gaura Hari Dasa Prabhu
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