Conhecimento Védico: Uma alternativa positiva


19 de junho de 2019, Unirio/RJ
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Estou muito feliz de estar nesta universidade para falar sobre este tema – a contribuição da cultura antiga da Índia. As pessoas que aqui falaram antes se expressaram muito bem, de forma clara e profunda. Elas explicaram um pouco acerca da cultura védica e de como podemos doar amor e amar todos os seres vivos. 

Como podemos amar de maneira irrestrita? Amar sem importar-se com casta, corpo, raça, espécie, apenas amar todos os seres vivos. Nos Vedas – as escrituras da Índia antiga, há essa instrução, que é para todos. Neles também se explica sobre como podemos amar a Deus. Pois se você ama a Deus, automaticamente ama todos os seres vivos. Deus é a Personificação do Amor Divino. Deus é amor e amor é Deus. Tudo o que existe manifesta-se dEle. Somos todos filhos e filhas dEle. Por isso respeitamos todas as pessoas e religiões, pois Deus mora nos corações de todos. Previamente, o professor aqui presente explicou muito bem sobre como devemos dar respeito a todas as religiões, dando como exemplo o budismo zen. 

keshava dhrta buddha sharira, 
jaya jagadisha hare, jaya jagadish hare
(Sri Gita-Govinda, Sri Dasavatara Stotram)

As escrituras védicas explicam claramente por meio desse verso supracitado que Krishna, ou Keshava – o Deus original, se manifesta também como Buddha em sua encarnação denominada Buddha Sharira. Deus gera uma potência (energia) no coração de cada ser vivo. Sem a Sua potência, não conseguimos fazer nada. Em essência, os pregadores de todas as religiões dizem a mesma coisa. A língua, o sentimento, o modo de falar são os elementos que os diferem, isto é, a diferença se dá de acordo com as circunstâncias. Na cultura antiga da Índia existe uma base filosófica – prema maitri, que fala sobre como amar e ser amigo de todos os seres vivos. Mas segundo a cultura indiana, nos dias atuais desta era denominada Kali-yuga, é muito difícil amar, criar amizade e até mesmo nos relacionarmos uns com os outros, visto que temos o egoísmo, que só nos atrapalha. Então como respeitar todos os seres vivos? O que determina um ser vivo? Toda jiva é possuidora de três propensões: sentir, desejar e conhecer. Antigamente as pessoas achavam que as árvores não tinham vida. Porém, um cientista chamado Jagadish Chandra Bose descobriu que havia sim vida nas árvores, isso já há muito tempo atrás. Por exemplo, se você plantar uma pequena trepadeira em seu quarto, ela naturalmente irá crescer em direção aos raios do sol. Elas espontaneamente querem luz e comida (a água). Todo ser vivo possui essas três potências; a de sentir, a de querer e a de saber. Vocês já devem ter visto na floresta, em alguns lugares, que existem plantas nas quais caso encostemos, suas folhas se fecham. Isso somente por conta de seu toque. As plantas têm essa sensibilidade, elas são capazes de sentir, desejar e saber. Por isso, se define o ser vivo como todo aquele que sente, deseja e sabe. Outro ponto importante é estar ciente de que você não é esse corpo, mas sim a alma que reside dentro dele. O corpo só funciona enquanto a alma encontra-se presente nele. Mas esta é muito diminuta, sendo menor até que uma molécula. 

keśāgra-śata-bhāgasya
śatāṁśaḥ sādṛśātmakaḥ
jīvaḥ sūkṣma-svarūpo ’yaṁ
saṅkhyātīto hi cit-kaṇaḥ
bālāgra-śata-bhāgasya
śatadhā kalpitasya ca
bhāgo jīvaḥ sa vijñeya
iti cāha parā śrutiḥ
Śrī Caitanya-caritāmṛta, Madhya-līlā (19.140-141); Śvetāśvatara Upaniṣad, (5.8-9)

Existe essa passagem nos Vedas que revela o tamanho da alma. Esse verso explica que se você pegar a ponta de um fio de cabelo e dividi-la em cem partes, dividindo então uma dessas cem pequenas partes em outros cem fragmentos, o tamanho de um desses fragmentos é aproximadamente o tamanho da alma. E também existem infinitos seres vivos. Todos esses passam o tempo vagando pelo ciclo da reencarnação, em repetidos nascimentos e mortes. (Verso) Nessa passagem em sânscrito, é explicado: quando pela manhã você vê o sol que entra pela sua janela, pode-se notar que há muita poeira e pequenas partículas soltas pelo ar. Geralmente nós olhamos e não conseguimos ver essa mesma poeira no ambiente, mas quando o sol está nascendo e os primeiros raios entram pela janela do quarto, podemos notar tal fenômeno. Da mesma forma, existem infinitos seres vivos que permanecem vagando pelo ciclo da reencarnação, em repetidos nascimentos e mortes. Muitos ateístas dizem que não acreditam na alma e nem em Deus. Eles dizem, “eu nunca vi a alma, tampouco vi Deus, então por que devo acreditar que eles existam?”. A resposta é simples, existem muitas coisas que não conseguimos ver mas acreditamos ainda assim. 

Certa vez, um rei perguntou a seu ministro, “Quem já viu Deus? Onde Ele está? E o que Ele está fazendo?”. O ministro disse que lhe responderia as perguntas após cinco dias. E assim, o ministro ficou refletindo sobre como poderia provar algo para alguém como o rei, que era totalmente ateísta. 

Muitas pessoas não acreditam em escrituras sagradas como os Vedas, Puranas, Upanishads, as quais são auto manifestas. Por isso, o ministro se perguntava, “Como provarei algo ao rei e lhe darei as respostas às três perguntas que ele me fez?”. Então o ministro foi para sua casa e lá permaneceu por alguns dias, ansioso e preocupado com o que faria. Ao lhe ver assim, seu filho mais novo perguntou-lhe qual era o motivo de tanta ansiedade e preocupação. E o pai disse, “Você é muito pequeno, não vai entender”. Mas o filho insistiu, “Pai, me conte, porque está tão ansioso?”. O ministro então contou sobre as três perguntas que o rei havia lhe feito. Logo, o filho respondeu, “Pai, as respostas para essas perguntas são muito fáceis!”. Espantado, o ministro perguntou, “Filho, você sabe responder todas?” e o menino disse, “Sim, claro! Eu posso respondê-las ao rei!”. 

Então, assim que se passaram os cinco dias, o ministro chegou à corte do rei, que logo lhe perguntou, “Você já é capaz de responder a mim as três perguntas que te fiz?”, e o ministro replicou, “Ah! Essas são perguntas para bebês e crianças! Até meu filho pequeno pode respondê-las!”, e o rei questionou, “Seu filho pequeno irá respondê-las?”, e o ministro afirmou, “Sim, ele mesmo!”. Assim sendo, o rei se dirigiu ao filho do ministro, lhe indagando, “Você é capaz de responder minhas três perguntas?”, e o menino disse, “Sim, claro! São muito simples! Para a primeira pergunta, “quem já viu Deus?”, a resposta é a seguinte:  Quem pratica o processo de autorrealização, isto é, bhajana e sadhana – o cantar dos Nomes de Deus, acaba conseguindo vê-lO. Por exemplo, a água é denominada cientificamente como H2O, mas como podemos saber que ela é formada por essas moléculas de hidrogênio e oxigênio? Isso se dá pois se formos ao laboratório e fizermos o experimento, poderemos observar como o hidrogênio e o oxigênio se combinam para formar a água. A ciência sempre aborda teoria e prática. Similarmente, a ciência espiritual também trata questões práticas. Por isso, se você anseia ter visão de Deus, precisa realizar uma prática para conseguir vê-lO de fato, e esta trata-se de serviço devocional”. Então o menino continuou, “Quanto à segunda pergunta, sobre onde está Deus – Deus está em toda parte, onde Ele não está? Deus habita em todo lugar. Por exemplo, há uma manteiga clarificada e pura que se chama ghee. Ela se encontra presente dentro do leite ou não? Se você observar o leite, não conseguirá vê-la. Para isso, é preciso fazer com que esse mesmo leite passe por um processo. Ou seja, você terá que transformar o leite em iogurte, o iogurte em manteiga, e depois refinar a manteiga até que ela se torne ghee – a manteiga clarificada. Portanto, por mais que não possamos ver, o ghee está sim presente em toda parte do leite. Da mesma maneira, Deus está em toda parte”. 

O rei então disse, “Está bem, entendi! Mas e a terceira pergunta? O que Deus está fazendo?”, e o menino replicou, “A resposta à essa pergunta é muito fácil!”, o rei, surpreso, indagou, “Simples?”, e o garoto reafirmou, “Sim, muito simples! Vou te provar, mas antes de mais nada, devo te lembrar que quem faz perguntas geralmente é o aluno, e quem as responde é o professor”. O rei ficou confuso, sem entender muito bem o que o menino quis dizer, então a criança prosseguiu, “Normalmente quem responde às dúvidas se senta em um nível superior, e você está sentado aí nesse trono pois é o rei. Mas já que está me fazendo perguntas, poderia descer do trono e sentar-se aqui no chão? Se sou eu quem estou respondendo, devo me sentar no trono, na plataforma mais alta”, e o rei concordou. Assim, ambos trocaram de posições, e o rei então questionou novamente, “Diga-me agora, o que Deus está fazendo?”, e o menino disse, “Deus está fazendo isso!”. O rei, perplexo, falou, “Isso? Isso o quê?”. 

O que seria “isso” que Deus está fazendo? Significa que um dia você pode estar na posição de rei, outro dia na posição de um mendigo. O que ocorre neste mundo é que ora somos ricos, ora não temos nenhum centavo. E é Deus quem está por trás de tudo isso, controlando e mudando a posição de todas as coisas, pois Ele é o controlador supremo. Você não ficará rico e nem pobre para sempre, as coisas sempre mudam. Mas quem controla a tudo o que acontece? Deus, o controlador supremo. É somente Ele quem o faz. 

Às vezes temos muito falso ego. Ficamos pensando, “Fui eu quem fiz isso!”, “Sou eu quem faço!”. Mas essa não é a realidade. Por isso o nome dEle é Deus. Deus em inglês é “God”. GOD significa, “G” de gerador, “O” de operador e “D” de destruidor. Deus nos dá tudo. A ciência não cria o ar, mas sim é Deus quem o faz. De onde vêm os elementos hidrogênio e oxigênio? De Deus, tal como a própria água. Em suma, tudo o que existe vem dEle e é Ele quem nos dá tudo. Mas às vezes nós poluímos e destruímos. O professor que está aqui presente falou tão bem sobre isso. Na cultura védica se diz, por exemplo, que devemos plantar árvores, e não as cortar desnecessariamente, pois são elas quem nos dão o oxigênio. A ciência espiritual afirma que a árvore é um grande exemplo, pois ela sacrifica completamente a sua vida pelos outros. Mesmo que você corte uma árvore, ela ainda lhe dará seus frutos. Há um tipo de árvore de sândalo cujo nome em sânscrito é chandan. Ela é muito aromática, e se você a cortar com um machado, o machado absorverá seu aroma – uma fragrância maravilhosa. Imagine-se no lugar da árvore: mesmo quando cortada, ela passa a sua fragrância ao machado, que só lhe fez mal. 

Há uma passagem das escrituras que explica sobre isso – não é só porque uma árvore não lhe dá frutos, que se deve cortá-la. A árvore proporciona oxigênio, sombra, isto é, ela te dará tudo, mesmo que não dê frutos. 

Há uma história que narra sobre um rei que andava por uma estrada. Ao passar por baixo de uma árvore de mangueira, coincidentemente havia no topo dela um menino tentando pegar uma manga. O menino atirou uma pedra para derrubar a fruta – o que de fato conseguiu, porém, quando atirou a pedra, esta acertou os olhos do rei que passava por ali e o deixou cego. Assim, o exército do rei ordenou que apanhassem o garoto e o punissem, mas o rei, muito generoso, disse, “Vejam só, o menino atirou uma pedra na árvore, e mesmo assim essa lhe deu uma manga! Vejam o quão tolerante é a árvore”. Com este exemplo, o rei exigiu que não fizessem nada ao garoto. 
Portanto, o Senhor Chaitanya Mahaprabhu ensina: 

tṛṇād api sunīcena 
taror api sahiṣṇunā 
amāninā mānadena 
kīrtanīyaḥ sadā hariḥ
[Caitanya Caritamrta, Adi 17.31] 

Para quem deseja cantar os Santos Nomes de Deus, deve-se ser sempre tolerante como uma árvore e tão humilde quanto uma palha de grama. Portanto, todos temos de ser assim, mais humildes do que uma folha de grama e tolerantes como uma árvore. Sigam o exemplo da árvore, não se vinguem, assim como nessa história do menino que atirou a pedra na mangueira e em troca recebeu seu fruto, a manga. Devemos ter também a qualidade de sermos capazes de respeitar todos os seres vivos, e em quarto lugar, nunca ansiarmos por reputação, fama, honra ou prestígio próprios. Falo isso pois esse é o melhor ensinamento da cultura da Índia antiga. Outra lição importante é a de que as árvores em especial purificam todas as coisas contaminadas. Portanto, para viver, precisamos ter quatro coisas na vida: em primeiro, o ar; em segundo, a água; depois, a comida; e por último, os remédios. Sem ar não conseguimos viver, e as árvores nos dão ar. Além disso, sabemos sobre a ligação delas com a questão das chuvas. Quando se tem muitas árvores no topo de uma montanha, as nuvens vêm, uma chuva cai sobre aquele topo e a água é enfim retida. A terceira coisa que precisamos é a comida, mas o que devemos ou não comer? Isso também é explicado nas escrituras da Índia antiga. Nem tudo o que Deus criou é para ser comido. Na cultura védica, explica-se sobre tudo aquilo de que devemos ou não nos alimentar. Uma verdade sobre este mundo é que todo ser vivo precisa comer outro ser vivo para sobreviver, não é? Por que somos vegetarianos? Por que não comemos outras coisas? Não falo isso querendo forçar vocês a se tornarem vegetarianos, mas sim porque é o que a cultura da Índia antiga afirma. Por exemplo, Deus criou a grama, o capim e a gazela, tal como a vaca, o tigre e o leão. As vacas comem o capim, enquanto os tigres e leões comem as gazelas. Mas Deus também criou a nós, seres humanos, e o que devemos comer? Isso depende de nós. Quanto amor e afeição você pode sentir? De acordo com esse amor, você poderá discriminar entre o que é bom e ruim. Por isso as escrituras da Índia antiga explicam que os alimentos se enquadram em três categorias de qualidade, sendo essas a qualidade da ignorância (tamasik), a da paixão (rajasik) e a da bondade (sattvik). O tipo de comida da qual você se alimenta influencia diretamente em sua natureza, sua mente e assim por diante. Se você come alimentos que estão na qualidade da ignorância, irá absorver essa mesma ignorância. Enquanto ao comer alimentos na qualidade da bondade, sua mente irá se situar também na bondade. Tudo depende daquilo que come. A forma como você se comporta está completamente relacionada com o que come. Por isso as escrituras da Índia antiga explicam sobre o que se deve ou não comer. Os Vedas (escrituras sagradas da Índia) são como uma legislatura, um livro de leis que se chama Samhita, onde se explica como devemos nos comportar e conduzir nossa existência. Devemos aplicar essas regras em nossas vidas. Quando o ser humano segue normas de comportamento, a sociedade se desenvolve. Já quando este não as segue, não é possível que a sociedade se desenvolva. Por isso todo país possui legislação. Se você quebrar as regras e leis presentes na constituição, o governo irá lhe punir. Até mesmo se dirigir seu carro na contramão, a polícia te punirá, e o governo também. De forma similar, Deus cria essa legislação, os Vedas, para que todos sigamos. Na verdade, os Vedas não foram manifestados por um ser humano, o termo sânscrito que define isso é apauriseya, que significa auto manifesto, ou seja, o que não pode ser escrito por nenhum ser humano. Essa cultura descende desde Krishna, Brahma, Narada, Vyasa, e de tempos em tempos as pessoas redescobrem esses ensinamentos. Nos Vedas, está explicado tudo a respeito de como podemos desenvolver a sociedade. Também há muitos outros ensinamentos, como a métrica, o canto, a gramática – tudo isso está descrito nas escrituras. Todos esses conhecimentos vieram originalmente dos Vedas, e mais tarde foram vistos e analisados pelas pessoas. Portanto, estamos tentando analisar profundamente esses ensinamentos e espalhá-los pelo mundo inteiro. 

O que significa Veda? Vem da raíz verbal “vid”, que significa conhecer, saber, experimentar. Originalmente existiam quatro Vedas: Rig, Yajur, Sama e Atharva. Além disso, os Vedas também são compostos de muitos mantras, sendo estes vibrações transcendentais, capazes de purificar toda a poluição, até mesmo a do ar.

Hare Krishna
Hare Krishna
Krishna Krishna
Hare Hare
Hare Rama
Hare Rama
Rama Rama
Hare Hare

Esse é um exemplo de vibração transcendental, referido em sânscrito como sabda brahma. Quando você outorga esses sons, eles se espalham por toda parte. Por exemplo, de acordo com a ciência, quando você joga uma pedra no mar, esta forma ondas que atingem uma distância grande, até o outro lado do mar. Você não é capaz de ver até onde elas vão, mas as ondas chegam de fato ao outro lado, por mais pequenas que sejam quando o fazem. Mas se realizarmos a experiência em uma escala menor, pegando um copo d’água e jogando uma pedra dentro dele, poderemos ver que aquelas pequenas ondas geradas chegarão até a margem do copo. As escrituras, portanto, explicam que se você propaga essa vibração transcendental dos mantras, geram-se ondas que vão limpando e purificando tudo por toda parte do mundo. Como já fora dito anteriormente, a cultura da Índia antiga afirma que tudo deve ser baseado em amor e amizade, prema e maitri. A cultura indiana sempre enfatiza o amor e a afeição, lembre-se disso. Tente sempre ser amigável com todos. Nosso tempo é limitado e neste mundo tudo é igualmente limitado. Mas no mundo espiritual e metafísico, tudo é ilimitado, assim como Deus também o é. Ele é infinito. Assim como na matemática, que se diz que o infinito menos infinito ainda resulta em infinito. 

Certa vez, quando pequeno, perguntei ao meu professor: “Se sete menos dois é cinco, seis menos três é três e um menos um é zero, porque então o infinito menos infinito não resulta também em zero?”. Pois ao subtrair um algarismo de outro, este irá diminuir. Mas até na matemática é dito que o infinito menos infinito ainda resulta em infinito. Isso se dá pois tal questão é inconcebível (acyntia). Da mesma forma, essa é a concepção mental para tentarmos entender. Deus é ilimitado e infinito, mas neste mundo tudo tem um limite, seja o tempo ou até mesmo o espaço. Somente Deus e Sua morada são transcendentais e infinitos. Em sânscrito afirma-se que este mundo é apurna (incompleto). Por isso, neste plano material nada é completo. Como por exemplo o nosso conhecimento – se você desejar adquirir conhecimento, notará que este nunca acabará, mesmo que o busque por toda sua vida. A morte virá e ainda assim terão coisas que não foram aprendidas. O conhecimento é infinito – jñana ananta brahmaJñana significa conhecimento, e ananta, ilimitado. O quanto você conhece e pode falar a respeito do que é espiritual? Tudo aqui neste mundo chega a um fim, mas o plano espiritual não. 

Momento de perguntas da plateia

Espectador 1: Qual é o significado de Bhakti yoga? E o que é advaita

Shrila Gurudeva: A pergunta que fez é pequena, mas a resposta é bem grande! Muitas coisas estão contidas nessa questão. Nota-se três palavras em sua pergunta: bhaktiyoga e advaita. De maneira simples, podemos dizer que bhakti significa serviço devocional a Deus. A palavra vem do sânscrito e significa servir a Deus. Yoga também é outro termo em sânscrito que significa união. Por exemplo, agora estamos todos juntos aqui no auditório desta faculdade, mas como poderemos da mesma forma nos encontrar com Deus? Se praticarmos bhakti yoga, certamente nos uniremos com Ele. Ou seja, só assim poderemos nos encontrar. Advaita significa aquilo que não é dual. Em sânscrito existem as palavras dvaita e advaitaDvaita é dualismo e advaita é a negação desse mesmo. Deus é um só, mas ao mesmo tempo Ele também manifesta diversas formas e tem ilimitadas potências. Como podemos conhecê-lO? Somente através de bhakti yoga, isto é, serviço devocional ao Senhor, como previamente explicado por Ele próprio. Deus é um, mas tem infinitas potências e formas (ananta shakti). Muitos que não compreendem tal filosofia, acham que somos todos um só, o que não é verdade. Esses pensam que Deus existe e todos nós somos Ele (Brahma), e nada mais existe. De fato, pertencemos a Brahma – Deus. 

Existem duas coisas, Deus e sua potência. Sendo Ele a fonte da potência, tudo vem dEle. Como por exemplo o fogo e o calor do fogo. Pode-se compreender ambos como sendo iguais e ao mesmo tempo diferentes. Onde quer que haja fogo, há também o calor, automática e espontaneamente. Cada elemento existente possui uma natureza intrínseca ali presente. Outro exemplo se dá com o gelo. A potência do gelo é esfriar. Isso lhe é algo auto manifesto e inerente. Tal como o calor do fogo se encontra dentro do próprio fogo. Esse dualismo existe. Há um dito popular em sânscrito que diz que existem sempre dois dedos, sendo estes a potência e o possuidor da potência. Por exemplo, Krishna tem toda potência, todos os seres vivos estão contidos nessa Sua potência.  Na Bhagavad-gita, Krishna explica sobre como todos são partes integrantes Dele. 

Espectador 2: Uma das coisas que a ciência não sabe nos explicar é a origem da vida, onde essa começou. Eu gostaria de saber a sua visão sobre isso, se é tudo vivo, se a vida sempre existiu, ou se ela tem uma origem, visto que a ciência fala de forma muito rasa sobre isso, enquanto nós buscamos essa resposta como se ela existisse de fato.

Espectador 3: O que você sabe sobre Jesus Cristo? 

Shrila Gurudeva: Vou responder às duas perguntas. Jesus é uma encarnação de Deus, e sem a potência dEle, ninguém conseguiria fazer o que Jesus fez. Logo, assume-se que o Senhor deu a ele potência para pregar e dar seu exemplo de amor e afeição por todos os seres vivos. Em todo o mundo, as pessoas gostam de Jesus Cristo, pois ele pregou que Deus é nosso pai e nós somos Seus filhos e filhas. Isso é muito importante, darmos respeito a todos, visto que todos nós somos filhos de Deus. A Bíblia afirma em uma passagem, “Deus é amor e amor é Deus”. Deus é a personificação do amor divino. Por isso, nós respeitamos Jesus. Sem a misericórdia e a potência de Deus, quem seria capaz de pregar como Jesus, que o fez, e fez também com que as pessoas aceitassem suas instruções? Respeitamos Jesus pois ele é uma encarnação de Deus. Em nenhuma parte da Bíblia ele se diz o próprio Deus, mas sim o filho dEle. Quando um pai dá a potência a seu filho, o filho consegue realizar muitas coisas. 

Quanto à segunda pergunta, sobre a origem da vida, há um exemplo do sol e seus raios. Onde quer que o sol esteja, os raios do sol também estão. Em nossas vidas, o sol existe no céu, e de acordo com nossa visão, vemos que existe o dia e também a noite. O sol nunca se põe, estando sempre presente. Por exemplo, agora é noite aqui, mas na Índia o sol está nascendo nesse mesmo momento. As escrituras védicas comparam Deus ao sol, e tal como existe o sol e seus raios, Deus existe eternamente e as almas também. Porém, essas estão vagando pelo ciclo de reencarnações, e a depender do momento, elas encarnam em diferentes locais e espécies. O ser vivo é parte integrante de Deus. O exemplo do sol e seus raios é uma constatação material que nada tem a ver com a eternidade da alma e de Deus, mas serve como analogia para compreendermos e aprendermos sobre esse assunto. A lógica para se entender as coisas espirituais é denominada (....), assim como o bebê quando pergunta para a mãe onde está a lua e ela lhe responde, apontando para a árvore de mangueira, “a lua está ali”. A lua realmente está naquela árvore? Não, ela está muito longe dali, mas nós a vemos nascendo por trás da árvore e por isso apontamos como se estivesse ali. 

Outro exemplo se trata de quando estamos andando na praia pela manhã e ao observar o horizonte podemos pensar que o sol está nascendo no mar, mas por acaso o sol nasce lá de fato? Vão a praia amanhã pela manhã e vejam isso acontecer. Falo disso pois tópicos espirituais não podem ser abordados de maneira completa, o que falamos só serve para nos dar alguma noção. Mas eis que surja a pergunta, “como poderei saber completamente sobre assuntos espirituais?”. Quando você receber a misericórdia de Deus, isto é, quando Ele próprio se manifestar em seu coração, então você finalmente conseguirá obter a compreensão e a autorrealização mais profundas. As naturezas material e espiritual são completamente diferentes entre si. Queremos sempre tentar entender tudo com nossos cérebros materiais, mas como poderemos compreender acerca da natureza espiritual dessa forma? Por isso só podemos cultivar alguma noção básica. A compreensão completa se dá quando praticamos bhajana e sadhana e recebemos a misericórdia do Senhor. Um professor pode dar aula para milhares de pessoas em uma plateia, porém nem todos irão compreendê-lo. Assim, de acordo com sua capacidade, cada aluno entenderá de uma forma diferente o que for dito. Diferentes entendimentos se darão conforme a inteligência de cada um. Alguns entenderão 90%, outros 40% e outros 50%, mas é muito difícil o entendimento pleno do que quer que seja dito. O que o professor transmite é incompleto, e de acordo com a capacidade individual dos alunos, cada um terá sua própria forma de assimilar o conhecimento. Você pode perguntar aos professores sobre isso. Todos os dias eles ensinam sobre os mesmos assuntos, e no dia seguinte, quando perguntam sobre tais tópicos aos alunos, grande parte desses nem se lembra, ou quando lembra, trata-se apenas de uma pequena parte do que fora ensinado. Cada qual assimila por sua maneira. Visto isso, é necessário que se deem diversos exemplos diferentes. Algumas pessoas detêm inteligência muito aguçada, enquanto outras são mais lentas para raciocinar. Nem todas as pessoas são iguais. Existem muitos ensinamentos nos Vedas, e lá eles dão exemplos que você irá compreender de acordo com sua capacidade. 

Agradeço a gentileza de me receberem aqui, e peço para que todos tentem se tornar vegetarianos, deem muito amor e afeição a todos os seres vivos e cantem os santos nomes de Deus:

Hare Krishna
Hare Krishna
Krishna Krishna
Hare Hare
Hare Rama
Hare Rama
Rama Rama
Hare Hare

Se o fizerem, serão muito felizes. Tentem ser compassivos com todos os seres vivos. Como expliquei antes – prema maitri, cultivem amor, afeição e amizade. 

Transcrição: MonMohini Devi Dasi (Balneário Camboriú)
Revisão: Vrndavana Chandra Dasa (Santo Antônio do Pinhal)